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O‌ ‌que‌ ‌o‌ ‌mercado‌ ‌busca,‌ ‌com‌ ‌TDC‌ ‌Conteúdo‌

Atualizado: Jun 16

Bia Crespo, sócia-fundadora da TDC Conteúdo, fala sobre as tendências do mercado audiovisual e dá dicas para você pensar em projetos comerciais

Imagem: Shutter Stock

Você escreve projetos para o mercado? Parece ser uma pergunta ampla e até mesmo um tanto abstrata para muitos roteiristas, mas é muito importante tê-la em mente na hora de investir o seu tempo em uma nova empreitada criativa.


Todo roteirista tem sua identidade, seu perfil e sonhos específicos para a sua carreira. Independente disso, todo roteirista também precisa pagar suas contas. O que isso significa? Significa que em algum momento ele precisa ter um retorno financeiro. Nem tudo é sonho nessa vida!


Quando falamos em retorno, tratamos necessariamente de lógica de mercado. Quais são as tendências do mercado audiovisual brasileiro? Como aumentar suas chances de emplacar um projeto? Existem demandas que o mercado não consegue suprir?


Para responder essas e tantas outras perguntas que nos fazemos diariamente, convidamos novamente a roteirista Bia Crespo para um papo sobre o mercado audiovisual. Já temos uma entrevista com a Bia Crespo aqui no site, caso você ainda não tenha lido. Dessa vez, a roteirista apresenta a TDC Conteúdo, uma produtora de desenvolvimento criada por ela e que já vem comercializando projetos com grandes players do mercado.


A TDC Conteúdo

Imagem: TDC Conteúdo

A TDC Conteúdo é uma produtora de desenvolvimento que tem como foco principal ajudar novos roteiristas a entrar no mercado. Seus projetos são comerciais, majoritariamente de comédia, voltados ao público familiar ou infantojuvenil. O trabalho da TDC é criar uma ponte entre roteiristas e produtoras ou players depois de ter desenvolvido o projeto até o momento em que ele está maduro para ser comercializado, além de dar um apoio aos roteiristas durante essa negociação.


Entre as produtoras parceiras da TDC estão Paris Entretenimento, Boutique Filmes, Glaz, Chatrone e Elo Company. Para mais informações, acesse www.tdcconteudo.com.br.


Bia Crespo


Imagem: divulgação

Formada em Audiovisual pela ECA-USP, se especializou em roteiro para cinema e TV na Vancouver Film School. Foi Coordenadora de Conteúdo da Paris Entretenimento por dois anos e, em 2019, roteirizou os longas "10 Horas Para o Natal" (Paris Filmes), "A Sogra Perfeita" (Paris Filmes) e "Galeria Futuro" (H2O).


Com seus projetos originais, foi finalista do concurso de roteiros do FRAPA e venceu o Prêmio Cabíria, tornando-se em seguida roteirista fixa da Conspiração Filmes. Em 2021, integrou a sala de roteiro de uma série inédita da Globoplay e escreveu dois longas-metragens originais para a Paris Filmes.


Atualmente, é chefe da sala de roteiro de uma série original sua em desenvolvimento na Conspiração Filmes. É sócia-fundadora da TDC Conteúdo, onde coordena desenvolvimento e comercialização de projetos de novos roteiristas, e integra a diretoria da ABRA — Associação Brasileira de Autores Roteiristas.


Como funciona a TDC Conteúdo?

Imagem: Shutter Stock

Completando 1 ano de existência, a TDC Conteúdo ainda está se estruturando e trabalha com um modelo relativamente novo no Brasil, afirma Crespo. “Por enquanto eu diria que a TDC é a combinação de um núcleo de desenvolvimento, uma produtora de conteúdo e um agenciamento”, completa a roteirista.


Isso significa que a TDC trabalha como um fator intermediário entre o roteirista e os players, assumindo um papel importantíssimo para abrir espaço a novos autores, muitos deles ainda batalhando para conquistar vias de acesso e contatos com agentes do mercado.


Como funciona a TDC, afinal? Bia Crespo revela que normalmente busca projetos para a produtora de desenvolvimento através de rodadas de negócio, ou mesmo indo atrás de roteiristas que já fazem parte da sua rede de contatos. Crespo destaca seu desejo de conhecer novos roteiristas e sair um pouco da sua própria bolha.


