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Entendendo as motivações conscientes e inconscientes do seu protagonista

Trazemos dicas do roteirista Aaron Mendelsohn, que trabalha com estúdios como Fox e Disney, para elucidar sobre as diferenças entre desejos e necessidades narrativas

"Corra!". Imagem: reprodução

Na hora de construir personagens para seu roteiro, é importante contar com um arsenal de ferramentas narrativas. Quase todas essas ferramentas se dedicam ao drama interno do personagem e suas motivações para agirem e falarem do jeito que falam.


Nossa última matéria, na qual conversamos com a roteirista Nina Kopko, trouxe muitas discussões sobre isso, mas é sempre bom elaborar mais sobre o assunto.


Por isso, hoje trazemos um texto escrito pelo consultor Michael Lee para o The Script Lab sobre motivações internas dos personagens e como melhor articular tudo isso. Além de traduzir, adaptamos para discutir mais profundamente sobre noções que Michael traz em seu texto.


Quais são as diferenças entre motivações de caráter consciente e inconsciente? O texto do TSL traz o roteirista Aaron Mendelsohn para falar sobre isso, com dicas, reflexões e exemplos.

Aaron Mendelsohn. Imagem: iMDB

Aaron Mendelsohn é co-criador e roteirista da franquia "Bud: O Cão Amigo" (Air Bud, 1998) da Disney, além de ser roteirista para a Fox, New Line, ABC, Warner Bros, Apple e outros. Ele também é professor de roteiro na Universidade Loyola Marymount e secretário-tesoureiro do Writers Guild of America West.


Abaixo, leia o texto de Michael Lee traduzido e adaptado por nós sobre como melhor formular os desejos conscientes e inconscientes de seus personagens principais.


Encontre maneiras de tornar o seu protagonista único

[Os protagonistas] tendem a ser os personagens menos interessantes em um roteiro. Vamos pensar no que os torna únicos. Quais são alguns dos traços e qualidades interessantes de personalidade que eles têm? E então, assim, tentarei descobrir o desejo inconsciente e consciente deles. - Aaron Mendelsohn

O primeiro passo para criar personagens atraentes é tentar encontrar maneiras diferentes de torná-los únicos e originais. Traços de personalidade, peculiaridades e origens específicas podem ajudar a melhor desenvolver um personagem.


É a primeira abordagem para pegar um personagem bidimensional e moldá-lo em algo tridimensional.


Nesse caso, Mendelsohn aponta para um personagem como Dory em "Procurando Nemo" e "Procurando Dory". Por que ela é única? Pois não consegue se lembrar de nada. Ela tem perda de memória a curto prazo e não pode reter informações por mais de um minuto.

Dory. Imagem: reprodução

Essas são características que vão influenciar as ações dos personagens ao longo da trama e ajudar a formular melhor os eventos que testarão seu caráter único.


Mas isso deve partir de um sentido narrativo temático, ou então de uma falha que precisa ser corrigida. Não se trata de ir fazendo listas técnicas dos personagens com sua cor favorita se isso não interfere no roteiro ou em seu arco narrativo.


Além disso, é importante que o protagonista tenha contradições, mas nada deliberado e aleatório. Transformá-lo em tridimensional significa colocar suas crenças à prova, confrontá-lo com situações limites e lançar mão de cenas que demonstrem mudança em seu caráter - para qualquer direção.


Desejo Consciente: a necessidade inicial

Os personagens possuem o desejo consciente, também conhecido como The Want [A Necessidade] - é o que o personagem central pensa que quer. E, frequentemente, esse é um objetivo egoísta. Muitas vezes eles aparecem no início de uma história. Às vezes, quando o incidente incitante chega, eles pensam nele. É o que eles pensam que querem. - Aaron Mendelsohn

O desejo consciente é esse desejo superficial inicial, também chamado de Set-Up Want pela autora e consultora Jill Chamberlain em seu livro "The Nutshell Technique". Inclusive, já fizemos uma matéria sobre erros de roteiro que ela e outros especialistas apontam como principais.

Jill Chamberlain. Imagem: Screencraft

Portanto, talvez o desejo inicial de um personagem que é policial seja querer finalmente ver alguma ação em seu trabalho. Talvez um pequeno grupo de crianças da cidade queira encontrar um cadáver para que possam ser heróis.


Seja qual for o caso, o desejo consciente é onde a história começa.


