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Desmistificando o script doctor

O que faz um script doctor? Esse termo é realmente utilizado em Hollywood? Como se difere de um consultor?


Imagem: Studio Binder

Você já deve ter ouvido falar dos script doctors. Pode até mesmo ter aprendido sobre o script doctoring em cursos ou faculdades de cinema, como é comum acontecer.


Mas o que faz um script doctor? Como esse serviço é visto no Brasil e lá fora? Entenda essas e outras questões no texto a seguir.


O que é um script doctor


Basicamente, o script doctor é um roteirista contratado já numa etapa avançada do roteiro para identificar "problemas", erros narrativos e sugerir ajustes dramáticos. Ou seja, um roteirista que presta uma consultoria paga focada em problemas e resoluções.


Aqui no Brasil, vemos que os script doctors oferecem pacotes variados (com preços e serviços diferentes) que dependem do tamanho e natureza dos problemas narrativos. Por exemplo, existem roteiristas que precisam de ajuda nos diálogos, enquanto outras precisam encaixar um novo personagem que apareceu mais tarde, etc.

Imagem: Vimeo

John August, roteirista e escritor norte-americano que tem em seu currículo títulos como Peixe Grande (Big Fish, 2003) e A Fantástica Fábrica de Chocolate (Charlie and the Chocolate Factory, 2005), profere opiniões ostensivas sobre isso no seu podcast Scriptnotes.


De acordo com ele e seu colega roteirista Craig Mazin (Chernobyl, Se Beber Não Case 2), um script doctor é "um roteirista estabelecido com créditos significativos que reescreve um script para abordar preocupações específicas, geralmente pouco antes do início da produção".


Ele ainda elabora que "Na indústria, um script doctor [...] faz uma reescrita para corrigir alguns problemas irritantes e específicos. Ou, dependendo da sua perspectiva, destrói as coisas que tornaram o projeto único.


Essa e outras perspectivas trazidas por ele e Mazin ajudam a identificar e desmistificar esse título. Mas por que?


Pois ninguém utiliza o termo script doctor em Hollywood.


Se é utilizado nas produções, é motivo de grande desconforto e até risadas. O teórico script doctor reescreve os problemas do roteiro de acordo com as necessidades narrativas, mas principalmente fora da diegese (como problemas de produção, papel dos atores, etc).


Logo mais, entenderemos que, na verdade, o teórico script doctor hollywoodiano realiza trabalho de três profissionais diferentes.


Os roteiristas John August e Craig Mazin. Imagem: reprodução

O sistema americano de reescrita de parte do roteiro já está prevista em quase todas as produções de médio e alto orçamento. Normalmente, o próprio roteirista contratado originalmente faz o trabalho, mas é muito comum outros profissionais serem chamados para fazerem rewrites (reescritas).


Isso é diferente do modo como empregamos esse termo no Brasil. Portanto, nos EUA, o roteirista que presta esse serviço de auxílio e reescrita não recebe o título de script doctor.


John ainda complementa afirmando que, mesmo quando os problemas de roteiro são de ordem narrativa e existem em quantidades "cirúrgicas" e demandam menos ajustes, o crédito ainda é de "roteirista". Portanto, na visão dele, esse termo não só é irreal como mal utilizado.


Mas existe script doctor em Hollywood?


Não. A indústria hollywoodiana de cinema, de língua inglesa, assim como o termo, nega a existência desse título e posição.


Quando John August fala sobre Steve Zaillian, roteirista renomado de filmes como A Lista de Schindler (Schindler's List, 1993), Hannibal (2001) e O Homem que Mudou o Jogo (Moneyball, 2011), elucida melhor:

Steve Zaillian é um script doctor conceituado. Até mesmo eu poderia ser considerado um script doctor, pois fiz um bom número desses trabalhos de emergência de última hora. Mas o cartão de visita de ninguém lê "script doctor". É uma tarefa específica na escrita de roteiro, mas não é realmente uma profissão em si.

No episódio 286 (Script Doctors, Dialogue and Hacks) do podcast Scriptnotes, John menciona que não sabe exatamente de onde o termo surgiu, mas acredita ter sido da mídia. Ele conta que viu o termo "script doctor" numa entrevista em que Steven Spielberg falava de Steve Zaillian. Ali, utilizou o termo médico para ilustrar a contribuição do roteirista no projeto.


Mesmo assim, ele afirma que não é um termo usado na vida cotidiana em Hollywood. Ou seja, nenhum estúdio americano realmente contrata um script doctor, pois não existe esse termo dentro da indústria. Provavelmente, como John aponta, foi originado na mídia como uma metáfora, tomando proporções maiores e universais.