“Eu procuro projetos que eu acho que tenham algum potencial comercial”, revela Crespo, deixando claro que a TDC opta por trabalhar de acordo com as tendências e demandas do mercado. Ou seja, projetos para grande público.


Uma vez selecionado, o projeto então passa por um processo de desenvolvimento acompanhado pela própria roteirista. “Eu ajudo na sinopse, arco de temporada, descrições de personagens. Isso é mais para a pessoa entender realmente o que é o projeto dela”, comenta Crespo.


“Às vezes o roteirista vai muito longe no desenvolvimento e se perde um pouco no que está acontecendo ali. É interessante voltar para um estágio onde a gente se pergunta como seria se fosse apenas um pitch”. - Bia Crespo

Além do valor criativo, esse processo também serve para que Crespo desenvolva um documento de venda ainda menor - mais ou menos um parágrafo - para integrar o catálogo de projetos da TDC. Esse catálogo, então, é levado a produtoras para avaliação.


Passando credibilidade para os players


Imagem: Shutter Stock

Bia Crespo conta que os players também procuram a TDC atrás de projetos específicos, já sabendo do seu histórico no mercado. “Por eu ter circulado muito entre as produtoras, acontece muito de me pedirem projetos. Como nem sempre tenho agenda, comecei a agenciar as pessoas”, revela a roteirista.


Se você não tem experiência no mercado, como convencer um player a investir no seu trabalho? Como fazê-lo confiar na sua habilidade de entregar uma demanda importante? É aí que entra um intermediário como a TDC, que já vem com o currículo da Bia Crespo como garantia real de que existirá um acompanhamento que eleva a qualidade e entrega.


“Quando uma produtora se interessa por um projeto, eu negocio todos os valores de desenvolvimento considerando o interesse do roteirista e já negocio dentro a minha participação. Eu entro como consultora e acompanho todo o desenvolvimento. Eu acompanho cronograma, dou feedback nas versões e isso deixa a produtora muito mais segura. E tem apresentado melhores resultados também”. - Bia Crespo

Se existe a TDC fazendo esse papel de núcleo e agenciamento, existe uma alta demanda por conteúdos que não chegam aos produtores e players. Que conteúdos são esses? Que demandas não são atendidas no volume que os players gostariam? Como roteiristas, estamos apostando nas ideias certas?


Demandas do mercado

Imagem: ICAB

“Pelo que eu vejo nas rodadas de negócio, eu tenho a impressão de que cada vez mais as pessoas estão indo para o lado errado, tanto nas sinopses, quanto nos formatos”, comenta Crespo, que vem participando de eventos assim como player.


Para Crespo, um dos principais sinais de que os roteiristas iniciantes vêm investindo em apostas difíceis de vender é a quantidade de projetos de séries que vêm pipocando no mercado. Segundo a roteirista, é bem complicado vender um projeto de série, ainda mais vindo de um profissional em início de carreira.


Crespo sugere que o roteirista observe os créditos de criação das séries brasileiras exibidas em canais e plataformas de streaming. Segundo a roteirista, “é só gente muito experiente do mercado”. Com exceção, é claro, da série “3%”, que foi justamente uma rara aposta de trazer um frescor ao catálogo de conteúdos da Netflix. Mesmo assim, foram anos de desenvolvimento e investimento para que “3%” integrasse o catálogo da plataforma.


“Não tô dizendo que não dá. Dá sim! Eu mesma tô desenvolvendo a minha primeira série, que consegui vender depois de dois anos circulando pelo mercado, de trabalhar com várias produtoras, fazer mais de cinco filmes, trabalhar em salas de roteiro e ser conhecida no meio”, destaca Crespo.


Tá começando? Aposte no longa-metragem!

"10 Horas para o Natal", escrito por Bia Crespo e Flávia Guimarães, dirigido por Cris D'Amato - Imagem: divulgação

Se é mais difícil vender projetos de séries, uma boa dica para quem está iniciando no mercado é ter alguns projetos de longa-metragem para oferecer em rodadas. Bia Crespo dá a dica de ouro: “todos os streamings estão fazendo filme. Para eles é muito mais barato, mais fácil, uma aposta mais certa. Se der errado, não tem tanto prejuízo. Se você está iniciando, aposte em um filme!”


Isso não significa que você deve esquecer seus projetos de série. Bia Crespo deixa claro que é bom desenvolver séries, principalmente para seguir praticando a escrita no formato. Para comercializar, porém, é importante ter pelo menos dois ou três projetos de longa-metragem na manga.


