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Conhecendo as convenções do terror

Está criando narrativas aterrorizantes? Saiba como as expectativas convencionais de filmes de terror podem ajudar na estrutura e escrita!

Pânico
"Pânico". Imagem: reprodução

Após anos de cinema, como continuar surpreendendo o público na hora de escrever um filme de terror? Essa é uma pergunta que assola muitos roteiristas. Porém, o que muitas vezes falta é a noção das convenções do gênero e suas variantes, já que essas podem ajudar bastante na hora de construir a narrativa.


Aqui, é preciso cuidado: muitas pessoas confundem convenções com clichês, que não são a mesma coisa. Convenções são estruturas, plot points ou elementos narrativos que já são conhecidos, assimilados e esperados pelo público. A tensão, o susto ou repulsa, por exemplo, são sensações convencionais que um filme de terror causaria. O mesmo vale para certos arquétipos de personagem, ritmo, temas, representações e ambientes.


Já um clichê é uma convenção mal construída, repetida à exaustão ou até mesmo nociva para a sociedade (estereótipos). Um clichê é geralmente a primeira ideia do roteirista ou algo que já está no inconsciente coletivo há muito tempo, nunca sendo atualizado ou melhor desenvolvido.


Assim fica fácil entender que convenções caracterizam um gênero. Espectadores já esperam enxergá-las num filme com gêneros bem demarcados e podem se frustrar ou se confundir sem elas.

“Convenções de gênero são a rima do roteirista. Elas não atrapalham a criatividade, elas a inspiram. O desafio é manter as convenções e evitar os clichês.” - Robert McKee.

Vamos refletir e conhecer um pouco das características convencionais de filmes de terror?


Utilizando a estrutura do terror a seu favor

As Boas Maneiras
"As Boas Maneiras". Imagem: reprodução

Primeiramente, qualquer roteiro precisa partir de certos alicerces. Os principais são: tema, protagonista com desejos e necessidades, conflito e conhecimento de estrutura narrativa. Com o terror (ou horror) isso não é diferente. É preciso pensar o gênero como uma abordagem da sua história, ou um modo de contá-la, desconstruindo alguns mitos sobre ele.


Qual é seu tipo de terror?


Para além dos vários subgêneros, é importante definir bem qual a abordagem aterrorizante que sua história irá apresentar. É um suspense psicológico? É um body horror explícito? É uma tragédia monstruosa? Essa clareza também é importante na hora de pitchs ou de vender seu projeto.


"Numa cena dramática de ódio e crueldade, vemos o ódio e a crueldade - que sabemos serem coisas reais e permanentes na vida humana - pela ótica da imaginação. O que a imaginação inculca é o horror: não o horror paralisante e nauseante dum arrancar de olhos, mas um horror exuberante, alimentado pela energia do repúdio. O que temos aí é uma poderosa representação daquilo que não queremos para a nossa vida." - Northrop Frye, "A Imaginação Educada"

Será que, ao invés do monstro degolar o sujeito, não seria mais inusitado persegui-lo pela floresta e nunca aparecer? Ou então, ao invés de termos o monólogo expositivo do vilão, vermos uma única ação simbólica? A concentração e representação dramática de temas e falhas que todos nós podemos reconhecer em nós mesmos já é bem potente por si só.

O Sexto Sentido
"O Sexto Sentido". Imagem: reprodução

Agora, se você decidir apostar num gore bem sangrento, vá fundo! Mas seja responsável com seu discurso e com respiros dramáticos, para que o público não fique horrorizado 100% do tempo.


Terror não é só grito e correria


Com certeza você já sabia disso, mas é sempre bom lembrar. Em "The Anatomy of Story", o autor John Truby afirma que:

"Durante o filme, você quer desenvolvimento de plot (enredo), não repetição. Em outras palavras, mudar fundamentalmente as ações da protagonista. Não fique insistindo no mesmo plot beat (ação ou evento) [...]. Para o enredo se desenvolver, você precisa fazer sua protagonista reagir a novas informações sobre o oponente [...] e ajustar sua estratégia e curso de ação de acordo com elas." - John Truby

Sendo assim, não tenha medo das reviravoltas e inversões de valores! Quando feitas de maneira coerente com a construção da protagonista e o universo narrativo, elas são suas aliadas na hora de inovar no gênero, contar sua história e entreter o público.


Como comentamos anteriormente, lembre-se também de que os espectadores não costumam curtir ficar uma hora e meia tensos, preocupados ou enojados. Tenha respiros na tensão da sua história, investindo em momentos de normalidade, comicidade ou explorando o backstory das personagens, por exemplo.


Protagonismo ativo


Sua personagem protagonista segue precisando ter falhas, virtudes, necessidades dramáticas que vão movimentar a narrativa e um arco de transformação (mesmo que esse seja pequeno, interno ou simbólico). Inclusive, o gênero do terror é um dos que mais testa as falhas e forças das personagens, muitas vezes em situações de vida ou morte.


