• Writer's Room 51

Conhecendo as convenções do terror

Está criando narrativas aterrorizantes? Saiba como as expectativas convencionais de filmes de terror podem ajudar na estrutura e escrita!

Pânico
"Pânico". Imagem: reprodução

Após anos de cinema, como continuar surpreendendo o público na hora de escrever um filme de terror? Essa é uma pergunta que assola muitos roteiristas. Porém, o que muitas vezes falta é a noção das convenções do gênero e suas variantes, já que essas podem ajudar bastante na hora de construir a narrativa.


Aqui, é preciso cuidado: muitas pessoas confundem convenções com clichês, que não são a mesma coisa. Convenções são estruturas, plot points ou elementos narrativos que já são conhecidos, assimilados e esperados pelo público. A tensão, o susto ou repulsa, por exemplo, são sensações convencionais que um filme de terror causaria. O mesmo vale para certos arquétipos de personagem, ritmo, temas, representações e ambientes.


Já um clichê é uma convenção mal construída, repetida à exaustão ou até mesmo nociva para a sociedade (estereótipos). Um clichê é geralmente a primeira ideia do roteirista ou algo que já está no inconsciente coletivo há muito tempo, nunca sendo atualizado ou melhor desenvolvido.


Assim fica fácil entender que convenções caracterizam um gênero. Espectadores já esperam enxergá-las num filme com gêneros bem demarcados e podem se frustrar ou se confundir sem elas.

“Convenções de gênero são a rima do roteirista. Elas não atrapalham a criatividade, elas a inspiram. O desafio é manter as convenções e evitar os clichês.” - Robert McKee.

Vamos refletir e conhecer um pouco das características convencionais de filmes de terror?


Utilizando a estrutura do terror a seu favor

As Boas Maneiras
"As Boas Maneiras". Imagem: reprodução

Primeiramente, qualquer roteiro precisa partir de certos alicerces. Os principais são: tema, protagonista com desejos e necessidades, conflito e conhecimento de estrutura narrativa. Com o terror (ou horror) isso não é diferente. É preciso pensar o gênero como uma abordagem da sua história, ou um modo de contá-la, desconstruindo alguns mitos sobre ele.


Qual é seu tipo de terror?


Para além dos vários subgêneros, é importante definir bem qual a abordagem aterrorizante que sua história irá apresentar. É um suspense psicológico? É um body horror explícito? É uma tragédia monstruosa? Essa clareza também é importante na hora de pitchs ou de vender seu projeto.


"Numa cena dramática de ódio e crueldade, vemos o ódio e a crueldade - que sabemos serem coisas reais e permanentes na vida humana - pela ótica da imaginação. O que a imaginação inculca é o horror: não o horror paralisante e nauseante dum arrancar de olhos, mas um horror exuberante, alimentado pela energia do repúdio. O que temos aí é uma poderosa representação daquilo que não queremos para a nossa vida." - Northrop Frye, "A Imaginação Educada"

Será que, ao invés do monstro degolar o sujeito, não seria mais inusitado persegui-lo pela floresta e nunca aparecer? Ou então, ao invés de termos o monólogo expositivo do vilão, vermos uma única ação simbólica? A concentração e representação dramática de temas e falhas que todos nós podemos reconhecer em nós mesmos já é bem potente por si só.

O Sexto Sentido
"O Sexto Sentido". Imagem: reprodução

Agora, se você decidir apostar num gore bem sangrento, vá fundo! Mas seja responsável com seu discurso e com respiros dramáticos, para que o público não fique horrorizado 100% do tempo.


Terror não é só grito e correria


Com certeza você já sabia disso, mas é sempre bom lembrar. Em "The Anatomy of Story", o autor John Truby afirma que:

"Durante o filme, você quer desenvolvimento de plot (enredo), não repetição. Em outras palavras, mudar fundamentalmente as ações da protagonista. Não fique insistindo no mesmo plot beat (ação ou evento) [...]. Para o enredo se desenvolver, você precisa fazer sua protagonista reagir a novas informações sobre o oponente [...] e ajustar sua estratégia e curso de ação de acordo com elas." - John Truby

Sendo assim, não tenha medo das reviravoltas e inversões de valores! Quando feitas de maneira coerente com a construção da protagonista e o universo narrativo, elas são suas aliadas na hora de inovar no gênero, contar sua história e entreter o público.


Como comentamos anteriormente, lembre-se também de que os espectadores não costumam curtir ficar uma hora e meia tensos, preocupados ou enojados. Tenha respiros na tensão da sua história, investindo em momentos de normalidade, comicidade ou explorando o backstory das personagens, por exemplo.


Protagonismo ativo


Sua personagem protagonista segue precisando ter falhas, virtudes, necessidades dramáticas que vão movimentar a narrativa e um arco de transformação (mesmo que esse seja pequeno, interno ou simbólico). Inclusive, o gênero do terror é um dos que mais testa as falhas e forças das personagens, muitas vezes em situações de vida ou morte.


Aqui, é importante saber que um dos principais erros cometidos na hora de construir uma personagem de terror é construí-la muito reativa e pouco ativa. Ou seja, tudo de ruim e horrível acontece com ela, mas não é ela que causa nada.

Os Outros
"Os Outros". Imagem: reprodução

Uma narrativa bem amarrada leva em consideração a falha principal da personagem e a força necessária para superar essa falha - ou, no caso de uma tragédia, as consequências dessa falha. Sua protagonista é egoísta? É intolerante? Ou, no caso de uma mistura de terror e comédia, é ironicamente azarada?


Outra reflexão importante para quem escreve terror é saber que sentir medo é algo natural e já é esperado de uma personagem de filmes desse gênero. Mas quais outras reações existem ali? Surpresa? Repulsa? Atração? Incompreensão?


Para criar personagens mais completas, vale refletir seu caráter e suas escolhas, para que estas criem o enredo e não somente surjam a favor dele.


Incidente incitante x Incidente-chave


Muitos conhecem o termo estrutural "Incidente Incitante'', responsável por incitar o fato principal da narrativa. Pode aparecer no final do 1º Ato, logo antes disso ou mesmo antes da história começar.


É um fato (externo ou baseado em escolhas da personagem) que desestabiliza seu equilíbrio e move a história para seu rumo "mais interessante". Pode ser uma sequência inteira, uma cena, uma ação mínima ou até uma resposta de alguém.