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O conto de fadas dos concursos de roteiro

Centenas de concursos e festivais prometem prêmios e prestígio para roteiristas. Enquanto alguns valem a pena, a maioria é uma verdadeira cilada. Como não cair nesse conto?


Filme "Adaptação" (2002) - Imagem: reprodução

Um roteirista cheio de ideias e com pouca ou quase nenhuma perspectiva de mercado procura por concursos de roteiro na internet. Aí está uma cena muito comum no dia a dia de muita gente.


Ser roteirista não é uma missão fácil na vida, principalmente quando você vem de países como o Brasil, que passa por um momento sombrio no campo do investimento em cinema. Naturalmente, as pessoas acabam buscando um caminho para seguir.


Surge uma esperança: milhares e milhares de concursos que prometem prêmios, contato com a indústria e visibilidade para os roteiristas do mundo inteiro. Em países como o Brasil não é raro ver jovens roteiristas apostando principalmente em festivais internacionais do gênero.


É só ver um “LA screenwriting contest” no nome que o pessoal cai em cima como se fosse uma indicação ao Oscar. Com tantas opções surgindo dia após dia, o que parecia ser um caminho muitas vezes pode nos deixar ainda mais perdidos.


A pergunta é: concursos de roteiro e/ou pitching ajudam a carreira do roteirista iniciante? A resposta não é fácil, mas podemos começar entendendo que “provavelmente não”. Dentro desse “provavelmente” existe também um perímetro de possibilidades reais.


Neste artigo, vamos entender as diferentes ciladas que os concursos de roteiro e pitching podem representar para a carreira de um roteirista.


O roteirista iniciante é uma presa fácil


Imagem: Shutterstock

Em artigo para o Hollywood Reporter, Stephen Galloway traz um relato digno de nota. Galloway conta a história de Manny Fonseca, um relativamente jovem aspirante a roteirista que foi de Michigan a Los Angeles para realizar o sonho de se tornar uma grande figura de Hollywood.


Em uma determinada festa, Fonseca recebeu um convite inusitado de um produtor de cinema: “você gostaria de ganhar U$ 100?” Após aceitar a oferta, Fonseca descobriu o que ele precisaria fazer para receber o dinheiro.


Era preciso apenas comparecer em um Pitch Fest (basicamente um concurso de pitching, onde roteiristas apresentam sua ideia para jurados da indústria) e se fazer passar por um executivo de Hollywood disposto a analisar projetos para aquisição.


Vale ressaltar que Manny Fonseca estava longe de ser um executivo de Hollywood e nem ao menos tinha qualquer produto audiovisual com o seu nome. “Existem alguns roteiristas que eu conheço por nome porque eles literalmente vão em todos os pitch fest”, comenta Fonseca.


Não apenas festivais de pitching, como a maioria dos concursos de roteiro sobrevivem do anseio, esperança e angústia de aspirantes a roteiristas dispostos a gastar um bom dinheiro em troca de visibilidade e promessas vazias.


Engana-se quem acredita que só se faz dinheiro no mercado audiovisual em grandes e médias produtoras, viabilizando e distribuindo seus produtos audiovisuais para grandes players. Tem muito dinheiro rolando em festivais, concursos, script doctoring, etc.


Afinal de contas, como tudo isso começou? Como chegamos no ponto em que nos encontramos hoje?


Um breve histórico dos concursos de roteiro


Atriz e produtora Mary Pickford ao lado de Frances Marion, roteirista e diretora - Imagem: reprodução

Para quem vive fora do circuito de grandes pitch festivals, o caminho mais fácil é submeter projetos pela internet para concursos de roteiro. Embora existam alguns bons exemplos aqui no Brasil, muitos roteiristas confiam no prestígio dos eventos internacionais.


Para traçar um histórico, primeiro precisamos voltar bastante no tempo - 600 A.C. e até antes. Na Grécia Antiga já existia um festival que atendia exclusivamente ao propósito de celebrar os autores dramaturgos da época.


Esse certamente pode ter sido o ponto de partida. A partir daí, nos EUA dos anos 1910 já existiam cerca de 10 mil cinemas no país. Em apenas três anos, estima-se que mais de 20 mil roteiros circularam entre produtores, vindos de roteiristas com grandes sonhos.


A indústria cinematográfica norte-americana viu a oportunidade e logo passou a oferecer concursos para descobrir novos talentos (com prêmios em dinheiro). Afinal, com 10 mil cinemas e projetos para muitos outros, crescia a demanda por novas histórias.


June Mathis, roteirista - Imagem: reprodução

Talvez esse seja o primeiro ponto na história dos concursos de roteiro como conhecemos hoje. Entre 1915 e 1920, as mulheres representavam o principal público-alvo dos concursos. Algumas revistas da época incentivavam o público feminino a tentar carreira na indústria como roteiristas.


A carreira como roteirista representava uma alternativa muito melhor em comparação ao campo da atuação, onde mulheres constantemente traziam relatos de exploração e outras condutas extremamente nocivas.


