Conhecendo as convenções do thriller

Atualizado: 9 de mai.

Como construir um thriller bem sucedido? Confira nossas dicas e 13 convenções para construir uma narrativa nesse gênero

"O Silêncio dos Inocentes"
"O Silêncio dos Inocentes". Imagem: reprodução

Filmes, séries e livros de thriller são populares por algumas boas razões. Esse gênero combina o suspense policial com o perigo de uma história de terror, muitas vezes brincando com as emoções do público e construindo personagens inesquecíveis.


Porém, muitas vezes, roteiristas podem se confundir nas questões mais básicas do gênero, como convenções, ferramentas e expectativas por parte de espectadores.


Embora não haja uma maneira infalível de escrever um thriller de sucesso, existem maneiras de garantir que sua história esteja utilizando todas as convenções e sendo elaborada em cima de uma boa estrutura.


Para ajudar a pensar sobre seu thriller, trazemos algumas dicas traduzidas e adaptadas da editora literária Savannah Gilbo (leia os textos originais aqui e aqui), além de outras questões narrativas bem importantes sobre o gênero. Savannah demonstra como essas convenções se manifestam em adaptações populares: "O Silêncio dos Inocentes" (The Silence of the Lambs, 1991), "Louca Obsessão" (Misery, 1990) e "Garota Exemplar" (Gone Girl, 2014). Confira!



O que são "cenas obrigatórias" e "convenções de gênero''?


Convenções são um conjunto razoavelmente bem definido de papéis, cenários, eventos e valores que são específicos de um gênero. São coisas que o público intuitivamente espera que estejam presentes em uma obra de ficção de gênero, quer percebam conscientemente ou não.

Cenas obrigatórias são os principais eventos, decisões e descobertas que movem a protagonista em sua jornada. Enquanto não são necessariamente obrigatórias em filmes autorais, nas jornadas clássicas, essas cenas-chave evocam reações emocionais no público. Quando combinadas com as convenções do seu gênero, trarão ao espectador a experiência que está procurando.



O que é um thriller?

Garota Exemplar
"Garota Exemplar". Imagem: reprodução

Muitas pessoas costumam confundir thrillers com mistérios, mas existem algumas diferenças entre os dois gêneros.


Em um mistério, a personagem protagonista precisa descobrir quem cometeu um crime que já aconteceu. O(a) detetive leva a história adiante enquanto tenta descobrir a identidade do criminoso, como em histórias de Agatha Christie.


Já um thriller gira em torno de um crime que está prestes a acontecer… a menos que a personagem protagonista possa impedi-lo. Em um thriller, o público geralmente sabe quem é o assassino/criminoso desde o início, muitas vezes acompanhando enquanto ele se prepara para realizar o crime. Ao contrário dos mistérios, os thrillers são conduzidos pela ação do antagonista, mesmo que não seja o ponto central do arco narrativo.


Thrillers podem ter tons ou estilos variados, ser ambientados em qualquer lugar ou época e ter vários níveis de perigo ou violência. Podem incluir diferentes subtramas, desde que a busca para ser mais esperto e parar a antagonista continue sendo o foco principal do filme.


4 subgêneros populares do thriller

Psicose
"Psicose". Imagem: reprodução

Existem vários subgêneros que se utilizam de convenções e ritmos do thriller, podendo articular essa sensação de perigo e suspense através de diversas linguagens. Os subgêneros mais populares incluem:


  • Thrillers de terror: histórias de suspense clássicas que têm abordagem aterrorizante e grotesca. Muitas histórias de terror incluem elementos sobrenaturais, embora também se utilizem de monstros, alienígenas e espíritos malignos.

  • Thrillers legais: são thrillers que acontecem dentro do sistema judicial. São muito populares no cinema, TV e também literatura.

  • Thrillers psicológicos: o suspense psicológico encontra o terror na loucura e na paranóia. "Psicose", de Robert Bloch, que ficou famoso pela adaptação cinematográfica de Alfred Hitchcock, é mais uma história de doença mental do que de assassinato em si – embora apresente eventos terríveis.

  • Thrillers épicos: um thriller épico geralmente envolve riscos muito altos. Em um thriller épico como "A Dança da Morte" (The Stand), de Stephen King, a própria humanidade está em perigo. O mesmo vale para a série "The Walking Dead", por exemplo.


As 13 principais convenções de um thriller

O Silêncio dos Inocentes
"O Silêncio dos Inocentes". Imagem: reprodução

1. Um crime


O gênero thriller precisa lidar com crimes. Às vezes, a antagonista já cometeu outros crimes antes de entrarmos na história – por exemplo, um serial killer. Na maioria dos casos, a personagem protagonista está sentindo a ameaça de um crime que a antagonista planeja cometer.