Isso aconteceu também com Carrie Fisher, atriz da franquia Star Wars que realizou diversos trabalhos de rewrites e contribuições narrativas para filmes e séries. Mas retornaremos ao caso de Fisher mais adiante.


Além de tudo isso, o trabalho que um script doctor tecnicamente faria em Hollywood (ou em algumas produtoras brasileiras) pode ser dividido em três: do roteirista contratado para uma rewrite, do Analista de Roteiro ou do Consultor de Roteiro.


O Analista de Roteiro (story analyst)


De acordo com Ken Miyamoto, Analista de Roteiro da Sony Pictures, os estúdios hollywoodianos não contratam script doctors nem consultores para reescrever um roteiro, mas sim um roteirista experiente.


É comum, porém, a contratação de um analista de roteiro (Story Analyst), profissionais que analisam o projeto de acordo com a visão do mercado geral.


De acordo com Miyamoto,

"Analista de roteiro é o termo oficial do leitor de roteiros, geralmente usado no sistema de estúdio para fins crédito e pagamento. Embora sejam altamente utilizados por estúdios, empresas de produção, empresas de gerenciamento e agências, eles não estão envolvidos com a escrita real do roteiro. Em vez disso, eles oferecem análise do roteiro na forma de cobertura de estúdio, o que implica escrever loglines, sinopses e breves notas sobre a história, enredo, estrutura, personagens e outros elementos.”

Esse cargo, portanto, fica fora no espectro do roteirista, tendo muito mais a ver com a produção e distribuição dos projetos do que com a escrita em si.


O Consultor de Roteiro (story consultant)


Miyamoto também traz à tona a realidade do papel do consultor de roteiro na indústria norte-americana. Ele afirma que, de modo geral, grandes estúdios não têm o hábito de empregar um consultor de roteiro, mas que esse papel ainda é requisitado por roteiristas ou produtoras de modo informal.


Ele afirma que

"Eles [consultores de roteiro] geralmente são contratados através de sites de serviços de consultoria. Pensa-se que os dias de estúdios que os utilizam já estão longe, substituídos por executivos de desenvolvimento e colaboração entre produtores, diretores, talentos e escritores."

Portanto, como no Brasil, ainda existe a ideia de consultores de roteiro que trabalham nos roteiros que ainda não foram comprados pelos estúdios ou que irão ser produzidos de forma independente.


O papel do consultor tem um potencial muito maior de beneficiar o projeto quando comparado a um script doctor. Isso porque, diferentemente de um consultor, que oferece sua visão geral do filme como uma consulta, o script doctor já lê o roteiro com problemas em mente.


Portanto, o script doctor acaba se colocando numa posição de superioridade ao oferecer seus serviços de análise e melhoria. Vamos discutir mais sobre isso?


Imagem: The Film Look

O que realmente significa o termo "script doctor"


Existem aplicações do termo script doctor na indústria brasileira que diferem da hollywoodiana.

Para nossos colegas norte-americanos, já vimos que esse crédito não existe.


Craig Mazin, no mesmo episódio do Scriptnotes mencionado anteriormente, diz que "as únicas pessoas que ouvi usar esse termo são escritores inseguros tentando convencer outras pessoas de que são importantes [...]. E, felizmente, não há muitos deles".


Contudo, o problema do script doctor, para eles, vai além da vergonha alheia. É uma questão de crédito no payroll.


A WGA (Writer's Guild of America) trabalha duro pelos créditos e compensação correta dos roteiristas norte-americanos. Portanto, quando um estúdio contrata outro roteirista para fazer ajustes e rewrite no meio do projeto, ele precisa ser pago e creditado como tal.


O Writers Guild ainda dita um mínimo específico que os membros roteiristas devem receber por uma reescrita.


Quando isso não ocorre, temos fenômenos midiáticos como o "script doctoring" de Carrie Fisher. A sua atuação como roteirista foi bem prolífica: Mudança de Hábito (Sister Act, 1992) , Máquina Mortífera 3 (Lethal Weapon 3, 1992) e Hook - A Volta do Capitão Gancho (Hook, 1991) são alguns dos roteiros em que Fisher deu dicas e fez rewrites.


Carrie Fisher. Imagem: Wiki

Fisher continuou seu trabalho de "script doctor" até meados dos anos 2000. Em entrevista à Newsweek, ela conta que

“Foi um episódio longo e muito lucrativo da minha vida. Mas é complicado fazer isso. Agora tudo mudou, na verdade. Agora, para conseguir um emprego de reescrita, você deve enviar suas anotações para ter idéias sobre como corrigir o script. Assim, eles recebem todas as anotações de todos os escritores, mantém as anotações e não contratam ninguém. Isso é trabalho gratuito e é o que eu sempre chamo de perda de tempo. "

Outro caso é o do roteirista Charlie Kaufman, que teve uma parte não creditada no roteiro de Kung Fu Panda 2.


