• Louise Smith Gonzaga

Roteiro para YouTube: uma nova forma de entrar no mercado audiovisual

Qual o papel do roteirista de YouTube? Como entrar nesse ramo? Louise Smith Gonzaga, roteirista e criadora do @era.roteiristas, conta suas experiências

por Louise Smith Gonzaga


Nos últimos anos, o YouTube virou uma grande aliada para quem trabalha com audiovisual - inclusive, para quem trabalha na área de roteiro. Na plataforma, existem diversos canais, com conteúdos variados, e esses canais perceberam a necessidade de roteirizar antes de gravar.


Canais como Humor Multishow, Parafernalha, Porta dos Fundos, Telecine, Tudo Gostoso, entre muitos outros, tem seus próprios roteiristas e, cada vez mais, canais têm investido na contratação desses profissionais.


Inclusive, eu tive a oportunidade de trabalhar como roteirista freelancer de dois grandes canais do Youtube e vim compartilhar minha experiência com vocês.


Quem é Louise Smith Gonzaga

Acervo pessoal

Sou formada em Cinema pela UFF e pós-graduada em Roteiro para Cinema e Televisão na FAAP. Fui pra Nova Iorque, onde estudei roteiro na NYFA, tive um projeto selecionado e produzido no Festival Adaptação 2012, uma série selecionada no Lab Projetos de Séries do Rota Festival 2019, meu projeto “Versão Brasileira” foi selecionado no Doctoring Sessions do Serie_lab 2021, sou co-criadora do @era.roteiristas e sou roteirista freelancer para audiovisual e web, com foco em comédia e drama.


Em 2019, eu trabalhei como roteirista freelancer dos canais do YouTube Parafernalha e Telecine, tendo vídeos que, juntos, somam mais de 20 milhões de visualizações. Nessa experiência, eu entendi melhor o mercado audiovisual para internet, aprimorei minhas habilidades como roteirista e aprendi como funciona o formato de roteiro para YouTube, seja canal de Ficção ou Não-Ficção.


Semelhanças com o roteiro de ficção


Como eu trabalhei num canal de ficção/humor, muito da minha experiência como roteirista ajudou no processo. O formato é o formato padrão do mercado audiovisual, formato Master Scenes, e você escreve as esquetes como se fossem curtas-metragens de ficção.

Diferentemente do que aprendemos nos cursos e faculdades de roteiro/cinema, no roteiro de ficção para YouTube, principalmente de humor, você pode investir nas rubricas – que são as descrições que vêm abaixo do cabeçalho ou na própria ação da cena - dando dicas aos atores de como se portar, que gesto ou cara fazer, ou até mesmo dizer o que o personagem está sentindo/pensando.


Isso facilita a compreensão do ator (da atriz) no timing e entonação da piada e ele(a) vai trabalhar sua interpretação em cima dessas dicas.


Mas, claro, essas rubricas precisam ser bem pensadas, pois a intenção é facilitar a compreensão do(a) Diretor(a) e Ator(atriz), mas sem atrapalhar o processo criativo. Então, busque equilibrar as inserções de rubricas.


Como são decididas as pautas?


Todo semana, o grupo criativo do Parafernalha fazia uma reunião pra levantar ideias e possíveis conteúdos para o canal; analisava vídeos lançados - entendendo o que deu certo e o que pode melhorar; recapitulava quem é o público-alvo do canal e o que ele quer consumir.


Assim, cada roteirista ficava encarregada de algum(s) tema(s) específico(s) e escrevíamos esquetes em cima das pautas das reuniões.


Claro, se o roteirista tivesse alguma outra ideia de roteiro, ele podia escrever e depois passar pra equipe pra decidirem se o roteiro se encaixava com o canal ou não.


A relação com o público-alvo

Parafernalha
Elenco 'Parafernalha'. Imagem: reprodução

Como o canal que eu trabalhei - Parafernalha – é grande, com mais de 12 milhões de seguidores, foi importante fazer uma pesquisa do público-alvo do canal e entender o que eles buscam consumir. Eu já conhecia muitos vídeos do canal, mas pesquisei o conteúdo mais recente e entendi que o público fiel era majoritariamente jovem e adolescente, além do público raíz, que acompanha o canal desde sua criação.