Crespo revela que não é tão fácil assim encontrar premissas de filmes com apelo comercial, mas é exatamente isso que ela procura em rodadas e contatos diretos. Quando encontra, muitas vezes o obstáculo é estrutural: Crespo comenta que a maioria dos projetos de filme que chegam à TDC buscam ousar demais.


“Uma boa dica é não ousar tanto na estrutura do seu filme se você pretende vendê-lo para um grande player. Siga parâmetros industriais comuns, estrutura de três atos. Parece óbvio falar isso, mas quase não encontramos projetos de longa ‘tradicionais’, clássicos. Você vê muito filme querendo revolucionar, sair do óbvio, inventar o que nunca foi feito, mas você quase nunca vê aquele filme que segue mais a receitinha. E essas são as receitas que vendem”. - Bia Crespo

Arte x mercado: a busca pelo equilíbrio


"Crepúsculo dos Deuses" - Imagem: reprodução

Com o triste congelamento das políticas públicas voltadas ao audiovisual brasileiro, passamos da “história que eu quero contar”, para “o projeto que os players querem produzir”. O ideal é encontrar um equilíbrio entre a arte e o ofício, uma intersecção entre a visão de mundo e a demanda de mercado.


Dá para encontrar arte dentro do ofício também, dá para fazer projetos comerciais com a sua personalidade e contando coisas que você gostaria de ver”, responde Crespo.


Talvez uma herança desse período onde havia grande investimento no fomento de novas vozes autorais, a vontade de subverter gêneros e quebrar preceitos estruturais segue firme e forte. Sobre isso, Bia Crespo nos lembra: "mais do que nunca, as pessoas querem um conforto dos filmes, das séries, sem se decepcionar. Nem sempre as pessoas querem ser surpreendidas".


“Pensa bem: você construiu o seu filme inteiro para chegar no final e subverter tudo? Você está subvertendo só por subverter? Não tente subverter só no final, então. Busque criar uma estrutura diferente para o final casar com ela”. - Bia Crespo

Crespo afirma isso com conhecimento de causa, uma vez que dedica muito da sua carreira a adaptar sua visão artística a formatos e narrativas que têm mais chance de agradar os players. “Eu já devo estar no meu sétimo ou oitavo projeto de longa-metragem vendido. Isso porque eu faço esse formato e eu quase não tenho concorrência. Eu falo isso porque eu gostaria de ter! Eu quero ter mais gente comigo”, revela.


Um bom exercício de base é observar as maiores bilheterias do cinema nacional. Considerando isso, Crespo aponta que a comédia é sempre um bom caminho. A roteirista também destaca que comédias românticas, filmes infantojuvenis e para toda a família são, sem sombra de dúvidas, os mais procurados pelo mercado.


“Eu conheço bastante gente que diz que queria tanto uma chance. Muita gente vem me perguntar o que é preciso para entrar no mercado, como se existisse um grande segredo. Não existe segredo, existe você entender o que o mercado está procurando”. - Bia Crespo

Isso significa também entender como funciona o mercado hoje, uma vez que passamos por uma grande transição no modelo de investimento. “O fim das políticas públicas é algo que sou absolutamente contra, pois elas dão espaço para novas vozes e narrativas. Agora, infelizmente perdemos algumas vozes autorais, principalmente as menores produtoras, mas ganhamos em volume de produção. Tem muita coisa sendo feita”, completa Crespo, deixando claro que para quem busca o caminho comercial “é um bom momento para entrar no mercado”.


Escreva com o público-alvo em mente


"A Sogra Perfeita", escrito por Bia Crespo e Flávia Guimarães e dirigido por Cris D'Amato. Previsão de estreia para 2021. Imagem: divulgação

Você pensa no seu público-alvo quando escreve, ou só depois que termina? Esse é um ponto importante para qualquer roteirista. “Eu sempre olho questões como idade e classe social a partir da protagonista. Geralmente as pessoas se pautam por isso”, comenta Crespo.


Se você desenvolver um protagonista de quarenta e poucos anos que mora na periferia, muito provavelmente você está mirando justamente esse público (e é bom ter isso em mente na hora de desenvolver seu projeto). Para o público infantil e infantojuvenil essa lógica é um pouco diferente. Bia Crespo revela que crianças e adolescentes tendem a ver uma faixa etária acima da delas, com algumas exceções dependendo da temática.


