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Os caminhos e as ilusões na carreira do roteirista

Atualizado: Set 19

Pedro Riguetti, roteirista de projetos como "Sob Pressão", traz insights sobre rotina, produtividade na sala de roteiro e alertas sobre concursos internacionais

"Sob Pressão". Imagem: Correio Braziliense

A profissão de roteirista é uma das mais desafiadoras do mercado audiovisual. Bloqueios criativos, prazos impossíveis, longas muito longos… São muitas as questões que habitam o dia a dia de um roteirista e que ele precisa saber lidar.


Por isso, conversamos com o roteirista, autor e professor Pedro Riguetti, que assina trabalhos como "Sob Pressão" (2017, Globo), roteiro de videoclipes do cantor Rubel e a autoria do site O Roteirista Insone, sobre escrita de roteiro para cinema, televisão e internet.


Na conversa, Riguetti conta como foi sua trajetória de formação como roteirista, esclarecendo muitas das dúvidas de quem ainda não tem certeza sobre qual rumo seguir. Ele também explica em detalhes como funciona uma tradicional sala de roteiro de série, baseado em suas experiências com a TV Globo e outros locais.


Por fim, o roteirista também alerta para os famigerados concursos de roteiro estrangeiros, que prometem muito, mas não valem tanto para a carreira do roteirista.


Entenda tudo isso e muito mais na nossa matéria! 


Quem é Pedro Riguetti

Pedro Riguetti. Imagem: acervo pessoal

O roteirista, escritor e professor tem 28 anos, é formado em Cinema na PUC Rio e possui Mestrado em Roteiro pela EICTV (Cuba). Alguns trabalhos de destaque envolvem a participação dele na equipe de roteiro da série "Sob Pressão", onde entrou na segunda temporada e acabou também roteirizando a terceira e quarta temporada.


Ele também participa das salas de roteiro de outros projetos da Globo e foi colaborador no longa-metragemMacabro” (2019, Zazen).


Também como roteirista, Riguetti assinou duas séries infantojuvenis para o sistema de ensino Eleva: "Anexo 11" (2017) e "Supernova". No mundo dos videoclipes, ele assina roteiro para alguns dos vídeos do cantor Rubel, como Quando Bate Aquela Saudade”, “Partilhar” e “Ben”.


Além disso, é criador e escritor do site O Roteirista Insone, onde traz discussões narrativas, teóricas e estruturais sobre roteiro (e que em breve terá podcast). Ele também trabalha como consultor e professor de roteiro, tendo passagem pela PUC, vários laboratórios, palestras e eventos.


Alguns pilares essenciais da carreira do roteirista

Como você já sabe, são muitas as questões que envolvem ser um roteirista. Muitas têm a ver com a arte: criatividade articulada, ampla gama de referências, noções de gêneros fílmicos, disposição em passar horas escrevendo, etc.


Mas a outra grande parte disso é saber como se virar no mercado e como entrar nele de fato. Aqui na WR51, gostamos de exibir diferentes caminhos através de entrevistas com autores. Com Riguetti não foi diferente: o roteirista dividiu conosco ações e ensinamentos importantes sobre o desenvolvimento do roteirista.


Para ele, as ações mais relevantes que ele fez para ingressar nessa profissão envolveram seu foco constante na carreira de roteiro, que nasceu como uma "obsessão". O estudo e diálogo com professores de roteiro, como o roteirista Lucas Paraizo, também foram muito enriquecedoras para a formação e carreira do Riguetti. 


Mas como Riguetti entrou mesmo no mercado?

RIO2C. Imagem: reprodução

"Fiz muitos projetos, tentava me inscrever em festivais, laboratórios, etc.", conta. "E um dos projetos que desenvolvi, que era uma série, acabou sendo selecionado para o Laboratório Transmídia do Rio Content Market em 2013 e acabei conhecendo o roteirista René Belmonte. Ele gostou muito do projeto e de mim [...]".


Esse fato rendeu o primeiro trabalho pago de Riguetti, o de assistente de roteiro.


Ao longo do tempo, fui percebendo que os meus projetos, que eu apresentava, que eu tentava e que eu fazia, nunca viravam uma grande coisa, mas sempre me traziam algo. Esse projeto de série que fiz nunca foi realizado, mas consegui meu primeiro trabalho pago por causa dele. - Pedro Riguetti

Ao comentar sobre "curtas sem grana que não foram a lugar nenhum", mas que renderam muitos parceiros de trabalho e contatos, Riguetti nos leva a outro pilar da carreira: relações profissionais.


