• Priscila de Souza Irmão

O processo de construção do plot twist

Foreshadowing? Arma de Chekhov? Red Herring? Você conhece essas ferramentas narrativas? Aprenda como utilizá-las para construir bons plot twists!


"Entre Facas e Segredos" - Imagem: reprodução

por Priscila de Souza Irmão


Atenção: esse texto contém spoilers dos filmes "Tubarão", "Entre Facas e Segredos" e "O Sexto Sentido".


A escrita de um plot twist pode ser desafiadora até mesmo para um roteirista experiente, e o motivo é simples: a sua construção requer um planejamento gigantesco para garantir que ele atinja o efeito esperado. Isso porquê, ao escrever um plot twist, você não quer que seu público pense "mas de onde vem isso?" mas sim "como eu não percebi isso antes?". E essa reação é alcançada apenas quando todas as informações necessárias para chegar àquele desfecho inesperado foram dadas ao público ao longo do filme, mesmo que o público não tenha percebido isso ao assistir à obra pela primeira vez.


Mas como deixar esses rastros, essas dicas, de forma eficiente e discreta na história? É aí que

entram dois elementos essenciais para qualquer narrativa:


O Foreshadowing e a Arma de Chekhov


"Tubarão" - Imagem: reprodução

Comecemos pela definição de cada um.


O foreshadowing é uma ferramenta utilizada para dar dicas do que virá a acontecer na história; para plantar informações que virão a ser úteis na história em algum momento, podendo ser, entre outras coisas, uma habilidade que uma personagem aprende em algum momento ou um objeto que parece não ter muita utilidade.


A Arma de Chekhov é um princípio criado por Anton Chekhov e que tem uma premissa muito simples: todos os elementos presentes em uma história devem ser úteis à narrativa, ou seja, tudo que não é essencial deve ser descartado, evitando dessa forma a criação de falsas expectativas no público. A arma de Chekhov é uma forma de foreshadowing, já que, se todos os elementos em cena são essenciais, todos eles dão dicas do que acontecerá na história.


Um exemplo de foreshadowing e da Arma de Chekhov é o tanque de oxigênio em "Tubarão" (Jaws, 1975). O tanque é apresentado como inflamável, e é utilizado na resolução do filme para matar o tubarão, que, ao morder o tanque, explode junto a ele. Uma série de outros exemplos estão presentes no filme "Entre Facas e Segredos" (Knives Out, 2019), como o vômito de Marta que acontece quando ela mente, a poltrona feita de facas, a bola de beisebol que aparece toda vez que a infidelidade de uma das personagens é citada. Outro caso, que falaremos mais a fundo, é o de "O Sexto Sentido" (The Sixth Sense, 1999), que constrói brilhantemente toda a sua história, culminando em uma das revelações mais surpreendentes do cinema.


A construção do plot twist


"O Sexto Sentido" - Imagem: reprodução

Como dito anteriormente, os elementos necessários para se chegar ao plot twist devem estar o tempo todo presentes na história, mas devem também passar despercebidos na primeira vez que se assiste ao filme.


É nessa quantidade de vezes que a obra será assistida em que eu quero focar agora. Imagine

que você, enquanto roteirista, está traçando uma rota que será seguida por seu público ao

longo do filme. Essa rota deve conter todas as informações necessárias para que seu público entenda o destino final da história, certo? Mas quando você quer surpreender seu público, você não pode apenas criar uma curva fechada e levá-los em outra direção, ou o público se sentirá perdido.


Na construção de um plot twist, você deve criar uma rota pela qual o público seguirá na

primeira vez que assistir ao filme, mas que não será a mesma que ele seguirá na segunda ou terceira vez que assistir à obra. Você quer que o público perceba, a princípio, apenas os sinais "errados" da narrativa. Para ficar mais claro, usemos o exemplo de "O Sexto Sentido".


Malcolm Crowe, personagem de Bruce Willis, é baleado no início do filme, e ao longo da

história, ele tenta se comunicar com sua esposa, que o ignora repetidamente. O público

experiencia o filme pelo ponto de vista da protagonista, neste caso, Malcolm, que não sabe estar morto, fazendo com que o público também não saiba e, acredite na mesma narrativa em que Malcolm acredita, seguindo a rota traçada para quem assiste ao filme pela primeira vez. Acreditamos que sua esposa o ignora em seu jantar e que ela não aceita que ele pague a conta, e tudo isso faz sentido com a informação que já temos: sua esposa não se sente como uma prioridade na vida de Malcolm. Mas ao chegar ao final do filme, quando descobrimos que Malcolm morreu com o tiro que levou no início da história, todas as interações entre ele e sua esposa ganham um novo significado: ela não o ignorava, ela apenas não sabia que ele estava ali com ela.


Temos então a rota "correta" a ser seguida, a que percorremos na segunda vez que vemos o filme e nos leva sem surpresas ao final da história: Malcolm está morto. Esta rota é completamente diferente da que seguimos na primeira vez que assistimos ao filme: a de que a esposa de Malcolm está ressentida com ele e seu casamento está ruindo. Com essa construção, Shyamalan nos conta a história real o tempo todo. Nós é que não percebemos, pois ele desvia nossa atenção do que está, de fato, acontecendo.


Para isso, ele usa outro elemento narrativo que pode ser extremamente útil se utilizado da

forma correta: o Red Herring. Red Herring é uma pista falsa, algo que colocamos na narrativa para levar o público aos caminhos errados. Se usado da forma errada, ele quebra a premissa da Arma de Chekhov, de que tudo que vemos é essencial a narrativa, mas, se usado de forma correta, como no exemplo que vimos, ele não engana o público, mas sim o distrai do que é a real história, sem causar a sensação de que o roteirista traiu quem acompanhava o filme. É como se o roteirista dissesse: "Eu nunca enganei você, os indícios estavam ali o tempo todo, você que prestou atenção nas pistas falsas".


A escrita é complexa


O que entendemos até agora é que, para surpreender, não podemos mentir, apenas desviar a atenção do público para a narrativa paralela que está sendo contada. Dê indícios do que está de fato acontecendo, como em "Entre Facas e Segredos", no qual todos falam o tempo todo sobre como Marta é uma ótima enfermeira, e descobrimos depois que ela na verdade não confundiu os medicamentos de Harlan por conhecer bem cada medicamento, mesmo com as etiquetas trocadas . Mas também crie uma narrativa paralela à essa, que justifique o caminho que você quer que o público siga na primeira vez que assistir ao filme, como fazer Marta acreditar que ela de fato confundiu os frascos.


A falta de indícios, de dicas do que está por vir, causa a sensação de traição no público, a sensação de que o autor acredita que o público não se interessa por uma narrativa complexa e bem amarrada, mas sim por reviravoltas que tem como única finalidade a surpresa. Não é fácil levar o público com constância ao longo de uma única história, imagine então de duas ao mesmo tempo? Contar uma história para quem está vendo pela primeira vez, e com a mesma obra, contar outra história para quem já conhece o filme. Esse é o ponto central, criar uma experiência que seja honesta, porém surpreendente.


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Priscila de Souza Irmão é roteirista, revisora e tradutora de roteiros. Formanda em Cinema e Audiovisual, estuda roteiro desde 2016 e foi semifinalista do Laboratório de Projetos de Série do V ROTA. Na faculdade já escreveu e revisou roteiros, além de participar de salas de roteiro com colegas de turma. Trabalha atualmente em seu TCC, um curta-metragem de suspense.
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