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Por que roteiristas que dirigem seus filmes se dão melhor no Oscar?

O Oscar valoriza muito mais os roteiristas que se também aventuram no papel de diretores. Qual o espaço que os roteiristas-diretores ocupam em Hollywood? E onde ficam aqueles que preferem só escrever?

Imagem: reprodução

O trabalho de um roteirista é fundamentalmente diferente do de um diretor. Ainda assim, é possível encontrar cineastas que fazem um ótimo trabalho na tradução de seus roteiros para a tela.


Se você é roteirista e planeja conquistar um Oscar de melhor roteiro original ou adaptado, por exemplo, dirigir o filme que você escreveu se torna um grande fator de sucesso.


De acordo com a Variety, desde 2010, 53% dos cineastas que ganharam Oscars de roteiro original foram também diretores de seus filmes e 31% dos cineastas que ganharam Oscar de melhor roteiro adaptado foram também diretores.

Lulu Wang. Imagem: Vanity Fair

Ou seja, desde 2010, apenas um roteirista solo não-diretor ganhou um Oscar de melhor roteiro original. Além disso, a última vez que um roteirista solo não-diretor ganhou um Oscar de melhor roteiro adaptado foi em 2014.


Isso é um problema? Será que isso reflete uma época complicada para o reconhecimento dos roteiristas que preferem dominar somente o mundo da escrita? De acordo com os cineastas que conversaram com a Variety, depende.


"É revelador", diz Anthony McCarten, três vezes indicado ao Oscar e único roteirista (não diretor) de "Os Dois Papas" (The Two Popes, 2019), quando fica sabendo dessas estatísticas. "Existe um verdadeiro mal-entendido do que um roteirista faz em um roteiro. É a arte invisível e o respeito adequado não existe. É uma discussão atrasada".

Os Dois Papas. Imagem: reprodução

McCarten, roteirista do novo filme dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles, traz um ponto já desgastado pelos profissionais hollywoodianos de roteiro. A realidade de hoje em dia é que o roteirista só é realmente valorizado na televisão, onde possui o devido status de criador da obra ou cargo executivo de showrunner.


No caso dos Oscars, cada vez mais os filmes reconhecidos são aqueles em que os dois trabalhos, de roteiro e direção, se misturam de maneira mais fluida. Lesley Mackey, diretora sênior de créditos do Writers Guild of America West, tem uma opinião mais positiva sobre isso.


"Essas pessoas foram contratadas para realizar serviços de roteiro e, muitas vezes, são os roteiristas que estavam lá desde a primeira página em branco. Uma boa parte deles [...] tem um número maior de créditos de escrita do que dirigindo”.


Diferentes opiniões sobre o roteirista-diretor


É bem entendido que os diretores contribuem com várias idéias para qualquer roteiro, a fim de trazer um projeto coerente e interessante à vida. Mas a colaboração pode assumir várias formas - e cada vez mais, os filmes reconhecidos no maior evento anual de Hollywood, por exemplo, são aqueles em que os dois trabalhos se misturam de maneira mais transparente e autoral.


"Virei diretora porque sabia que essa era a melhor maneira de proteger a escrita", diz Lulu Wang, diretora e roteirista de "The Farewell" (2019), à Variety. Assim como a diretora, muitos cineastas tomam o rumo de dirigirem seus filmes para garantirem a veracidade das histórias que, muitas vezes, são até mesmo autobiográficas.

The Farewell. Imagem: A24

Sobre isso, o roteirista, autor e diretor John August afirma que "algumas histórias têm uma visão e uma voz tão únicas que só podem ser contadas por uma mesma pessoa". A integridade da narrativa, portanto, pode ficar ameaçada nessa conversa entre roteirista e diretor, por vezes intermediada por produtores.


“Os diretores que escrevem seus próprios roteiros têm uma voz consistente”, diz Larry Karaszewski, que roteirizou "Meu Nome é Dolemite" (Dolemite Is My Name, 2019) com o parceiro de roteiro Scott Alexander. “Como roteiristas, você tem muitas notas de muitas pessoas - e então um diretor se envolve e é um processo enorme. Considerando que, quando Jordan Peele segue seu roteiro do começo ao fim, ele sabe quando está pronto".


Além dos aspectos de proteção narrativa e coerência de linguagem, tanto Wang como o roteirista e diretor de "Jojo Rabbit" (2019) Taika Waititi comentam sobre o fator da praticidade que reside em escrever os filmes que vão dirigir.