“'High School Musical', por exemplo, vai mirar um público mais novo por ser uma comédia musical que trata temas muito leves. Temas como primeiro beijo, amizade, tretas de escola. As personagens de 'Euforia', da HBO, têm a mesma faixa etária, mas eles tratam de temas completamente diferentes. Já é drogas, questões psicológicas, sexo, abuso. Os temas elevam a faixa etária também”. - Bia Crespo

É preciso também pensar no canal para materializarmos um pouco melhor essa questão, mesmo que ainda seja o caso do “canal ideal para o seu projeto”. Seu projeto pode ser um infantojuvenil, mas onde ele passaria? Em um streaming, no Disney Channel, ou em um canal aberto? Os pais e os filhos veriam juntos confortavelmente? Pense nisso!


Pensando fora da bolha


Bia Crespo acredita que um grande desafio para os roteiristas é justamente pensar fora da bolha. Como em qualquer outra profissão, quem trabalha com audiovisual passa a fazer parte de uma certa “bolha”. Passamos a nos conectar com outros profissionais do meio, frequentar grupos de discussão, trocar referências, tendências, enfim… É fácil se “descolar” do que o grande público (fora dessa pequena bolha) realmente consome.


Crespo sugere que o roteirista pense nos seus amigos de escola, “que muitas vezes são um bom termômetro”. É mais fácil que seus amigos de escola tenham trilhado outros rumos na vida e não passem tanto tempo assim pesquisando tendências e refletindo sobre o processo criativo.


Dito isso, é interessante também analisar algumas narrativas que vão bem com o grande público, mas talvez não façam mais tanto sentido no cenário atual.


“Cuidado com isso de fazer séries de grupo de amigos vivendo o dia a dia. Já foi feito. 'Friends' já fez. Não precisa inventar a roda, mas também vamos tentar sair do que já foi feito demais. Precisa ter algum diferencial”. - Bia Crespo

Um espaço para projetos comerciais

Imagem: divulgação

Não podemos falar da carreira de roteiristas iniciantes sem tratar de laboratórios e concursos de roteiro. Muitas vezes são eventos assim que conferem ao profissional sua primeira base de contatos, bem como certo prestígio, que serve como comprovação de que aquele roteirista realmente é capaz de entregar um produto de qualidade.


Bia Crespo afirma entender bem o papel de eventos assim, buscando “cultivar novas vozes e apostar em histórias relevantes e contemporâneas". Por outro lado, a roteirista também nota que para aqueles autores que desenvolvem projetos com perfil comercial existe ainda uma certa ausência de oportunidades.


“Por mais que a ideia seja criar uma coisa que vai dar dinheiro, esses roteiristas passam pelas mesmas dificuldades. Quem vai confiar neles para um primeiro trabalho se eles não conhecem ninguém? Às vezes falta experiência, um jogo de cintura para fazer uma negociação, um caminho para trilhar”. - Bia Crespo

Sem o ingresso em eventos de mercado e sem esses primeiros “selos de aprovação”, o que fazer se você tem um projeto com foco comercial e pouca experiência no ofício? “A TDC veio disso também, da vontade de reunir esses roteiristas com perfil comercial e tentar ajudá-los a encontrar um caminho através dessa mentoria”, responde Crespo.


É justamente isso que buscamos também com o LAB 51, uma parceria entre a Writer’s Room 51 e TDC Conteúdo. Queremos preencher essa lacuna do mercado audiovisual, proporcionando conteúdo teórico e prático para roteiristas que tenham projetos com perfil comercial. Além disso, também buscamos criar pontes entre roteiristas iniciantes e agentes do mercado, entendendo que esse também é um grande obstáculo para quem está chegando agora.


O LAB 51 selecionará 6 projetos de longa-metragem para participar do processo de desenvolvimento guiado por Bia Crespo, responsável pelas aulas, consultoria individual com os roteiristas e definições sobre o futuro de cada projeto. No fim do processo, os 6 participantes também farão um pitch para uma banca de profissionais do mercado audiovisual a serem apresentados futuramente.


Tem um projeto de longa-metragem e quer participar do LAB 51? Acesse o regulamento e inscrição através do link: https://www.writersroom51.com/regulamento-lab51


Quando for desenvolver sua sinopse para o LAB 51, lembre-se das importantes dicas e reflexões de Bia Crespo aqui nessa matéria!


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