Nesse ponto, precisamos saltar para 1955 (depois da II Guerra Mundial e do período de recessão norte-americana), quando o lendário Samuel Goldwyn Sr. criou o Samuel Goldwyn Writing Awards na Universidade UCLA.


O objetivo era encorajar jovens talentos da escrita para teatro, cinema e televisão. Essa, porém, não era uma competição aberta. Era preciso ser estudante da Universidade de Los Angeles para participar.


Samuel Goldwyn Sr - Imagem: Shutterstock

Embora existisse essa restrição, o concurso trouxe um novo gás para muitos roteiristas aspirantes dos EUA. Um novo ponto de virada surgiria apenas em 1979, com a criação do AFI Alumni Association Writers Workshop, desenvolvido por Willard Rodgers.


Aqui vemos uma nova categoria de prêmio. No lugar de dinheiro, Willard Rodgers oferecia acesso exclusivo a executivos de Hollywood, mentorias e sessões de leitura com grupo de atores.


Alguns filmes premiados no evento foram de fato desenvolvidos e prestigiados posteriormente, como é o caso de "Juventude Assassina" (River’s Edge, 1986). Até hoje o AFI Alumni Association Writers Workshop é celebrado como um importante marco da indústria cinematográfica.

O grande boom dos concursos de roteiro veio apenas na década de 1990. Dois anos antes, a WGA (Writers Guild of America, sindicato norte-americano dos autores roteiristas) havia decretado greve, o que abriu espaço para uma nova demanda de roteiros e ideias de outras fontes.


Autores consolidados e roteiristas iniciantes disputavam os mesmos meios, fechando contratos milionários com as majors. Pessoas do mundo inteiro tentavam a sorte na terra do cinema, vivendo a utopia de uma verdadeira democratização das oportunidades no mercado.


Roteirista Mark St. Germain distribui panfletos em ato que antecede a greve da WGA, em 2007 - Imagem: The New York Times

Todo esse movimento foi responsável por abrir uma realidade secundária na indústria do roteiro audiovisual: os concursos e festivais dedicados ao ofício. Não apenas isso: também cresceu o número de livros ensinando roteiro, script doctors, gurus e todos os demais anexos.


A má reputação dos concursos de roteiro começou a partir dos anos 1990, quando ficou cada vez mais difícil diferenciar os bem intencionados daqueles que simplesmente não valiam o esforço do envio.


A segunda grande greve de roteiristas em Hollywood junto com o colapso da economia norte-americana (o período entre 2007 e 2008) alterou significantemente a conduta de mercado dos executivos de grandes majors.


Foi-se o tempo das ideias originais que valiam milhões de dólares. Assumir esse tipo de risco havia ganhado novas proporções. A aquisição de propriedade intelectual a partir de produtos consolidados se tornou o grande lance. Escrevemos sobre isso por aqui também.


Os roteiros originais, porém, não cessaram. A demanda de novos caminhos para esses produtos agora não tão valiosos só crescia (e ainda cresce). Agentes, managers, executivos de Hollywood e também oportunistas viam cada vez mais nos concursos de roteiro um meio alternativo de ganhar dinheiro.


Todos os concursos e festivais são ruins?


Apresentação de pitching no Austin Film Festival - Imagem: Jim Picariello

É preciso salientar que existem bons exemplos sim. Apenas são poucos, extremamente poucos. Quando digo isso, não afirmo que a maioria dos concursos vai roubar o seu dinheiro, enganá-lo ou destruir suas chances na indústria do cinema.


Em alguns casos até pode ser. Na maioria deles, o que simplesmente acontece é um grande show orquestrado para atender à vaidade do artista. No fim é isso: vaidade. Oportunidades de trabalho e conexões importantes? Esses dois pontos passam longe.


No entanto, vamos também falar dos concursos que fazem valer a sua inscrição. Talvez o concurso de roteiro com maior prestígio seja o Nicholl Fellowships, financiado pela própria Academia. Você concorre com outros poucos roteiristas o prêmio de U$ 35 mil e um empurrãozinho de fato eficiente para a sua carreira.


Uma das grandes premiadas pelo concurso foi Susannah Grant, conhecida principalmente por "Erin Brockovich, Uma Mulher de Talento" (Erin Brockovich, 2000). O Austin Screenwriting Competition é outro bom exemplo, aproximando o roteirista de profissionais de renome da indústria cinematográfica.


No próprio Austin Film Festival ocorre o Pitch Competition, inclusive. Entre jurados e competidores, o arranjo de profissionais também costuma ser muito bom, valendo no mínimo pela experiência de testemunhar pitchings muito bem estruturados.


Apresentação de pitching no FRAPA - Imagem: Revista Press

Aqui no Brasil, algumas iniciativas unem a competição de roteiros com boas causas. O Prêmio Cabíria é responsável por alavancar a carreira de roteiristas mulheres que trabalham o protagonismo feminino em suas obras.


Entre os exemplos brasileiros eu não posso deixar de citar o FRAPA (Festival de Roteiro de Porto Alegre), que anualmente oferece competição de longa-metragem e roteiro para série com direito a pitchings para representantes do mercado (e drunk pitching no “segundo turno”).