Portanto, dar o título inventado de script doctor para roteiristas não remunerados ou creditados pela sua contribuição era algo bem comum de acontecer até pouco tempo atrás. Provavelmente, isso ainda ocorre em menor escala.


Percebemos que, em vários casos, a mídia resolveu chamar esses roteiristas de script doctors pois eles não foram creditados como roteirista, já que trabalharam no roteiro e realizaram reescritas.


Sobre isso, John August ilustra bem o problema quando afirma que

"Então, eu acho que fazer um script doctoring significa que um escritor vem trabalhar um pouco em um projeto específico, geralmente um filme que está prestes a ser produzido. Geralmente, em uma situação de alto risco. Há atores envolvidos, diretores envolvidos, muito dinheiro está em jogo. E esse escritor está vindo para fazer um trabalho específico para consertar, mudar, alterar algo no script para tornar as pessoas mais felizes [...]. Estes são apenas roteiristas."”

Já no Brasil, observamos uma realidade e um problema diferente.


Aqui, vemos o termo "script doctoring" na tabela de preços da ABRA (Associação Brasileira de Autores Roteiristas), por exemplo, justamente com a compensação adequada. Portanto, não temos barreiras de injustiça financeira.


O nosso problema também não é o do crédito de reescrita, pois os profissionais brasileiros não se propõe a literalmente reescrever o roteiro, como lá fora. O revés do termo script doctor na indústria brasileira se dá na perspectiva: existe uma falsa posição de superioridade empregada por alguns script doctors e isso afeta vários níveis do projeto.


Somos ensinados em cursos e faculdades de cinema sobre a função necessária que realiza um script doctor - e vemos esse título ser utilizado num meio profissional com grande escala.


Os profissionais que se chamam assim se dão como impreteríveis para o bem estar do projeto. Os roteiristas, quando procuram a opinião de um profissional mais renomado, já têm uma visão de que seu roteiro vai necessariamente apresentar problemas estruturais a serem modificados.


Isso prejudica a nossa visão como criadores, bem como a individualidade de cada projeto. Como John August coloca, o script doctoring corre o risco de destruir as coisas que tornam o projeto único.

Imagem: Pinterest

A opinião do script doctor não é levada em conta como uma consultoria de fato quando se posiciona de modo a consertar o trabalho alheio. Quando o roteirista recebe consultorias especializadas, de roteiristas verdadeiros e com experiência, ele tende a ganhar mais.


O consultor vai analisar a narrativa do filme como um todo, bem como sua linguagem narrativa. Mas o mais importante é que a diferença de perspectiva começa no nome: consultoria. A ideia é aprimorar o projeto, oferecendo outras perspectivas e caminhos narrativos - e não consertá-los.


Além disso, o script doctoring pode até ser realizado de boa fé, mas é um ambiente que abre portas para propagandas enganosas. Mesmo que isso exista no âmbito da consultoria também, é mais comum encontrarmos script doctors que nunca tiveram um trabalho produzido ou publicado.


A importância da experiência num consultor é grande. Só quem já entendeu na pele o processo de concepção teórica, construção narrativa, financiamento, produção e distribuição de uma peça audiovisual está habilitado a realizar consultas alheias.


Tudo isso também não quer dizer que o roteiro que passa por uma consultoria terá problemas que precisam de cura. A posição do consultor deve ser trabalhar com a individualidade e intenção do autor, não em oferecer ferramentas que levem à pasteurização do produto audiovisual - e esses são riscos que o roteirista que procura um script doctoring, por sua vez, está correndo.


Conclusão


Em resumo, o script doctor só existe com esse nome no Brasil e em outras indústrias pontuais. Os profissionais sérios da indústria hollywoodiana não vêem o script doctoring como uma função em si.


No Brasil, temos o script doctor como um consultor de roteiro que oferece soluções para problemas. Mesmo que a propaganda possa dizer o contrário, é importante sabermos que esse papel não é fundamentalmente necessário para um projeto.


O que pode realmente beneficiar o roteiro é a opinião específica de um roteirista ou consultor com experiência, bem como faria um consultor hollywoodiano contratado por um estúdio. Ele poderá até sugerir mudanças, mas a perspectiva será, idealmente, de trabalhar em conjunto com as idéias do roteirista.

Imagem: Video Blocks

Portanto, existem ressalvas quando se pensa na posição real de um script doctor no meio audiovisual. Tome cuidado ao consultar um profissional e sempre confie na integridade do seu projeto.



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