Estudos de caso:

  • Em O Silêncio dos Inocentes, Catherine Martin está desaparecida e o FBI acha que ela pode ter sido sequestrada por um serial killer que eles chamam de Buffalo Bill.

  • Em Louca Obsessão, Annie Wilkes sequestra o famoso autor Paul Sheldon e o mantém refém em sua casa. Seu crime não é totalmente realizado até que o editor de Paul chame a polícia local perto da casa de Annie.

  • Em Garota Exemplar, Nick volta para casa do bar e descobre que sua esposa, Amy, desapareceu.


2. Uma ou várias vítimas


Podem incluir cadáveres, reféns ou pessoas desaparecidas.


Estudos de caso:

  • Em O Silêncio dos Inocentes, Buffalo Bill está mantendo Catherine Martin como refém em um poço em seu porão. Ele é um serial killer, então houve outras vítimas antes de Catherine Martin – e haverá mais vítimas se ele não for detido.

  • Em Louca Obsessão, Paul Sheldon está sendo mantido em cativeiro por Annie Wilkes. Ele é a principal vítima desta história, embora fique claro que esta não é a primeira vez que Annie prejudica os outros. Perto do final, Annie também mata o xerife local.

  • Em Garota Exemplar, parece que Amy é a vítima porque está desaparecida. No meio da história, descobrimos que Amy está viva e que está tentando incriminar seu marido, Nick, por seu assassinato. Nesse ponto, Nick se torna a vítima. Os ex-namorados de Amy também são vítimas.


3. Antagonista perigosa


A personagem antagonista em um thriller não pode ser extremamente racional. Elas podem ter o objetivo de aniquilar, devastar ou obter poder às custas de outros. São inteligentes e incrivelmente perigosas. Às vezes, são mestres do crime, ou então assassinos em série. Num thriller puro, geralmente são humanos.

O Silêncio dos Inocentes
Buffalo Bill em "O Silêncio dos Inocentes". Imagem: reprodução

Estudos de caso:

  • Em O Silêncio dos Inocentes, Buffalo Bill é o antagonista “mestre”. Ele está obcecado em fazer seu “terno humano” e não pode ser racionalizado. Ou seja, não vai parar de matar até que seu projeto esteja completo.

  • Em Louca Obsessão, Annie Wilkes é delirante e obcecada pelos personagens fictícios dos romances de Paul Sheldon. Ela não consegue lidar com o fato de Paul “matar” Misery Chastain e o força a reescrever o destino de Misery em um novo rascunho.

  • Em Garota Exemplar, Amy está um passo à frente de Nick e da polícia o tempo todo. Ela teve muito tempo para fazer seu plano mestre e plantar todas as pistas para incriminar Nick. Toda a cidade e a nação acreditam que Nick a matou, já que a maioria das mulheres desaparece por causa de seus maridos. Perto do final da história, Nick tem um vislumbre de seu passado manipulador quando entrevista os ex-namorados de Amy.



4. Um protagonismo forte

Corra
"Corra". Imagem: reprodução

Sua personagem principal precisa ser atraente e poderosa, no sentido narrativo. No gênero thriller – assim como na vida real – um conflito raramente é tão simples quanto “bem vs. mal”. Bons thrillers geralmente apresentam protagonistas falhas e complexas.


Por um lado, sua protagonista deve ser forte ou habilidosa o suficiente para superar os obstáculos que inevitavelmente enfrentará. Por outro lado, as pessoas se relacionam com heróis imperfeitos. Ter uma protagonista com falhas aumentará a tensão e os riscos de sua história, além de se encaixar em uma trama clássica de correção/piora.


Antes de escrever, pense em elementos de backstory da sua protagonista. Que habilidades excepcionais ela tem? Quais são suas fraquezas e defeitos? Qual a sua jornada emocional através do filme? Geralmente, as questões escolhidas precisam ter relação com o tema principal do filme.



5. Cena: os riscos se tornam pessoais


Aconteça o que acontecer nessa cena, você precisa deixar claro que há algo pessoal em jogo para a sua protagonista. Por exemplo, ao se envolver com esse crime, agora têm algo pessoal a perder ou ganhar – e isso depende de impedir a antagonista de cometer outro crime.


Então, as apostas agora são pessoais para sua protagonista. Essa cena normalmente ocorre no final do primeiro ato, cimentando o caminho da sua protagonista para o segundo ato (em resposta ao Incidente Incitante). Na teoria de Jill Chamberlain, 'The Nutshell Technique', é quando a protagonista faz uma escolha, baseada em seu caráter, que não tem mais volta e a catapulta nas peripécias do segundo ato.