"Sou mais preguiçosa do que escritores que não dirigem", afirma Wang. "Para deixar claro sua visão sobre o filme, eles precisam ser muito específicos com a escrita. Eu tenho uma taquigrafia - vou apenas escrever 'Eles andam em um estilo épico' na página e sei que isso acontecerá em câmera lenta na hora de gravar. Mas um produtor não está na minha cabeça e eu preciso explicar a eles o motivo pelo qual é um momento tão grandioso”.


Da mesma forma, Waititi diz que inclui instruções de decupagem em seus roteiros extras, pois ele sabe que será o diretor depois. "No set, estou reescrevendo as coisas, moldando tudo e tentando mantê-las nos trilhos", diz ele.


Nesse sentido, o roteirista-diretor realmente possui a vantagem da escrita mais visual ou abreviada. Assim como Waititi fala, é possível até mesmo escrever diretamente decupando as cenas, algo impensável de um roteirista sugerir num roteiro que não irá dirigir.

Taika Waititi. Imagem: Variety.

O cineasta vai além: diz que, quando dirige, "Você está escrevendo sem usar os dedos. É muito raro as palavras na página serem o filme que você vê". Portanto, o roteirista-diretor também acaba tomando as próprias rédeas da expressão fílmica, trazendo à memória aquela noção de criador ou mesmo autor que acaba tão diluída entre as super produções industriais de Hollywood.


“Entre os roteiros, a produção e a edição, um filme assume formas diferentes a cada passo do caminho”, diz o diretor e roteirista de "Waves" (2019), Trey Edward Shults. "Quando escrevo um roteiro, é a primeira vez que alguém vê o filme - é apenas o primeiro passo no caminho".


Scott Z. Burns, que colabora frequentemente com o diretor Steven Soderbergh (incluindo no recente "A Lavanderia"), está estreando como roteirista e diretor com "O Relatório" (The Report, 2019). No entanto, ao longo de seus quatro pares de filmes como roteirista, a divisão entre roteiro e direção permaneceu intacta.

"Steven acredita que seu trabalho é o diretor e o meu é o escritor", diz Burns. “Inerente a essas descrições é que a colaboração é entre nós".


Soderbergh também esperava que Burns estivesse no set todos os dias, um privilégio que muitos roteiristas não têm e gostariam de ter. "Em outros filmes, não senti o mesmo nível de envolvimento, especialmente depois que as filmagens começaram", diz ele. "No desenvolvimento, há certo envolvimento com o diretor, mas parece haver um limite no qual, quando você termina, sua participação não é necessária".


Tudo isso pode pintar uma imagem do roteirista como descartável, trabalhando duro para produzir um roteiro que é finalmente transformado em filme por um diretor. É infelizmente muito comum do diretor tomar a frente como criador, desrespeitando o trabalho do roteirista, o qual é necessariamente a base da criação.


Como Hollywood enxerga essa situação?


As tendências hollywoodianas para o roteirista-diretor


Mackey, da WGAW, não vê o roteirista-diretor de uma maneira negativa. Mais que isso, ela identifica no mercado que "Os roteiristas profissionais querem ...ter a oportunidade de dirigir suas próprias imagens", diz ela à Variety. "Se você conversar com alguns de nossos membros, encontrará mais oportunidades para os escritores direcionarem seus próprios materiais. Essa é a tendência. "


Uma tendência que aponta diretamente para os autores, os roteiristas-diretores que controlam o processo de criação. Portanto, essa é a categoria de cineastas que os eleitores da Academia acabaram por preferir, causando a exclusão de quase todos os outros na categoria de melhor roteiro original por quase uma década.


McCarten diz que, em parte, essa preferência tem a ver com o conceito de marca (ou branding).

"Vivemos no culto ao produtor nos anos 20, depois no culto ao ator nos anos 40 e 50, e atualmente vivemos no culto ao diretor", diz ele à Variety. "Nunca teremos um culto ao roteirista, porque não estamos brigando por isso. Somos muito modestos e fazemos todo o nosso trabalho em espaços solitários ".


Burns concorda. "Os estúdios transformaram diretores em marcas", diz ele. "Quando os eleitores [da Academia] vêem esses nomes, eles estão mais familiarizados com eles do que com os roteiristas - de modo que isso pode explicar a situação, em parte. Mas eu entendo a agitação [de McCarten]; você sente isso quando trabalha com o [roteiro] há anos, o leva a um diretor e eles mudam tudo, e você acaba com o crédito compartilhado. Pode ser frustrante”.


A crise dos roteiristas já não é necessariamente algo novo na indústria, ainda mais no atual panorama hollywoodiano anti-ideias originais".