Em seu texto para a Screencraft, Jill Chamberlain explica de modo bem didático o quão importante é o Set-Up Want (Necessidade Inicial ou Desejo Consciente) do protagonista.


Para isso, ela utiliza como exemplo o arco de Chris, protagonista do vencedor de Melhor Roteiro Original no Oscar de 2018 "Corra!" (Get Out, 2017). Leia o trecho abaixo:


"O SET-UP WANT do protagonista Chris em suas cenas iniciais é parar de fumar. Ele atinge seu SET-UP WANT no evento que demarca o final do Ato 1 e nos empurra para o Ato 2, que eu chamo de PONTO SEM RETORNO. O PONTO SEM RETORNO é quando a mãe de Rose o hipnotiza e ele passa a não querer mais fumar. Nesse PONTO SEM RETORNO, ele alcança seu SET-UP WANT inicial de parar de fumar, mas há um grande CATCH associado à sua conquista: a partir deste ponto, as coisas ficam estranhas.


O CATCH deve ser o teste perfeito da FALHA central do protagonista que, no caso de Chris, é seu medo de deixar os outros desde que abandonou sua mãe quando ela estava morrendo. Portanto, o Ato 2 será em grande parte um teste dessa FALHA e sua incapacidade de abandonar os outros o mantém em perigo e sem conseguir enxergar a verdade sobre Rose.


As coisas ficam cada vez mais tensas para Chris até que, preso no porão, ele atinge o fundo do poço quando descobre toda a verdade: ele foi hipnotizado porque estava prestes a removerem seu cérebro e transplantá-lo na cabeça de outra pessoa. Ele chegou à sua CRISE, que é o desejo de nunca mais deixar de fumar (algo implícito, não falado), porque, se ele não quisesse parar de fumar, nunca teria sido hipnotizado no início.


A CRISE é o ponto mais baixo e também exatamente o oposto de seu SET-UP WANT: 'parar de fumar'".

Chris e Rose em "Corra!". Imagem: reprodução

Desejo Inconsciente: o que eles aprendem que realmente querem


Aaron Mendelsohn, ao trazer a noção do Desejo Inconsciente, afirma: “O Desejo Inconsciente é o que o personagem central aprende, durante sua jornada, que ele realmente quer. E muitas vezes esse é um objetivo mais altruísta.”


Ele continua explicando que, em alguns filmes, o desejo consciente e o inconsciente são os mesmos.


Em "Birdman" (2014), o protagonista quer provar ao mundo que ele pode ser um ator dramático. Em "Gravidade" (Gravity, 2013), a protagonista quer sobreviver e voltar para casa.


Os filmes são sobre sua jornada em direção ao objetivo e as lutas que eles devem superar para alcançá-lo.


Mas a maioria dos filmes tem essa mudança dos desejos conscientes para desejos inconscientes, onde eles devem passar por provações e tribulações a fim de descobrirem o que realmente querem (e precisam de fato).

Birdman. Imagem: AdoroCinema

Portanto, é o que o personagem precisa para corrigir sua falha moral que o impede de ser um ser humano melhor, um profissional melhor, uma mãe melhor, etc. É bom lembrar que, nesse momento, não se trata necessariamente de "certo e errado", mas sim em relação à falha central do personagem.


Exemplos de desejo de caráter Consciente e Inconsciente


Em "Breaking Bad" (2008), o desejo consciente do protagonista é sustentar sua família. Seu desejo inconsciente é recuperar sua masculinidade.


Em "A Primeira Noite de um Homem" (The Graduate, 1967), o desejo consciente do protagonista é a Sra. Robinson — ou a relação sexual que ele deseja ter com ela. Seu desejo inconsciente é o que sua filha personifica dentro da história — o amor.


Em "Mensagem Para Você" (You've Got Mail, 1998), existem dois personagens principais. O desejo consciente de Joe é dominar o mercado local de livros com sua nova loja de franquia. Já o desejo consciente de Kathleen é impedir que ele destrua sua livraria local.


O desejo inconsciente dos dois é aprender que seus respectivos amigos virtuais são a combinação perfeita para o amor. Isso eles precisarão aprender juntos, ao final do filme.



Curtiu ler sobre desejos de personagem? Assista a uma parte do vídeo (em inglês) com Aaron Mendelsohn trazido pelo TSL 360 (do The Script Lab), onde ele comenta sobre tais exemplos:


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