Sabemos que isso é importante para muitas carreiras, mas no caso do roteiro, o positivo é que o networking pode servir a muitos propósitos.


"Como sou muito fechado, sou muito ruim de networking [...]. Algo que me ajudou foi criar relações verdadeiras, íntimas. As pessoas com quem trabalhei são meus amigos mesmo, se tornaram minhas amigas por conta do trabalho", diz Riguetti. 


Se você quiser mais dicas sobre contatos no mercado, leia nossa matéria sobre isso.


Como funciona uma sala de roteiro de série?

Sala de roteiro de "Breaking Bad". Imagem: reprodução

Sabemos que cada projeto é um projeto e suas especificidades vão variar. Contudo, entender os mecanismos de uma sala de roteiro é fundamental para quem trabalha com isso. 


Riguetti atenta justamente para o fato de que cada sala de roteiro vai funcionar de acordo com "a metodologia que for aplicada pelo showrunner". Aí, ele traz alguns exemplos como a Globo, que segue o modelo americano


Esse modelo possui uma divisão de funções muito clara, com várias categoria de roteirista. Contudo, de acordo com Riguetti, aqui no Brasil não tem isso. "No máximo vai ter um braço direito do showrunner, que é uma pessoa mais experiente, mas em geral é: showrunner, roteirista e assistente", afirma.


Baseado em suas experiências, Riguetti traça um esquema básico do fluxo de trabalho de uma sala de roteiro de série: 

A gente se reúne, discute como vão ser os personagens, qual vai ser a história, faz a sinopse dos episódios, tudo certinho. Quando começa o desenvolvimento, a gente se discute o primeiro episódio, por exemplo; faz a escaleta coletiva desse primeiro episódio e daí uma pessoa sai para escrever. E aí depois a gente debate o que ela escreveu, ela reescreve, a gente debate e o showrunner afina o texto. - Pedro Riguetti
Sala de roteiro de "Empire". Imagem: THR

É possível que esse fluxo seja um pouco diferente quando a série trabalha com divisões de linhas narrativas, ou "trilhas".


Riguetti explica: "Tem série onde sai uma pessoa para escrever e essa pessoa ganha o crédito pelo episódio e tem série onde você divide as trilhas do episódio. Aí cada pessoa escreve uma trilha, cada um escreve um personagem, por exemplo. Aí, quando junta tudo, todo mundo que escreveu ganha crédito de roteirista". 


Depois da escrita e discussão final com o showrunner, o workflow da sala ainda envolve enviar para o canal ou produtora, acatando às observações deles. É bom lembrar que tudo (fluxo de trabalho, presença ou não de assistente, tempo de escrita) também depende do orçamento do projeto.


Confira outros exemplos de sala de roteiro na nossa entrevista com Alice Name-Bomtempo, que trabalhou no longa-metragem "Modo Avião", com a Netflix, além de outros projetos.


O lugar da inspiração na sala de roteiro

"No processo da sala de roteiro, é difícil você ter espaço para essa inspiração romântica, não tem tempo pra ter esse momento", afirma Riguetti. Isso é uma das coisas mais difíceis de se lidar nesse processo, ainda mais quando a criação é em conjunto


Portanto, "A questão é que a gente precisa pensar na história, todo mundo, e cumprir: naquela semana, precisamos fazer aquela escaleta, então vamos fazer aquela escaleta", diz o roteirista.


Mas isso é individual, já que existem muitos estilos de roteiristas. Riguetti traz alguns deles, quando fala que "Tem roteirista que é muito bom em diálogo, tem outros que são bons com humor, em fazer graça. Tem roteirista que fica lá parado sem fazer nada e às vezes dão umas ideias geniais (esses não duram muito)".

Eu por exemplo, vou pegando as ideias e trabalhando elas na cabeça. Como meu forte é estutura, vou dando ideias voltadas à estrutura, pra manter o episódio em pé e pra garantir que nada saia muito do lugar. Então, às vezes, fico calado, escutando. E quando acho que tenho algo interessante, já apresento uma opção mais completa de estrutura. - Pedro Riguetti

Essa questão é fundamental para manter tudo dentro da lógica estrutural do planejamento narrativo. Por isso, conhecer o seu próprio ponto forte e seu próprio processo de contribuição é extremamente necessário ao trabalhar numa sala de roteiro.

"Sob Pressão". Imagem: Correio Braziliense

Mas e quanto ao que não fazer a fim de manter um bom fluxo de trabalho? 