6. Pistas e red herrings


Ao longo da história, a protagonista segue pistas para encontrar e/ou prender a antagonista. Algumas dessas pistas são “verdadeiras”, que levam o protagonista mais perto da verdade, mas a maioria são becos sem saída ou pistas falsas que temporariamente desorientam a protagonista e o público.


Estudos de caso:

  • Em O Silêncio dos Inocentes, Clarice segue uma trilha de pistas (a maioria dadas a ela por Hannibal Lecter) para descobrir a verdadeira identidade e paradeiro de Buffalo Bill.

  • Em Louca Obsessão, Paul encontra pistas na casa de Annie que o ajudam a entender sua verdadeira natureza. O xerife local segue uma trilha de pistas que o leva à casa de Annie, onde Paul está sendo mantido em cativeiro.

  • Em Garota Exemplar, Amy deixou para Nick uma “caça ao tesouro” cheia de pistas não apenas para incriminá-lo, mas para ajudá-lo a perceber que está sendo incriminado.


7. Cena: o caráter maquiavélico do antagonista

The Riddler em "The Batman".
The Riddler em "The Batman". Imagem: CinemaBlend

É interessante que exista o momento em que uma ou mais personagens falam sobre o brilhantismo e perigo da personagem antagonista. Isso pode ser mostrado em uma conversa, por meio de cartas, por meio de um artigo de jornal, na TV, etc.


Às vezes, isso também acontece na forma de uma revelação em que a protagonista junta informações e percebe que tem um verdadeiro vilão em suas mãos, pior do que imaginava. Esse momento é importante para deixar bem claro quais são os riscos que todas as personagens correm, bem como trazer sensação de medo ou nervosismo no público.


Estudos de caso:

  • Em O Silêncio dos Inocentes, esse “discurso” é proferido por Jack Crawford e Clarice enquanto andam juntos no carro. Jack e Clarice conversam, e ela afirma que Buffalo Bill "tem força física real combinada com o autocontrole de um homem mais velho. Ele é cauteloso, preciso. E ele nunca é impulsivo. Ele nunca vai parar. Ele tem um gosto real por isso agora. Ele está ficando melhor em seu trabalho”.

  • Em Louca Obsessão, Paul Sheldon encontra um álbum de fotos com recortes de jornais detalhando todos os assassinatos de Annie e como ela foi demitida de seu emprego de enfermeira. Esses recortes, além do comportamento de Annie, mostram a Paul quem ele realmente está enfrentando.

  • Em Garota Exemplar, Amy conta para o público como ela armou contra Nick, falando sobre todas as suas mentiras e planos ardilosos.


8. O MacGuffin


Este é um elemento muitas vezes esquecido, mas que faz toda a diferença em como o público enxerga a personagem antagonista.

Inferno
"Inferno". Imagem: reprodução

Um MacGuffin é o objeto de desejo da antagonista – o que ele ou ela está tentando obter, realizar ou alcançar ao longo da história. Normalmente, o crime no início da história contém alguma pista sobre o MacGuffin. É interessante pois, dependendo do tema da história, esse objetivo pode ser algo "relacionável" ou que faça muito sentido para o público, mas que a antagonista tente atingir por meios moralmente nocivos.


Em sua Masterclass sobre escrita de thrillers, o autor Dan Brown (O Código Da Vinci; Anjos e Demônios) explica que se utiliza muito disso quando constrói suas antagonistas. Ele sempre procura a área "cinza" do universo ou temática que vai explorar, definindo sua personagem antagonista pela máxima: "a ação errada, por razões corretas".

Estudos de caso:

  • Em O Silêncio dos Inocentes, Buffalo Bill quer criar um “traje de mulher” de carne humana – esse é o seu MacGuffin.

  • Em Louca Obsessão, Annie quer que Paul Sheldon e Misery Chastain façam parte de sua realidade. Ela captura Paul, mas rapidamente descobre que ele matou Misery em seu último romance. Seu novo objetivo é fazer Paul reescrever o destino de Misery e essencialmente trazê-la de volta à “vida”.

  • Em Garota Exemplar, Amy quer incriminar seu marido por assassinato porque ela sabe que ele está traindo ela.

  • Em Inferno (2016), o principal antagonista de Robert Langdon, Bertrand Zobrist, é um bilionário mentalmente instável que acreditava que era necessário reduzir a crescente população da Terra. Porém, para isso, ele elabora um vírus letal.


