top of page

A Teoria das Paixões com Hermes Leal

Com seu trabalho inédito, o autor Hermes Leal expande as ferramentas de criação de personagem e oferece uma visão narrativa mais completa aos roteiristas

Parasita
Parasita. Imagem: reprodução

No Brasil, quando se fala em "arco de personagem", quase ninguém oferece uma teoria didática para explicar esse conceito. Pior ainda, existe um problema de entender efetivamente quais ferramentas de criação que temos a nosso favor.


Foi esse problema que o autor, jornalista e pesquisador Hermes Leal identificou no audiovisual brasileiro, após décadas de pesquisa e estudo narrativo. Fundador da Revista de Cinema e ávido pesquisador de teoria narrativa, Leal percebeu essa certa deficiência na formação dos roteiristas que acaba refletindo em uma falha construção de personagens.


A partir da Semiótica das Paixões, Leal formulou uma teoria que trata do emocional dos personagens como ponto principal do drama no audiovisual. Essa teoria é inédita no país e, através dela, o autor conseguiu interpretar e reconstruir a trama de filmes como "Roma", "Parasita" e séries como "Game of Thrones".


Quais os conceitos dessa Teoria? Como funciona essa construção mais densa de personagem? Quais reflexões você pode levantar sobre sua trama?


Para discutir sobre tudo isso, conversamos com Hermes Leal sobre sua teoria da Semiótica das Paixões no cinema e seu profundo impacto no roteiro e no mercado. Acompanhe e entenda melhor a importância desse campo de criação inédito no audiovisual brasileiro!


Quem é Hermes Leal?

Hermes Leal
Hermes Leal. Imagem: acervo pessoal

PhD em Narrativa de Ficção, Hermes Leal é escritor, com sete livros publicados, explorador e documentarista. É jornalista, Mestre em Cinema com especialização em Roteiro pela ECA/USP e Doutor em Letras, com especialização em Linguística e Semiótica das Paixões, pela FFLCH/USP.


Leal fundou a Revista de Cinema, o principal veículo de difusão do cinema brasileiro, há 20 anos atrás. Parceira dos principais festivais de cinema do país, a Revista produz conteúdo diário com informações sobre o audiovisual.


Os estudos de Leal na narrativa de ficção foram publicados pela editora Perspectiva (2017) na Coleção Estudos, com o título de “As Paixões na Narrativa – A Construção do Roteiro de Cinema”. Sua segunda obra neste campo, “As Paixões nos Personagens”, demonstra a aplicação de sua teoria nos roteiros e personagens de filmes e séries conhecidas. Esses trabalhos foram o nosso foco para essa matéria.


Leal é também roteirista e diretor de séries televisivas como “Pensamento Contemporâneo” (canal Curta!) e “Cineastas” (canais Curta! e A&E), de longas documentais e ainda criador e roteirista da série “Amazon Fashion” (Fashion TV e Amazon Prime Video).


Em suas próprias palavras, Leal afirma: “Eu estudei a semiótica para o cinema, na estética. Estudei a semiótica para o roteiro. É um trabalho de três décadas [...]. E eu nunca dei aula. Eu sou um acadêmico sem ser acadêmico. Um pesquisador há três décadas sem ninguém saber”, brinca.


Mas como surgiu o interesse de produzir essa obra sobre semiótica especificamente para o roteiro?


A má fama do roteiro brasileiro

Quem já não ouviu um "não gosto de cinema brasileiro"? Esse típico comentário é nocivo e abrange toda a produção como se fosse homogênea. Porém, é preciso reconhecer que existe, sim, um certo problema em nossa construção e discurso criativo.


Leal divide sua opinião sobre isso. “As pessoas diziam que o cinema brasileiro não tinha roteiro. Eu venho ouvindo isso desde sempre, até agora", afirma. Ele continua: "A gente pegou uma má fama que sobrou pra gente, mas eu acho que nem é muito culpa do roteirista. Acho que é mais culpa de como nós vemos o cinema”.


Para Leal, o "problema" dos roteiros brasileiros é estrutural, possuindo raízes educacionais e também sociais. “Quando eu fiz essa teoria, acabei vendo o que complica o roteiro brasileiro. Eu consegui identificar aquilo que nos cega. [...] Nessa teoria científica da narrativa, eu consegui ver os nossos problemas”, afirma. E o que seria?


As paixões e a verdade


Leal afirma que a construção de personagens reais que tomam a dianteira do filme, carregando o tema (e não o contrário), é algo raro nos roteiros brasileiros de maneira geral.


Já percebeu que muitos filmes são temáticos, querem provar alguma coisa, mas não constroem personagens icônicos e fortes o suficiente para que você crie laços emocionais? Pois é, isso prejudica tanto a discussão do tema quanto a própria recepção do público. “Geralmente esses filmes não chegam na verdade, não fazem você sair do discurso”, diz o autor.


Leal continua: “Quando nós não sabemos chegar até a verdade, nós pegamos um atalho e vamos atrás da 'cura'”. Nesse ponto, o autor faz uma distinção entre o discurso temático e moral em primeiro lugar (chamando de cura) e quem o personagem realmente é (a verdade).