Riguetti oferece um guia simples e eficaz: "Não desrespeitar os outros, ou achar que sua ideia é perfeita e ficar lutando muito por ela. Se você solta uma ideia e a vê que a galera não comprou, desiste e vai pra próxima", diz. 


Ele continua: "Tem roteirista que fala muito também. Quando vai dar uma ideia, toma muito tempo. Algo que dá pra explicar em 1 minuto, a pessoa gasta 5. Esse negócio prolixo atrapalha demais". 


Essa dica vale muito para reuniões e pitchings também, onde muitas vezes acontecem papos-furados ou explicações muito extensas que atrapalham a compreensão de todo mundo.


Festivais e laboratórios: benefícios e alertas

Na faculdade, Riguetti não identificou muito a presença de concursos e festivais de roteiro. Ele conta que isso veio mais forte na época do aquecimento do mercado, que ocorreu em decorrência do aumento de demanda de conteúdo gerado pela Lei da TV Paga (2011).


Ele, então, começou a frequentar os eventos de mercado quando já estava trabalhando. Foi chamado para palestrar no FRAPA, por exemplo, um dos maiores eventos de roteiro do país. 

Hoje eu acredito muito nisso. Acredito que você tem que ir nesses eventos se possível, participar, tentar conhecer gente que está querendo ser roteirista que nem você, tentar se inscrever no FRAPA, no Rota, no Primeiro Plano, etc. - Pedro Riguetti

Contudo, Riguetti traz um grande alerta para os roteiristas que têm a meta séria de seguir essa carreira: "A única coisa que discordo veementemente é essa onda de se inscrever em concurso de roteiro fora do Brasil. Tirando o Guiões e outros da América Latina".  


Ele continua: "Esses prêmios, esses concursos, eles não tem valor real no mercado. É muito pequeno [...]. No mercado que conheço e estou inserido, esses prêmios não são levados a sério”.


Já comentamos sobre essa questão em uma matéria, pois é algo que ainda faz brilhar muito olhar de roteirista.

Riguetti explica outro lado de sua crítica. "Sou bastante contra isso, acho que há uma glamourização disso. Tem muito festival e concurso desses que são caça-níquel, as pessoas abrem pra ganhar dinheiro. É um mercado que não ajuda muito na realidade", alerta. 


O roteirista ainda menciona outra questão muito importante sobre isso: a da "validação" em outro mercado. "Você vai estar validando seu roteiro através de um mercado que não é o nosso". Ou seja, não é necessariamente compatível com nossas histórias e necessidades dentro do mercado audiovisual brasileiro. 

Se você é brasileiro e quer ser roteirista aqui, não adianta muito botar lá fora. Você tem que participar do FRAPA, do Rota, do Primeiro Plano, do Cabíria. São esses os importantes. - Pedro Riguetti

Se você está tentando entrar no mercado de lá, ele também pede por atenção: "é muito mais disputado. Os americanos sempre vão sempre optar por contratar uma pessoa de lá, ao invés de um brasileiro", afirma.


Mas o que fazer ao invés de participar desses milhares de concursos de cidadezinhas do interior dos EUA? Riguetti sugere: "Gaste essa grana de tradução e inscrição fazendo cursos, ou pagando um consultor pra avaliar seu roteiro, ou indo para o FRAPA, por exemplo. Isso é muito mais importante do que o título de melhor roteiro no interior do Texas".


Questões finais: para além da pandemia

Num momento pós-pandemia, Riguetti é pessimista quanto ao futuro do audiovisual no país, que se encontra no meio de uma questão política totalmente desestabilizada.


Mas ele afirma: "Quer realmente trabalhar com roteiro? Tudo bem, vai ter que enfrentar muita coisa, mas uma hora vai", diz ele. 

Se você estuda, participa, cria projetos e tenta, uma hora vai. Mas eu, por exemplo, comecei a estudar roteiro em 2010 e só fui conseguir meu primeiro trabalho pago em 2013. Sinto que realmente entrei no mercado e me tornei roteirista em 2016. - Pedro Riguetti 

"É uma carreira muito difícil, demora muito tempo", completa. Contudo, nesse contexto de isolamento social, a carreira pode se beneficiar muito do tempo livre que alguns possam vir a ter. 


Nesse ponto, Riguetti sugere: "A pandemia é um bom momento de reflexão para entender se é realmente isso que você quer, além de estudar. Criar projetos, desenvolver e estudar são ótimas atividades para fazer quando der".


Então, o melhor a se fazer (fora tomar medidas de prevenção) é tentar se aprimorar, olhar com seriedade para sua carreira e aproveitar o tempo para deixar seus pilares criativos bem reforçados.


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