Aqui, é importante saber que um dos principais erros cometidos na hora de construir uma personagem de terror é construí-la muito reativa e pouco ativa. Ou seja, tudo de ruim e horrível acontece com ela, mas não é ela que causa nada.

Os Outros
"Os Outros". Imagem: reprodução

Uma narrativa bem amarrada leva em consideração a falha principal da personagem e a força necessária para superar essa falha - ou, no caso de uma tragédia, as consequências dessa falha. Sua protagonista é egoísta? É intolerante? Ou, no caso de uma mistura de terror e comédia, é ironicamente azarada?


Outra reflexão importante para quem escreve terror é saber que sentir medo é algo natural e já é esperado de uma personagem de filmes desse gênero. Mas quais outras reações existem ali? Surpresa? Repulsa? Atração? Incompreensão?


Para criar personagens mais completas, vale refletir seu caráter e suas escolhas, para que estas criem o enredo e não somente surjam a favor dele.


Incidente incitante x Incidente-chave


Muitos conhecem o termo estrutural "Incidente Incitante'', responsável por incitar o fato principal da narrativa. Pode aparecer no final do 1º Ato, logo antes disso ou mesmo antes da história começar.


É um fato (externo ou baseado em escolhas da personagem) que desestabiliza seu equilíbrio e move a história para seu rumo "mais interessante". Pode ser uma sequência inteira, uma cena, uma ação mínima ou até uma resposta de alguém.

Os Estranhos
"Os Estranhos". Imagem: reprodução

Contudo, é fundamental entender também o que é o Incidente-Chave, um elemento comumente confundido ou esquecido. Basicamente, é a escolha da protagonista que define o Ponto Sem Retorno, onde não há mais volta e o terror vai se desenvolver queira ela ou não. De acordo com o escritor Henry James, “incidente é a luz que ilumina e revela o personagem” - uma definição que funciona bem aqui.


Em "The Nutshell Technique", a autora Jill Chamberlain chama esses pontos narrativos de Incidente Incitante, 'Ponto Sem Retorno' e 'Catch' - a personagem consegue seu primeiro desejo mas, junto dele, vem um lado ruim, que no caso do terror pode ser uma maldição, um convite ao serial killer ou outra coisa. Daí, estamos junto da personagem na sua luta de sobrevivência.


Algumas convenções dos subgêneros do terror


Filmes de terror, thriller e mistério dependem muito do ritmo em que você vai revelar as partes da história. Por isso, a utilização de atmosfera de suspense e jumpscares é bem comum.


Suspense e jumpscare


O suspense aparece no terror para aumentar a tensão da trama - e do público. Aqui, você precisa jogar com elementos simbólicos e revelações desencontradas, brincando com a antecipação. Pense na famosa "bomba embaixo da mesa", de Hitchcock. É mais tenso sabermos que ela está ali e as personagens não ou só descobrirmos sobre a bomba quando ela explodir?


Já os jumpscares são momentos onde o filme visa assustar ou horrorizar de fato o espectador, podendo envolver a personagem junto nisso ou não. É aí que entra o perigo dos clichês, que já cansaram os espectadores com monstros embaixo da cama, atrás da porta e vários outros. É interessante notar, porém, que nem todos os filmes de terror precisam apresentar jumpscares.

Pânico
"Pânico". Imagem: reprodução

Um bom jumpscare é aquele que trabalha bem com o ritmo da cena, geralmente alongando-a para assustar com uma revelação do "monstro" ou com um som aterrorizante. Em nosso Grupo Fechado para Apoiadores do WR51, elaboramos mais dicas sobre isso. Conheça nosso projeto no Catarse e considere apoiar!


Alívio cômico


Outra convenção bem aceita pelo público é o alívio cômico. Muitas vezes, recai sobre uma personagem ou situação mais leve, que ajuda a balancear os momentos tensos. Podem ser utilizados diálogos irônicos ou mesmo uma ação mais "normal", para criar empatia e relaxar quem está assistindo.


Uma dose de ironia ajuda o público a se conectar com as personagens e querer acompanhar sua trajetória (e, dependendo, luta pela sobrevivência). Mesmo que nem todos os filmes possuam esse elemento, vale a pena conhecê-lo.


Agora, conheça algumas das convenções dos subgêneros do terror e inspire-se!



1. Narrativas de assombração ou contato sobrenatural

Os Outros
"Os Outros". Imagem: reprodução

Nesse subgênero, o terror é mais psicológico ou interno e toma forma de uma ameaça sobrenatural. Não é regra, mas geralmente se inicia quando a protagonista está em uma nova fase da vida, como: nova casa, novo relacionamento, novo emprego.


Muitas vezes, as narrativas fazem alusão ao estado psicológico das personagens e transformam essas dificuldades em entidades.