9. Um metamorfo (shapeshifter)


Um arquétipo presente também em outros gêneros, um metamorfo é uma personagem que diz uma coisa e faz outra, impactando diretamente na missão do protagonista de parar o antagonista. Pode ser para o bem ou para o mal.


Estudos de caso:

  • Em O Silêncio dos Inocentes, Dr. Chilton finge ser um “ajudante”, mas na verdade tem sua própria agenda.

  • Em Louca Obsessão, Annie oscila entre a doce “fã número 1” de Paul e uma psicopata imprevisível e violenta.

  • Em Garota Exemplar, Amy começa como a vítima e muda para o papel de antagonista no meio da história.

  • Em Inferno, a Dra. Sienna Brooks vai de aliada à antagonista, por esconder seu real relacionamento com Zobrist.

10. Um Ticking Clock

Garota Exemplar
"Garota Exemplar". Imagem: reprodução

Outro elemento presente em diversas narrativas, o ticking clock é fundamental no thriller. É algum tipo de prazo para a protagonista descobrir quem é a antagonista e de fato impedi-la de causar mais danos.


Estudos de caso:

  • Em O Silêncio dos Inocentes, Clarice sabe que Buffalo Bill normalmente mata suas vítimas em três dias. Então, se eles não encontrarem Catherine Martin antes dos três dias, ela morrerá.

  • Em Louca Obsessão, Annie diz a Paul que planeja matar os dois depois que ele terminar de escrever o livro.

  • Em Garota Exemplar, Nick é um suspeito e deve descobrir o que Amy está fazendo antes que a polícia possa prendê-lo.

  • Nas tramas de Robert Langdon (personagem de Dan Brown), ele sempre precisa resolver uma "caça ao tesouro" e evitar que milhares de pessoas se machuquem.


11. Cena: protagonista pode virar a próxima vítima


Uma cena que você pode (ou não) incluir em seu thriller é uma em que a protagonista aprende ou faz algo que a coloca no caminho direto da antagonista. Em outras palavras, faz algo que a tornaria a vítima final da antagonista, dependendo de suas ações para sobreviver ou combatê-la.


Essa cena geralmente acontece no final do segundo ato, empurrando a protagonista para o terceiro ato e para o inevitável clímax da história.


Estudos de caso:

  • Em O Silêncio dos Inocentes, Clarice percebe que Buffalo Bill conheceu sua primeira vítima pessoalmente. Ela decide ir à cidade natal de Buffalo Bill para investigar.

  • Em Louca Obsessão, Paul percebe que Annie é uma serial killer. Ele entende agora que não vai sair vivo a menos que ele mesmo mate Annie.


12. Um falso final

Louca Obsessão
"Louca Obsessão". Imagem: reprodução

No final, quando tudo parece ter acabado, a antagonista se recupera para desafiar o protagonista uma última vez. Esse é geralmente um beat comum em filmes comerciais de outros gêneros, como terror e ação.


Estudos de caso:

  • Em O Silêncio dos Inocentes, Clarice liga para Jack Crawford e ele diz que já encontraram Buffalo Bill e estão prestes a pegá-lo. Mas este é um final falso porque, quando o FBI derruba a porta, percebem que a casa está vazia.

  • Em Louca Obsessão, parece que Paul matou Annie, mas ela volta à vida para desafiá-lo uma última vez.

  • Em Garota Exemplar, Nick planeja contar a verdade sobre Amy, mas ela diz que está grávida e ele decide ficar com ela.


13. Cena: a justiça prevalece (ou falha)


Outra cena-chave que você pode incluir em um thriller é uma em que o público entende se a justiça prevaleceu ou não. Então, é uma cena final onde veremos se a antagonista escapou ou não de seu crime. Essa resolução depende do tema, universo e mensagem geral do filme.


Estudos de caso:

  • Em Silêncio dos Inocentes, a justiça prevalece. Buffalo Bill é morto e Catherine Martin está segura.

  • Em Louca Obsessão, a justiça prevalece (mais ou menos). Annie Wilkes está morta, mas Paul ainda é assombrado por sua memória e pelo tempo que passaram juntos.

  • Em Garota Exemplar, a justiça falha. Amy não enfrenta nenhuma consequência por seus crimes porque ninguém sabe a verdade sobre eles, exceto Nick.


"Garota Exemplar"
"Garota Exemplar". Imagem: reprodução

Você até pode pensar que incluir algumas ou todas essas convenções em seu thriller parece óbvio, mas não é. O que acontece quando empregamos convenções de uma maneira original é que o público sai satisfeito da sessão, pois já esperava todas as etapas e peripécias que mencionamos.


Além disso, ajuda a estabelecer uma estrutura primária para que você crie em cima. Boa escrita!