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Como ser seu próprio consultor de roteiro, com a diretora Ela Thier

Confira as 5 dicas que a cineasta compartilhou com o No Film School sobre como fortalecer a versão final do seu próprio roteiro

Ela Thier em "Tomorrow Ever After". Imagem: No Film School

Todos conhecemos aquela sensação incrível de alívio e satisfação ao finalizar um roteiro. Mas e agora? Como revisá-lo? Como deixá-lo ainda mais intrigante? Por onde começar a analisar os pontos fortes e os mais fracos?


Revisar um roteiro não precisa ser um processo estressante, cheio de insônia e angústia existencial. Ao invés de gastar muito dinheiro com consultorias caríssimas ou script doctors que prometem maravilhas por muita grana, existem algumas etapas específicas que você mesmo pode seguir para revisar seu próprio trabalho antes de levá-lo para um núcleo criativo, inscrever em laboratórios ou dividir com alguém de confiança.


Sabendo que cada processo é diferente, existem algumas reflexões e práticas que podem ajudar na hora de reescrever qualquer tipo de roteiro. Por isso, traduzimos e adaptamos o texto que a diretora, roteirista, produtora e professora Ela Thier escreveu para o No Film School, onde ela elabora 5 questões importantíssimas para qualquer processo de revisão e reescrita.


Leia a seguir!


1. Identifique o que você realmente adora no roteiro

Ela Thier em "Tomorrow Ever After". Imagem: No Film School

Faça uma lista completa do que você gosta em seu roteiro. Não pule esta etapa e não economize. Na minha experiência, é o aspecto mais importante do processo de revisão. Você não pode gostar de temperar uma sopa se você odiar a sopa.


O que você ama no seu roteiro? Pode ser algo muito geral ou super específico: 'gosto que mostra uma mulher sendo genial; Eu gosto que mostra um cara sendo vulnerável ao invés de machista; Gosto de uma personagem; Eu gosto que a página 40 me faz rir; Gosto dessa linha de diálogo quando ele pergunta a ela que horas são'.


Se você se perder nessa reflexão, pode sempre observar a excelente intenção por trás do roteiro: “Gosto do fato que tentei escrever um cara vulnerável” e seguir nisso.


Não vá pelo caminho de “Eu gosto da personagem de Mandy, mas os outros personagens são uma porcaria”. A crítica é um vício que torna o processo de revisão impossível. Apenas continue gostando de Mandy.


Muitos de nós cometem o erro de pensar que o processo de revisão trata apenas de consertar problemas. Uma boa reescrita geralmente envolve explorar por completo o que é ótimo em um roteiro. Você deseja encontrar os elementos que brilham e, em seguida, expandir esses elementos.


De volta à faculdade, quando escrevi um dos meus primeiros roteiros de longa-metragem e pedi ao meu namorado na época para lê-lo, tudo o que ele disse foi: “Gosto da relação entre Jake e Dora”. Em retrospecto, percebo o quão generoso ele foi. Era um roteiro mal escrito e ele deve ter ficado entediado de tanto ler. Mas sim, essa personagem muito secundária, Dora, era a parte mais interessante. Ela foi a personagem com a qual me identifiquei e foi a mais fácil de escrever.


Quando ele fez esse comentário, fiquei animada em me livrar de todo o resto naquele roteiro e escrevê-lo do zero, focando apenas em Jake e Dora. A escrita se tornou muito mais divertida e as coisas começaram a se encaixar. Acabei optando por esse roteiro e, quando foi vendido, paguei com ele os empréstimos da faculdade.


O que você adora em um roteiro é sua melhor orientação. Um problema comum do primeiro rascunho é não maximizar totalmente os aspectos mais divertidos e emocionantes dele.


2. Evite criar uma longa lista de problemas

Essa lista inútil de tudo que há de errado com seu roteiro não levará a um esboço melhor, mas sim a lugar algum. Realizar muitas críticas não é sinal de inteligência e gosto exigente, é sinal de um bloqueio criativo e não há nada de inteligente nisso.


A abordagem de lista de problemas é um exercício de futilidade porque a maioria dos problemas em um roteiro geralmente resulta de um único problema de abordagem, seja este qual for. O que interessa é o esforço de identificar aquele problema-chave que, quando resolvido, faz com que a maioria dos outros problemas menores desapareça.


O único momento em que a lista de problemas é solicitada é quando um roteiro está quase concluído e você está na fase de polimento. As sequências estão todas no lugar. Cada personagem, local e cena existe por uma razão. Você mal pode esperar para filmar essa história. Agora você pode ajustar os detalhes de acordo com seus desejos.


Quando se trata de realizar uma consultoria em seu próprio roteiro, tenho boas notícias: o que é ótimo em um roteiro varia de roteiro para roteiro. Mas o que não está funcionando é quase sempre o mesmo. Então, vamos ver qual é provavelmente o “problema principal” em seu trabalho, a seguir.


3. Faça sua personagem suar

Ela Thier em "Tomorrow Ever After". Imagem: No Film School

Em 95% dos roteiros que vejo que ainda não funcionam, o problema é a falta de conflito.


Quando digo conflito, não quero dizer que coisas ruins acontecem. Não me refiro a pessoas se odiando, discordando ou gritando umas com as outras. Por conflito, quero dizer que alguém quer algo, mas outra coisa está no caminho.