Principais convenções :

  • Traumas e/ou tragédias do passado;

  • Mortes ou traumas não superados;

  • Culpa, segredos polêmicos;

  • Ambientes já assombrados;

  • Maldições.

Exemplos de filmes: "Os Outros", "O Sexto Sentido", "Morto Não Fala", "Oculus" e "O Grito".


2. Slashers

Sexta-Feira 13
"Sexta-Feira 13". Imagem: reprodução

Aqui, o(a) assassino(a) é a última bolachinha do pacote. Não precisa ser a personagem protagonista, mas é necessário que seja minimamente desenvolvido e tenha uma característica marcante. Muitos utilizam máscaras.


Geralmente, trata da dinâmica vida ou morte, com perseguições, fugas ou caça ao assassino. As personagens geralmente estão em grupo e possuem algumas características bem clichês - muitas vezes, com inspirações da cultura norte-americana, algo já utilizado à exaustão. Muitos filmes apresentam gore ou violência explícita. É preciso muito cuidado com esse subgênero, pois possui vários clichês que não são mais interessantes hoje em dia.


Principais convenções:

  • Assassinos em série com alguma característica única, ou então mascarados;

  • Presença da história de vida desse assassino;

  • Vingança;

  • Personagens adolescentes ou jovens;

  • Final Girl (personagem sobrevivente geralmente feminina).

Exemplos de filmes: "Pânico", "Halloween: A Noite do Terror", "Sexta-Feira 13", "Alta Tensão" e "Final Girls".


3. Histórias de Zumbi

Mangue Negro
"Mangue Negro". Imagem: repodução

Essas narrativas lidam bastante com discussões sociais, políticas e de relacionamentos entre as pessoas. Geralmente partem de um desastre, podendo tomar uma abordagem pós-apocalíptica e distópica.


Não é regra, mas muitas vezes o vírus, fungo ou mutação causadora do zumbi possui uma história de origem. Aqui, os clichês têm a ver com os arquétipos batidos de personagens e sua relação com os infectados.


Principais convenções:

  • Colapso da sociedade;

  • Histórico de infecção por vírus ou erro humano;

  • Sobrevivência através de fuga ou isolamento;

  • Humanidade como ameaça;

  • Brigas de poder.

Exemplos de filmes: "Noite dos Mortos-Vivos", "Mangue Negro", "REC" e "Resident Evil".


4. Narrativas de monstro

As Boas Maneiras
"As Boas Maneiras". Imagem: reprodução

Com origem mitológica, as histórias com monstros geralmente lidam com temas bem grandiosos, como sobrevivência, ganância humana, etc. Os monstros são representações distorcidas do próprio ser humano e tem bastante influência do romantismo.


Por isso, geralmente essas histórias possuem final trágico e uma mudança de valores, onde começamos temendo o monstro e terminamos por entendê-lo, lamentando sua morte (quando ocorre). Aqui também entram filmes de criaturas, onde existem várias da mesma espécie. Mas elas se diferem por não inspirarem empatia e serem realmente forças opositoras.


Principais convenções:

  • Superação e sobrevivência;

  • Romance trágico;

  • Revelação gradual do monstro;

  • Inconsequência ou erro humano;

  • Entidades mitológicas, fantásticas, folclóricas ou desfiguradas.

Exemplos de filmes: "As Boas Maneiras", "Frankenstein", "Babadook", "Cloverfield" e "O Nevoeiro".


5. Home invasion

A Invasora
"A Invasora". Imagem: reprodução

Entre os principais subgêneros do terror hoje em dia, existe uma série de filmes que se utilizam das invasões domiciliares como pano de fundo para assustar o público. Tais filmes também podem pertencer aos gêneros thriller, suspense ou mesmo policial, mas no terror também fazem muito sucesso. Inclusive, vários entram na categoria slasher, mas não sempre.


Geralmente, tais narrativas refletem o medo de termos nosso espaço privado invadido, trazendo a sensação de que o mundo exterior é mais perigoso e imprevisível do que imaginamos. Aqui, rangidos e solavancos assustam as personagens e revelam que existem estranhos à espreita, que geralmente extrapolam os limites e partem para a violência. Só cuide para não empregá-la gratuitamente.


Principais convenções:

  • Sobrevivência e núcleo familiar;

  • Violência aparentemente gratuita ou impessoal;

  • Personagem final que sobrevive;

  • Grupos, seitas ou assassino(a) sanguinário(a);

  • Ciúmes, ganância ou sede de vingança;

  • Revelação gradual da ameaça, através do som e vultos.

Exemplos de filmes: "Emelie", "A Invasora" e "Os Estranhos".



Claro que existem milhares de outros subgêneros e diversas convenções que não mencionamos aqui, mas essas são algumas das principais que ainda aparecem nos filmes de hoje em dia. E você, conhece mais alguma? Já tem um processo estabelecido para construir narrativas aterrorizantes? Comente aqui ou compartilhe conosco pelo Facebook!


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