top of page

O‌ ‌que‌ ‌o‌ ‌mercado‌ ‌busca,‌ ‌com‌ ‌TDC‌ ‌Conteúdo‌

Atualizado: 16 de jun. de 2021

Bia Crespo, sócia-fundadora da TDC Conteúdo, fala sobre as tendências do mercado audiovisual e dá dicas para você pensar em projetos comerciais

Imagem: Shutter Stock

Você escreve projetos para o mercado? Parece ser uma pergunta ampla e até mesmo um tanto abstrata para muitos roteiristas, mas é muito importante tê-la em mente na hora de investir o seu tempo em uma nova empreitada criativa.


Todo roteirista tem sua identidade, seu perfil e sonhos específicos para a sua carreira. Independente disso, todo roteirista também precisa pagar suas contas. O que isso significa? Significa que em algum momento ele precisa ter um retorno financeiro. Nem tudo é sonho nessa vida!


Quando falamos em retorno, tratamos necessariamente de lógica de mercado. Quais são as tendências do mercado audiovisual brasileiro? Como aumentar suas chances de emplacar um projeto? Existem demandas que o mercado não consegue suprir?


Para responder essas e tantas outras perguntas que nos fazemos diariamente, convidamos novamente a roteirista Bia Crespo para um papo sobre o mercado audiovisual. Já temos uma entrevista com a Bia Crespo aqui no site, caso você ainda não tenha lido. Dessa vez, a roteirista apresenta a TDC Conteúdo, uma produtora de desenvolvimento criada por ela e que já vem comercializando projetos com grandes players do mercado.


A TDC Conteúdo

Imagem: TDC Conteúdo

A TDC Conteúdo é uma produtora de desenvolvimento que tem como foco principal ajudar novos roteiristas a entrar no mercado. Seus projetos são comerciais, majoritariamente de comédia, voltados ao público familiar ou infantojuvenil. O trabalho da TDC é criar uma ponte entre roteiristas e produtoras ou players depois de ter desenvolvido o projeto até o momento em que ele está maduro para ser comercializado, além de dar um apoio aos roteiristas durante essa negociação.


Entre as produtoras parceiras da TDC estão Paris Entretenimento, Boutique Filmes, Glaz, Chatrone e Elo Company. Para mais informações, acesse www.tdcconteudo.com.br.


Bia Crespo


Imagem: divulgação

Formada em Audiovisual pela ECA-USP, se especializou em roteiro para cinema e TV na Vancouver Film School. Foi Coordenadora de Conteúdo da Paris Entretenimento por dois anos e, em 2019, roteirizou os longas "10 Horas Para o Natal" (Paris Filmes), "A Sogra Perfeita" (Paris Filmes) e "Galeria Futuro" (H2O).


Com seus projetos originais, foi finalista do concurso de roteiros do FRAPA e venceu o Prêmio Cabíria, tornando-se em seguida roteirista fixa da Conspiração Filmes. Em 2021, integrou a sala de roteiro de uma série inédita da Globoplay e escreveu dois longas-metragens originais para a Paris Filmes.


Atualmente, é chefe da sala de roteiro de uma série original sua em desenvolvimento na Conspiração Filmes. É sócia-fundadora da TDC Conteúdo, onde coordena desenvolvimento e comercialização de projetos de novos roteiristas, e integra a diretoria da ABRA — Associação Brasileira de Autores Roteiristas.


Como funciona a TDC Conteúdo?

Imagem: Shutter Stock

Completando 1 ano de existência, a TDC Conteúdo ainda está se estruturando e trabalha com um modelo relativamente novo no Brasil, afirma Crespo. “Por enquanto eu diria que a TDC é a combinação de um núcleo de desenvolvimento, uma produtora de conteúdo e um agenciamento”, completa a roteirista.


Isso significa que a TDC trabalha como um fator intermediário entre o roteirista e os players, assumindo um papel importantíssimo para abrir espaço a novos autores, muitos deles ainda batalhando para conquistar vias de acesso e contatos com agentes do mercado.


Como funciona a TDC, afinal? Bia Crespo revela que normalmente busca projetos para a produtora de desenvolvimento através de rodadas de negócio, ou mesmo indo atrás de roteiristas que já fazem parte da sua rede de contatos. Crespo destaca seu desejo de conhecer novos roteiristas e sair um pouco da sua própria bolha.


“Eu procuro projetos que eu acho que tenham algum potencial comercial”, revela Crespo, deixando claro que a TDC opta por trabalhar de acordo com as tendências e demandas do mercado. Ou seja, projetos para grande público.


Uma vez selecionado, o projeto então passa por um processo de desenvolvimento acompanhado pela própria roteirista. “Eu ajudo na sinopse, arco de temporada, descrições de personagens. Isso é mais para a pessoa entender realmente o que é o projeto dela”, comenta Crespo.


“Às vezes o roteirista vai muito longe no desenvolvimento e se perde um pouco no que está acontecendo ali. É interessante voltar para um estágio onde a gente se pergunta como seria se fosse apenas um pitch”. - Bia Crespo

Além do valor criativo, esse processo também serve para que Crespo desenvolva um documento de venda ainda menor - mais ou menos um parágrafo - para integrar o catálogo de projetos da TDC. Esse catálogo, então, é levado a produtoras para avaliação.


