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Vai gravar um curta-metragem? Leia essas dicas antes

Atualizado: 24 de mar. de 2020

Como melhor aproveitar curtas-metragens para beneficiar a carreira artística de autores e roteiristas?

Whiplash
Whiplash. Imagem: reprodução

por Jessica Gonzatto


Quase todos os profissionais do audiovisual iniciam suas carreiras realizando curtas-metragens. Seja no roteiro, direção ou união dos dois (no caso de autorxs), o curta é um excelente produto para testar ideias, personagens, métodos e conceitos artísticos.


Geralmente, o curta pode ser uma porta de entrada para o mercado e também um produto de venda que reflete o perfil dos artistas da equipe. Temos aí exemplos como Paul Thomas Anderson, Leigh Whannell e Jennifer Kent para ilustrar certos caminhos desse universo.


Portanto, é legal quando enxergamos o curta como um produto mercadológico, mas também como uma ferramenta artística para se construir uma carreira sólida no audiovisual que realmente dê frutos e abra caminhos.


Mesmo numa época de fechamento de portas para o audiovisual nacional, o curta ainda encontra caminhos de produção por geralmente precisar de um orçamento menor e ser mais fácil de ser espalhado pelo mercado.


E ainda somando o atual contexto de quarentena em que nos encontramos, colocar as ideias narrativas em dia é uma ótima opção de atividade.


Por isso, trazemos algumas dicas que podem ajudar na hora de pensar, preparar e distribuir um curta-metragem independente. Acompanhe!


A questão do proof of concept

O Babadook
O Babadook. Imagem: reprodução

Primeiramente, é importante destacar que arte é individual (ainda bem!) e um curta-metragem pode ser feito de mil maneiras. Nosso intuito não é impor regras, mas sim oferecer perspectivas interessantes para a realização audiovisual.


Dito isso, existem algumas questões legais de se pensar na hora de conceber um curta ou logo após ter uma ideia narrativa mais clara.


A primeira questão é: sua história é realmente um curta-metragem ou teria fôlego para um longa?


Se a resposta for "daria um longa" ou "um longa, mas pensei em fazer um curta primeiro", você está no caminho do proof of concept (ou prova de conceito, em português).


Esse é um dos formatos de concepção mais interessantes para um curta-metragem, pois ele prepara um universo narrativo muito maior e experimenta com o conceito geral do filme. Isso significa explorar personagens, diálogos, decisões narrativas e até estruturas.


O proof of concept pode ser concretizado antes mesmo do roteiro de longa que habita o mesmo universo narrativo. Esse, por sinal, é um ótimo caminho para iniciantes.


"Boogie Nights" (1997), de Paul Thomas Anderson, foi baseado no seu documentário cômico "The Dirk Diggler Story", de 1988. Outro exemplo é "O Babadook" (2014), de Jennifer Kent, que foi baseado no curta de horror "Monster", gravado em 2005.


Kent descreve seu curta como um "bebê Babadook", o que prova que é um real predecessor conceitual dessa história.


O diretor sueco David F. Sandberg também conseguiu a atenção de Hollywood através de "Lights Out", curta de apenas três minutos postado no Vimeo que trouxe a oportunidade do longa homônimo de ser gravado anos depois.


Outro exemplo é o do diretor Destin Daniel Cretton (Luta por Justiça), que também percorreu esse caminho ao produzir "Short Term 12", curta-metragem que estreou no Festival de San Diego em 2008 e foi adaptado previamente, em 2013, para um longa homônimo.


Aqui no Brasil, podemos citar "Alguma Coisa Assim", proof of concept do longa homônimo realizado por Esmir Filho e Mariana Bastos. O curta testou o universo narrativo do roteiro diretamente, mas se sustentando também como uma história independente.

Enfim: temos muitos exemplos dessa noção bem interessante de curta-metragem.


Sabendo disso, existe um consenso atual de que o proof of concept é, quase sempre, um excerto de um roteiro de longa-metragem já escrito. Nesse caso, ele tem o intuito mercadológico mais claro de demonstrar o potencial do filme se utilizando de cenas ou sequências já escritas no roteiro maior.


Como já vimos, o proof of concept é muito utilizado no mercado hollywoodiano, possuindo alguns exemplares incríveis em que podemos nos inspirar. Um dos mais conhecidos é "Whiplash", que Damien Chazelle adaptou do seu roteiro de longa já escrito previamente.


No caso de Chazelle, ele já possuía uma visão bem concreta do que seria o longa - inclusive já incluindo no curta-metragem o ator J.K. Simmons, com quem viria a trabalhar no filme posterior.


Exibido no Festival de Cinema de Sundance de 2013, o curta-metragem de 18 minutos recebeu muita atenção e finalmente atraiu investidores para assinar e produzir a versão completa do roteiro, que teve orçamento de US$ 3,3 milhões.


O diretor, roteirista e ator Leigh Whannell (O Homem Invisível) também apostou no proof of concept para vender uma idéia de longa-metragem. Junto com o diretor James Wan, filmou o curta "Jogos Mortais" (Saw, 2003), um excerto de seu longa homônimo já escrito na

época mas ainda não financiado.


O produto acabou atraindo investimento da Lions Gate Films e iniciando uma antologia de 7 filmes.


Outros exemplos de sucesso incluem "Alive in Joburg", de Neill Blomkamp, que deu origem à "Distrito 9" (2009) e "Elysium"; e "The Customer is Always Right", curta que Robert Rodriguez produziu para realizar "Sin City" (2005).


De acordo com a Filmmaker Magazine, o proof of concept ainda ajuda:


"1) a garantir o orçamento do longa-metragem;

2) atrair um forte elenco; e

3) você a obter representação."


Nesse contexto, "o proof of concept faz parte de um pacote de desenvolvimento maior. Você precisa de algo rápido e com impacto que seja facilmente digerível e mostre sua estética como cineasta. Você não espera que alguém assista ao seu primeiro longa-metragem de 75 minutos".


Essa é uma questão importante nesse formato, pois a idéia de utilizar um curta-metragem como uma espécie de prévia narrativa pode acabar complicando a escrita e deixando-a muito longa. Cuidado!


Dicas para conceber um curta-metragem

Leigh Whannell e James Wan em "Saw"
Leigh Whannell e James Wan em "Saw". Imagem: reprodução

Seguem algumas dicas legais para você que quer escrever um curta ou está no caminho do proof of concept, tendo escolhido utilizar o formato do curta para testar e experimentar um universo narrativo maior:


1. Proof of concept? Pense numa estrutura enxuta


Pode parece desafiador, mas a abordagem mais eficiente de demonstrar um conceito narrativo é através de uma metáfora ou narrativa rápida.


Para isso, é necessário você identificar o coração da história, os temas ou a tese principal.


As personagens serão, idealmente, menos numerosas do que no longa-metragem, por questões de produção e também de condensação narrativa.


Afinal, o proof of concept deve demonstrar a potência narrativa do universo criado, dos personagens, diálogos e conceito geral. Que melhor maneira de demonstrar tudo isso sendo rápido e impactante?


2. Faça as perguntas certas


Na hora de conceber um curta ou proof of concept, você precisa se fazer as mesmas perguntas que faria em relação a qualquer outro roteiro.


Por exemplo, algumas podem ser: sobre o que é o filme? Existe algo a provar ou desmascarar? Quem é o tipo de pessoa que passaria por essa situação? Qual a descoberta, mudança fundamental ou curva de aprendizado que quero explorar?


Já quando se trata da estrutura, você também poderá pensar em uma ordem inicial de fatos.


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