Se eu ando pela rua e um caminhão passa e respinga em mim, isso não é conflito. Isso é apenas uma coisa ruim que aconteceu. Se eu andar pela rua a caminho de uma entrevista para o emprego dos meus sonhos e um caminhão passar e respingar em mim: temos conflito. Eu tenho um objetivo e algo me atrapalhou.


Se eu tenho três filhos famintos e gastei até o último centavo na minha roupa para esta entrevista, um caminhão me respinga de lama, agora temos um filme!


O conflito nem precisa significar que algo ruim está acontecendo. Se meu namorado e eu estamos empolgados em passar minha noite de aniversário sozinhos e meu melhor amigo aparece sem avisar com 30 pessoas para a festa surpresa que eles estão planejando, temos conflito. Eu queria algo e um obstáculo está no meu caminho. Há conflito aqui, embora duas coisas totalmente incríveis estejam acontecendo.


Se uma cena em particular não estiver funcionando, ou o roteiro em geral não dê aquela vontade de virar a página, verifique se a narrativa está sofrendo uma falta de conflito. Alguém claramente quer algo? Eles estão tomando medidas para alcançá-lo? Eles querem muito? Há algo que você possa fazer para aumentar as apostas, de modo que eles tenham que agir e não demorem mais?


Gosto de pensar em meu personagem como o último tantinho de pasta de dente no tubo. Aperte-os para que eles tenham que sair. Talvez aquele meu namorado deixe o país na manhã seguinte, então eu tenho que fazer meu melhor amigo aquelas 30 pessoas irem embora, mesmo que fiquem com o coração partido.


Quanto mais seu personagem tiver de suar, mais engajado seu leitor e público ficarão.


4. Corrija um roteiro "de enredo"

"Homem-Aranha" (2002). Imagem: reprodução

O segundo problema mais comum na maioria dos roteiros é ser excessivamente complicado. Claro, o incidente incitante está na página certa e tudo mais, mas fica parecendo um negócio de ligar os pontinhos. Você pode corrigir esse problema concentrando-se no relacionamento principal da história.


As melhores partes da maioria dos filmes são seus relacionamentos essenciais. Se "Homem-Aranha" fosse sobre o Duende Verde, teríamos um videogame. "Homem-Aranha" é sobre Mary Jane. Os maiores filmes, que são mais espalhafatosos e mais cheios de ação, no fundo, tratam de um relacionamento.


Examine seu roteiro e descubra como o relacionamento-chave avançou a cada dez páginas ou mais. Você pode até mesmo criar um esboço que ignore o enredo e apenas traçar a progressão dessa relação chave. Exemplo:


Pág. 10 - Sam e Lisa se encontram quando ambos são trancados do lado de fora da lavanderia e suas roupas estão dentro. Eles se odeiam.

Pág. 20 - Eles estão presos tendo que trabalhar juntos. Eles vão engolir e lidar.

Pág. 30 - Lisa encobre Sam quando o chefe percebe um erro.

Pág. 40 - Sam revela seu grande segredo e Lisa agora entende porque ele trabalha lá.

Pág. 50 - Eles têm a oportunidade de se dividir e trabalhar separadamente, mas escolhem trabalhar juntos.

Pág. 60 - Sam descobre que Lisa está grávida de um ex-namorado e está com nojo dela.

Pág. 70 - Sam, mascarando sua dor no coração, deixa o emprego e eles se separam para sempre.

Pág. 80 - Sam implora que ela não faça um aborto e se oferece para ser pai com ela. Ou Sam descobre que Lisa é uma alienígena e torna-se protetor com ela. Ou o Duende Verde vem raptá-la... Você entendeu. Concentre-se no relacionamento.


Toda boa história é, em última análise, sobre um relacionamento. Se o relacionamento-chave continuar atingindo a mesma nota ao invés de evoluir, certifique-se de que ele evolua. Isso vai transformar um roteiro "de enredo" em uma história guiada pela personagem, o que geralmente contribui para um filme mais bem-sucedido.


Sua grande e importante decisão no final da história pode ser enorme ou pequena em escopo, mas sempre é enorme em significado.


5. Crie um final significativo

"Homem-Aranha". Imagem: reprodução

Quando um roteiro é bem escrito, intuitivamente percebemos o “problema” da sua personagem (ou o problema que ela enfrenta e que outra personagem encarna) no momento em que a conhecemos. Sabemos instintivamente que estamos prestes a assistir a um drama se desenrolar, no qual sua personagem muda.


Se elas têm medo de se comprometer, vamos vê-las se comprometer. Se evitam lutar, precisamos vê-las lutar. Não nos importa se ganham ou perdem. Não nos importa se ficarão com a pessoa com quem finalmente decidiram se comprometer, mas precisamos vê-las assumir esse compromisso.


Sua grande e importante decisão no final da história pode ser enorme ou pequena em escopo, mas sempre será enorme em significado.


Agora que escolheu lutar, a personagem poderá destruir uma cidade inteira para salvar alguém do monstro. Também pode ser tão simples quanto uma personagem pegar o telefone e finalmente ligar para sua mãe.


O que torna um final chamativo é o quão significativa é sua “Grande Decisão” no final da história.


Boa reescrita!

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