Passando credibilidade para os players


Imagem: Shutter Stock

Bia Crespo conta que os players também procuram a TDC atrás de projetos específicos, já sabendo do seu histórico no mercado. “Por eu ter circulado muito entre as produtoras, acontece muito de me pedirem projetos. Como nem sempre tenho agenda, comecei a agenciar as pessoas”, revela a roteirista.


Se você não tem experiência no mercado, como convencer um player a investir no seu trabalho? Como fazê-lo confiar na sua habilidade de entregar uma demanda importante? É aí que entra um intermediário como a TDC, que já vem com o currículo da Bia Crespo como garantia real de que existirá um acompanhamento que eleva a qualidade e entrega.


“Quando uma produtora se interessa por um projeto, eu negocio todos os valores de desenvolvimento considerando o interesse do roteirista e já negocio dentro a minha participação. Eu entro como consultora e acompanho todo o desenvolvimento. Eu acompanho cronograma, dou feedback nas versões e isso deixa a produtora muito mais segura. E tem apresentado melhores resultados também”. - Bia Crespo

Se existe a TDC fazendo esse papel de núcleo e agenciamento, existe uma alta demanda por conteúdos que não chegam aos produtores e players. Que conteúdos são esses? Que demandas não são atendidas no volume que os players gostariam? Como roteiristas, estamos apostando nas ideias certas?


Demandas do mercado

Imagem: ICAB

“Pelo que eu vejo nas rodadas de negócio, eu tenho a impressão de que cada vez mais as pessoas estão indo para o lado errado, tanto nas sinopses, quanto nos formatos”, comenta Crespo, que vem participando de eventos assim como player.


Para Crespo, um dos principais sinais de que os roteiristas iniciantes vêm investindo em apostas difíceis de vender é a quantidade de projetos de séries que vêm pipocando no mercado. Segundo a roteirista, é bem complicado vender um projeto de série, ainda mais vindo de um profissional em início de carreira.


Crespo sugere que o roteirista observe os créditos de criação das séries brasileiras exibidas em canais e plataformas de streaming. Segundo a roteirista, “é só gente muito experiente do mercado”. Com exceção, é claro, da série “3%”, que foi justamente uma rara aposta de trazer um frescor ao catálogo de conteúdos da Netflix. Mesmo assim, foram anos de desenvolvimento e investimento para que “3%” integrasse o catálogo da plataforma.


“Não tô dizendo que não dá. Dá sim! Eu mesma tô desenvolvendo a minha primeira série, que consegui vender depois de dois anos circulando pelo mercado, de trabalhar com várias produtoras, fazer mais de cinco filmes, trabalhar em salas de roteiro e ser conhecida no meio”, destaca Crespo.


Tá começando? Aposte no longa-metragem!

"10 Horas para o Natal", escrito por Bia Crespo e Flávia Guimarães, dirigido por Cris D'Amato - Imagem: divulgação

Se é mais difícil vender projetos de séries, uma boa dica para quem está iniciando no mercado é ter alguns projetos de longa-metragem para oferecer em rodadas. Bia Crespo dá a dica de ouro: “todos os streamings estão fazendo filme. Para eles é muito mais barato, mais fácil, uma aposta mais certa. Se der errado, não tem tanto prejuízo. Se você está iniciando, aposte em um filme!”


Isso não significa que você deve esquecer seus projetos de série. Bia Crespo deixa claro que é bom desenvolver séries, principalmente para seguir praticando a escrita no formato. Para comercializar, porém, é importante ter pelo menos dois ou três projetos de longa-metragem na manga.


Crespo revela que não é tão fácil assim encontrar premissas de filmes com apelo comercial, mas é exatamente isso que ela procura em rodadas e contatos diretos. Quando encontra, muitas vezes o obstáculo é estrutural: Crespo comenta que a maioria dos projetos de filme que chegam à TDC buscam ousar demais.


“Uma boa dica é não ousar tanto na estrutura do seu filme se você pretende vendê-lo para um grande player. Siga parâmetros industriais comuns, estrutura de três atos. Parece óbvio falar isso, mas quase não encontramos projetos de longa ‘tradicionais’, clássicos. Você vê muito filme querendo revolucionar, sair do óbvio, inventar o que nunca foi feito, mas você quase nunca vê aquele filme que segue mais a receitinha. E essas são as receitas que vendem”. - Bia Crespo

Arte x mercado: a busca pelo equilíbrio


"Crepúsculo dos Deuses" - Imagem: reprodução

Com o triste congelamento das políticas públicas voltadas ao audiovisual brasileiro, passamos da “história que eu quero contar”, para “o projeto que os players querem produzir”. O ideal é encontrar um equilíbrio entre a arte e o ofício, uma intersecção entre a visão de mundo e a demanda de mercado.


Dá para encontrar arte dentro do ofício também, dá para fazer projetos comerciais com a sua personalidade e contando coisas que você gostaria de ver”, responde Crespo.


Talvez uma herança desse período onde havia grande investimento no fomento de novas vozes autorais, a vontade de subverter gêneros e quebrar preceitos estruturais segue firme e forte. Sobre isso, Bia Crespo nos lembra: "mais do que nunca, as pessoas querem um conforto dos filmes, das séries, sem se decepcionar. Nem sempre as pessoas querem ser surpreendidas".


“Pensa bem: você construiu o seu filme inteiro para chegar no final e subverter tudo? Você está subvertendo só por subverter? Não tente subverter só no final, então. Busque criar uma estrutura diferente para o final casar com ela”. - Bia Crespo