Como não cair em uma cilada?


Imagem: reprodução

Em um artigo publicado no medium (e previamente no LA Screenwriter), a roteirista Angela Bourassa compartilha um relato pessoal. Nele, Bourassa conta que submeteu seu roteiro para uma competição que encontrou online, que oferecia, entre outros prêmios, uma quantia em dinheiro para o primeiro colocado.


“Eu terminei recebendo o segundo lugar na categoria Ficção Científica, o que fez eu me sentir bem”, comenta a roteirista. Embora não tenha recebido o prêmio, Angela encontrou um e-mail na sua caixa de recebidos alguns dias depois.


No e-mail um dos organizadores oferecia uma placa de celebração do seu segundo lugar pelo “pequeno custo de U$75”. É claro, Bourassa não foi a única a receber esse e-mail, deixando claro o modelo lucrativo imposto pelo concurso.


Segundo a roteirista, os organizadores estavam “se aproveitando da sua esperança”. É errado? Não necessariamente. O problema é que não cai muito bem. Os responsáveis por concursos e festivais do tipo conhecem “os botões certos” para atiçar a vaidade do roteirista iniciante.


Imagem: reprodução

Estima-se que o número de novos concursos de roteiro circulando na internet chega a margem de 300-500 ao ano. A maioria deles está no comando de companhias responsáveis por oferecer apenas esse tipo de serviço, ou venda de livros, manuais, consultorias, etc.


A questão é: são poucos os concursos feitos por titãs da indústria com a intenção de encontrar novos talentos. Se você encontrou um concurso de roteiro na internet, 80% de chance dele ser organizado por gente que mal consegue emplacar os próprios projetos.

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É importante ficar atento aos sinais, por isso cabem algumas dicas.


Pesquise o histórico do concurso e as pessoas envolvidas


Isso vale também para alguns laboratórios de roteiro (vamos tratar disso em outro artigo). Você precisa pesquisar as pessoas envolvidas, ver quem realmente está lendo o seu roteiro, que acesso a pessoa tem no meio, quais os pontos fortes do seu currículo como realizador.


O próprio concurso/festival precisa ter algumas credenciais. Que nomes da indústria fazem parte do mesmo? É realmente uma vitrine para grandes produtoras? O mercado leva a sério?


É muito importante pesquisar também projetos premiados em anos anteriores que tenham seguido carreira. Um concurso de roteiros que distribuiu prêmios para poucos ou mesmo nenhum projeto que de fato foi realizado é um sinal vermelho.


O que você tem a ganhar com isso


O concurso pode até ter sua credibilidade, mas ele vai atender de fato às suas expectativas? Procure se informar sobre a premiação. Dinheiro é sempre bom, mas não é o único atrativo possível.


Dependendo dos seus objetivos ou mesmo o ponto em que se encontra na carreira, alguns prêmios podem ser mais ou menos importantes para você. Não é todo mundo que se beneficiaria de uma bolsa de estudos.


Embora seja muito interessante, talvez você esteja em outro momento da carreira, priorizando viabilizar produções, por exemplo.


Estude os projetos selecionados


Não é uma regra (longe disso), mas assim como festivais de cinema, concursos de roteiro tendem a ter um perfil. Os projetos selecionados fazem parte da vitrine que compõe a própria “persona” e identidade do evento.


Questões extra-fílmicas também podem influenciar a decisão final, muitas delas importantes para processos de democratização e acesso a cultura. Inclusão social, questões políticas e até temáticas podem influenciar alguns jurados.


O exemplo óbvio ajuda a entender: você não enviaria um filme de comédia para um festival de horror, não é mesmo? Considere todas as nuances que podem envolver o processo de seleção.


É válido lembrar que embora importantes, esses e demais pontos não podem contar mais do que a qualidade final da escrita e o valor artístico da obra.


Não exagere nas credenciais


Imagem: Vector Stock

Em episódio mais antigo do seu podcast Scriptnotes, John August e Craig Mazin ainda lançam uma dica de ouro para os roteiristas iniciantes: cuidado com a “coleção de premiações” em concursos e festivais de roteiro.


Os roteiristas de Hollywood alertam para o demérito de uma super-exposição. Para eles, quando um roteiro carrega tantas credenciais, a mensagem passada não é muito benéfica. Parece que o projeto circulou por todos os cantos, mas por algum motivo não consegue ser financiado/produzido.


Outro ponto: uma coleção de prêmios em concursos pequenos e/ou duvidosos também é um tiro no pé. Às vezes vale muito mais apenas exibir aquelas duas passagens por concursos relevantes, mostrando que existe um aval da indústria.


É difícil, eu sei. A carreira do roteirista é confusa, incerta e extremamente competitiva. Ganhar um concurso e poder exibir sua "láurea" para os seus amigos do Facebook é muito legal, mas cuidado para não cair no conto de fadas.


Alcançar relevância na indústria cinematográfica exige muito estudo, preparo e as conexões certas. De fato, não existe atalho. Desconfie de todo mundo que prometer um caminho certeiro para o sucesso imediato.


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