A ‘cura’ não é muito boa porque ela apenas resolve aquilo que a personagem tá querendo. Agora, a verdade é outra coisa. Porque as personagens são imperfeitas. A gente trabalha com a imperfeição da personagem, a paixão da personagem. O ódio, a raiva, o rancor - é isso que faz a personagem agir. Toda ação é movida por uma emoção, então não adianta ter só teoria da ação sem teoria da emoção. - Hermes Leal

Portanto, “a perfeição é uma busca, não é um estado nosso. É uma busca que a gente nunca vai encontrar”. E isso precisa estar presente na construção narrativa se quisermos levar vida a personagens de fato complexas, que lidam com questões assim como nosso público, mas que ainda contam uma história única.

Tony Soprano
Tony Soprano em "The Sopranos". Imagem: reprodução

Isso reflete em personagens aclamadas mundo afora, como Tony Soprano (Família Sopranos), Nadia (Boneca Russa), Don Draper (Mad Men) e até mesmo Fleabag (Fleabag). Todas possuem características que abalam profundamente seu caráter e, mesmo assim, acompanhamos suas trajetórias assiduamente.


No Brasil, a gente acha que sentir emoções é uma coisa negativa. Nós temos um dos maiores índices de felicidade do mundo com um dos menores índices de leitura do mundo”, contrapõe Leal.


Ao longo de sua carreira e pesquisa, o autor percebeu que a privação da leitura é um dos comportamentos que mais afeta nossa relação com as emoções. Ele constrói uma relação entre a falta de leitura, a verdade das emoções e a felicidade. Para ele, o brasileiro geralmente não se vê nas telas em toda sua complexidade - e isso é um problema que aparece no roteiro.


“Na hora que o escritor vai desenvolver sua verdade, ele tem dificuldade com isso”, afirma. O "medo" de explorar sentimentos e também o desconhecimento sobre como eles aparecem na tela acaba sendo um grande problema para nós.

"Coringa"
"Coringa". Imagem: reprodução

Em luz disso, como funciona essa teoria elaborada por Leal? No que ela agrega e o que muda na estrutura do roteiro? É sobre isso que vamos falar a seguir.


A Teoria das Paixões


Para construir protagonistas interessantes, com diversas possibilidades, mas também coesas, o roteirista precisa de diferentes ferramentas que possibilitem escolhas narrativas mais densas. Por isso, a teoria de Leal é tão contundente. Ela permite que o autor faça escolhas conscientes sobre o que vai mover a personagem e qual caminho ela vai seguir.


A semiótica das paixões é o estudo das passionalidades das personagens, o afeto das personagens. Como elas são afetadas por raiva, ódio, vingança”, explica Leal. “Uma paixão se transforma em outras. Então, as personagens sofrem uma transformação no sentido dessas paixões, causando uma transformação na ação”.


De acordo com o livro de Hermes Leal, "A Paixão nos Personagens", essa teoria é "Uma ciência da ficção, chamada assim por incorporar o sujeito à narrativa, por incluir o seu sentir junto ao seu agir". É a simples ação de colocar a personagem e suas emoções no centro, ao invés de articular uma narrativa de causalidades e enxertar um protagonista ali depois.


E de onde vem essa teoria semiótica? “Da linha de Lacan, de Saussure. Todo o século 20 foi dominado pelo estruturalismo [...]. Agora, no século 21, nós colocamos o personagem e suas paixões dentro da narrativa. A partir do momento em que a personagem entra na narrativa, aquela narratividade fica boa”, explica Leal.


Até hoje a gente estuda discurso. Essa teoria traz a estrutura narrativa que fica abaixo do discurso. A gente estuda o que gera o discurso. - Hermes Leal

Baseado ainda no trabalho de A.J. Greimas do início dos anos 1990 e também em outros acadêmicos franceses, Leal traz uma verdadeira teoria matemática e lógica que segue os objetivos e relacionamentos das personagens, sendo isso que forma o arco geral da série ou filme no qual é aplicada.

Parasita
"Parasita". Imagem: reprodução

A Teoria leva em conta que a ficção possui três níveis: o nível “superficial” (onde estão os discursos, ações e diálogos); o “narrativo” (onde estão os estados dos pathos da alma e os modos de existência regendo as ações); e o “profundo” (onde forças tensivas operam para empurrar o personagem rumo à sua potencialização).


Essa articulação de níveis é o que compõe uma jornada de personagem, onde essa está em busca de um objeto, que gera uma ação que, por sua vez, é regida pelas emoções desta personagem.


Ou seja, o arco narrativo vai surgir da junção desses dois conceitos: do agir e do sentir.


Quer visualizar melhor? “Coringa, por exemplo. Vamos estudar o estado emocional da personagem. Se você tirar o estado emocional da personagem, o Coringa não é nada. O emocional dele é provocado pelas paixões”, explica o autor.


Fica claro por que a Teoria é importante. Num mundo onde o sentir que rege o agir, inclusive conversas entre pessoas, situações e transformações, o cinema tem a possibilidade de refletir a realidade humana em todas as suas interpretações e possibilidades.


Os 7 esquemas e seus atos

Coringa
"Coringa". Imagem: reprodução