Ainda assim, Mackey vê de maneira diferente: “Talvez haja mais diretores divulgados como marca, mas isso não é novidade. [Alfred] Hitchcock era uma marca. Charlie Kaufman é uma marca. Aaron Sorkin é uma marca. Os estúdios promovem o que lhes dará mais reconhecimento. Às vezes é o escritor, às vezes um diretor, às vezes um produtor".


Como sempre, é notável perceber que as tendências do mercado, por mais conceituais que sejam, sempre seguem o lucro econômico. Daí, fica fácil de entender o hype do roteirista-diretor quando se mantém isso em mente. Hollywood preza o lucro, desde sempre.


E talvez a direção em que os eleitores da Academia estejam seguindo por quase uma década esteja convencendo alguns escritores a aproveitar a "oportunidade" de dirigir - se puderem convencer alguém a deixá-los.


É importante que a classe escritora saiba que o trabalho do roteirista não precisa necessariamente desaguar na direção. Contudo, os desafios não só de reconhecimento como de subsistência através do roteiro são grandes.


Ainda assim, a época atual parece estar favorecendo quem se aventura em assinar as duas etapas da concretização narrativa. Essa perspectiva não é nada fácil de se ter num momento inicial, já que créditos de roteiro e direção se diferem muito na hora de avaliar a equipe de um projeto.


Hollywood já anda reconhecendo o papel dos roteiristas-diretores há um tempo. Mas onde mais existe o devido reconhecimento para os que escolhem somente escrever seus filmes virá?


A inversão de valores da televisão: o roteirista é o protagonista


Quando perguntaram "O que é televisão?" a Chuck Slocum, diretor executivo assistente da Writer’s Guild of America, disse: "Televisão é tudo o que o cinema não é". Se tratando do espaço dos roteiristas e diretores, isso não poderia ser mais real.

Phoebe Waller-Bridge. Imagem: reprodução

É interessante observar como a situação precária de menor reconhecimento do roteirista é invertida quando se trata do ambiente televisivo.


Num ambiente de emissoras, estúdios e até mesmo produtoras de streamings, o papel do roteirista principal ou criador das séries é mais valorizado. O cargo de criador ou showrunner fica, quase sempre, nas mãos de um roteirista.

O showrunner de uma série também possui o título de produtor executivo. Shonda Rhimes, showrunner de séries como Grey's Anatomy e Escândalos: Os Bastidores do Poder, explica didaticamente:

Os showrunners garantem que os scripts sejam finalizados, que o orçamento seja cumprido conforme prescrito pelo line producer, que os atores estejam felizes e que a sala de roteiristas esteja avançando. Eles trabalham com a equipe e com o estúdio e/ou emissora. Finalmente - e o mais importante - ele ou ela protege a visão criativa do programa.

Isso quer dizer que o showrunner toma todas as decisões narrativas à título de produção executiva, lidando diretamente com as emissoras e aprovando - e mesmo escolhendo - os cargos principais de criação. Nisso, entra também o diretor.


Como, então, fica o papel diretor nesse ambiente liderado pelos showrunners? Amplamente secundário e substituível. É quase de praxe que se contrate vários diretores por temporada, diluindo os episódios entre eles e realmente tornando o papel de direção um processo muito mais técnico do que criativo.


Mesmo numa série mais controlada pelo showrunner, onde esse trabalha com sua equipe de preferência - como Joe Penhall em Mindhunter, por exemplo, que trabalhou com o diretor David Fincher em vários episódios da série -, o diretor não tem a mesma relevância como no novo panorama de "cinema autoral" das recentes novas apostas Hollywoodianas.


Ou seja, na televisão não existe o roteirista-diretor. Vemos a valorização do criador dos universos seriados, o qual tem prioridade decisiva sobre todas as ideias geradas na sala de roteiro.

Mindhunter. Imagem: reprodução

Quando se trata dos criadores e showrunners de sucesso - bem como Aaron Sorkin, Jesse Armstrong ou Phoebe Waller-Bridge -, a profissão é muito valorizada. Não é à toa que, desde algum tempo atrás, muitos cineastas têm migrado para a televisão.


Hoje em dia, o espaço do showrunner na HBO, FOX, Netflix, Amazon e muitas outras empresas proeminentes vem sendo cada vez mais cobiçado por aqueles criadores que têm uma história para contar e, muitas vezes, não encontram seu espaço no cinema.


Talvez a real "oportunidade" que Mackey cita, a de contar suas próprias histórias, seja encontrada muito mais facilmente pelo roteiristas na televisão.


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