• Writer's Room 51

Escrevendo comédia com Vitor Brandt e Denis Nielsen

A dupla, responsável pelo filme “Cabras da Peste”, divide curiosidades dos bastidores, processo de desenvolvimento e dicas para dirigir cabras


Imagem: Glaz Entretenimento

Vivemos momentos incertos no Brasil e no mundo - da crise sanitária aos intensos conflitos políticos. Em tempos de pandemia, dar uma boa risada nunca foi tão necessário quanto agora. Dito isso, com toda a certeza a comédia “Cabras da Peste”, lançada pela Netflix, veio em boa hora.


Na trama, o irreverente e mestre em artes marciais Bruceuílis (Edmilson Filho) é um policial do interior do Ceará que precisa a todo o custo resgatar Celestina, a cabra que é também patrimônio da cidade. Para isso, Bruceuílis viaja até São Paulo, onde encontra Trindade (Matheus Nachtergaele), um escrivão da polícia com pouca aptidão para se aventurar em campo, preferindo manter-se em afazeres burocráticos. É justamente essa dupla improvável que viverá diversas confusões na cidade de São Paulo, em uma trama cheia de lutas, perseguições, traficantes perigosos, rapaduras e, é claro, com muitas risadas.


Não apenas adoramos o filme, como ficamos curiosos para entender um pouco mais sobre o processo criativo por trás do roteiro. Por isso, conversamos com os roteiristas Denis Nielsen e o também diretor Vitor Brandt, as mentes criativas responsáveis por “Cabras da Peste”. Nielsen e Brandt refizeram os passos do projeto, contaram diversas curiosidades sobre o seu desenvolvimento e dividiram dicas essenciais para os roteiristas brasileiros.


Atenção, a matéria contém alguns spoilers! Se você ainda não assistiu ao filme, colocaremos avisos durante o texto.



Quem são Vitor Brandt e Denis Nielsen?


Da esquerda para a direita, Vitor Brandt e Denis Nielsen. - Imagem:arquivo pessoal


Denis Nielsen é um roteirista brasileiro formado em Audiovisual pela ECA-USP e com mestrado MFA em roteiro pela Loyola Marymount University (LMU), em Los Angeles, através da bolsa CAPES/Fulbright. Entre seus trabalhos, estão o roteiros de séries e longas-metragens, como "Cabras da Peste" (Netflix, 2021), o biopic de "Raul Seixas: Metamorfose Ambulante" (em pré-produção pela O2), "O Doutrinador" (Space/Paris Filmes 2018), a 2a temporada da série "Sintonia" (Netflix, em produção) e as 4 temporadas de "3%" (Netflix, 2015-2020). Denis ainda integrou as salas de roteiro das animações "Historietas Assombradas (para Crianças Malcriadas)" e "Oswaldo", ambos para a Cartoon Network, além de ter dirigido dois documentários musicais: "Sailing Band" (Paris Filmes, 2018) e "Sinfonia Caipira" (2019, disponível na Amazon Prime), premiado em festivais nos EUA.



Vitor Brandt é formado em Audiovisual pela ECA-USP. Como roteirista, trabalhou em diversas séries, como "As Five" (2020) e "Contos do Edgar" (2013), nas animações Historietas Assombradas (para Crianças Malcriadas) e Oswaldo, além de ser um dos colaboradores na novela Malhação - Viva a Diferença (2017/2018), ganhadora do Emmy International Kids em 2019. É diretor e roteirista dos longa-metragens de comédia "Copa de Elite" (2014) e Cabras da Peste (2021).


Fazer comédia em 2021


Imagem: Glaz Entretenimento

“É o pior momento para se estar vivo, mas acabou sendo o melhor momento para lançar esse filme”, brinca Denis Nielsen, se referindo ao momento de pandemia. Para Vitor Brandt, o humor leve de “Cabras da Peste” foi muito bem recebido pelo público. “A nossa intenção nunca foi essa, de fazer um filme que fosse um ‘aconchego’ para as pessoas, mas acabou sendo”, comenta.


Com muitos regionalismos e referências a outros buddy cops dos anos 80, incluindo a própria versão abrasileirada de “The Heat is On”, diretamente da trilha sonora de “Um Tira da Pesada” (1984), “Cabras da Peste” oferece boas risadas para toda a família. Brandt acredita que essa foi uma grande bola dentro do projeto.


“Nos últimos anos a comédia, com razão, foi vista como uma ferramenta para denunciar certos discursos. A comédia serve muito bem a isso e que bom que tem gente fazendo boa comédia assim. A gente não foge disso também, o filme tem algumas críticas. Mas chegamos em um momento em que tá todo mundo uma pilha de nervos apenas buscando uma coisa pra relaxar, pra rir”. - Vitor Brandt

De fato, “Cabras da Peste” não deixa passar algumas críticas e alusões políticas, principalmente personificadas por Zeca Brito (interpretado pelo músico Falcão), um político de grande apelo popular, mas com terríveis segredos que esconde do povo.


Inspirações e referências


Imagem: reprodução

Segundo Nielsen, “as ideias meio que nascem junto das referências”. Para entendermos melhor as inspirações por trás do projeto, a dupla relembra seus filmes favoritos que marcaram época, principalmente aqueles exibidos pela Sessão da Tarde entre as décadas de 1980 e 1990 - grande destaque para “Os Aventureiros do Bairro Proibido” (1986).


“Não era nem uma questão de ‘resgatar os filmes dos anos 80 e 90’. Não, a gente tá fazendo um lance que ao mesmo tempo a gente cresceu vendo e é o que fez a gente querer fazer filme”. - Denis Nielsen

Com isso, duas questões ficam claras durante o filme: o universo referencial dos autores e o amor que eles nutrem por essas obras. Para Brandt, trabalhar com comédia para o cinema envolve fazer algo que agrade a uma boa parcela do público, tendo em mente o grande desafio de “fazer rir”.


“Então a gente pensou: ‘já que nós vamos fazer uma comédia para o grande público, precisamos ir atrás das referências de filmes que a gente gosta. Essa coisa de fazer um filme policial surgiu logo de cara”, responde Brandt.


Como surgiu o projeto?


Imagem: Glaz Entretenimento

Segundo os roteiristas, tudo começou quando eles decidiram que fariam alguns projetos em parceria. Brandt comenta: “a gente sentou para ler umas ideias que tínhamos e essa ideia em particular surgiu meio que na sala mesmo”.


Mayra Lucas, produtora da Glaz Entretenimento e um dos pontos em comum na carreira dos dois, foi a primeira a ouvir a bateria de pitchings. “A gente chegou com essa lista de projetos e fomos lendo. Ela foi gostando de todos meio que ‘mais ou menos’, nenhum brilhou os olhos até então. Mas a gente tinha essa ideia que estava pouco desenvolvida”, comenta Brandt. Nielsen completa: “era só uma premissa ainda”.