Então, foi necessário compreender como me comunicar com esse público, que tipo de humor eles estavam acostumados e trabalhar em cima disso.


Ainda, por ser um público jovem e ativo nas redes sociais, a resposta do público para os conteúdos lançados era bem rápida. Isso foi algo novo pra mim, visto que no mercado de filmes e séries os projetos levam mais tempo para serem feitos e para se obter uma resposta do público, enquanto no YouTube é questão de semanas ou meses.


Essa resposta vinha nos comentários dos vídeos e as pessoas diziam o que gostaram e o que não gostaram, às vezes, criticando a história, outras aclamando. O roteirista precisa ficar atento a isso para entender que conteúdo dá certo e que conteúdo não dá certo no canal. E, claro, não levar as críticas para o lado pessoal.


Por exemplo, eu levei como pauta criar vídeos de humor sobre signos. Era um assunto popular e que estava viralizando e, como eu adoro signos, achei válido arriscar nessa ideia. Meu chefe achou a ideia legal e, juntos, pensamos em como trazer esse assunto para o canal.

Já que nosso público era jovem, podendo ainda ser estudante, lembramos que a prova do Enem estava chegando e tivemos a ideia de fazer um vídeo sobre “Signos no Enem”.


Na hora de lançar, pensamos em acompanhar as datas do Enem e dividimos o vídeo em Parte 1 – com os 6 primeiros signos, e Parte 2 – com os outros 6 signos.


Na nossa ideia, o público ficaria curioso e aguardaria o próximo vídeo, mas, na prática, foi diferente. Algumas pessoas ficaram chateadas que não tinha o signo deles no vídeo e outras não queriam esperar pra ver tudo de uma vez.


Então, quando a Parte 2 do vídeo foi lançada, o número de visualizações diminuiu bastante, pois já tinha perdido do timing da esquete.


Signos no Enem – parte 1 (2,8 milhões de views):


Signos no Enem – parte 2 (1,5 milhões de views):


Como teve uma identificação grande com o tema, várias pessoas comentando e curtindo falar sobre seu signo, resolvi insistir no tema. Dessa vez, foi decidido que faríamos uma versão só, ou seja, lançamos de uma só vez uma esquete com os 12 signos.


O vídeo ficou um pouco maior, mas teve muito mais engajamento e visualizações. Todo mundo tinha como comentar sobre o seu signo e se identificar de alguma forma, sem precisar esperar uma semana pra ver a outra parte.


Signos na Escola (7,2 milhões de views):


Esses exemplos são bons para entendermos que o grande desafio que o roteirista e a parte criativa enfrenta com criações para rede sociais é a resposta imediata do público.


Quando a resposta é positiva, é festa total, mas quando não é tão positiva assim, é preciso lidar com a frustração e saber como contornar essa situação, evitando o mesmo assunto nos próximos vídeos ou mudar a forma de apresentação do conteúdo. No caso, depois que adaptamos o modelo, o vídeo deu muito certo.


E quando o roteiro é de não-ficção?


O formato de roteiro para não-ficção segue formatos conhecidos do mercado audiovisual que são: o formato de Escaleta e da Descupagem de filme.


Na escaleta, o roteirista descreve as cenas e assuntos em tópicos, mas o conteúdo fica por conta do(a) apresentador(a). Nesse modelo, os roteiros ficam entre 2-5 páginas, mas a minutagem do vídeo vai variar de acordo com o que o(a) apresentador(a) falar.


Roteiro sample criado por Louise Smith Gonzaga

No vídeo abaixo, você pode ver como é feita a filmagem a partir de um roteiro no formato de Escaleta. Eu escrevi curiosidades sobre "Frozen 2 - O Reino do Gelo" em forma de tópicos e, antes do filme ser lançado, as apresentadoras aprofundaram e comentaram sobre as curiosidades do filme.


FROZEN 2: TUDO O QUE SABEMOS:


No roteiro em formato de decupagem, o roteiro é feito como a decupagem de filmagem. Logo, ele é feito em duas lacunas, onde de um lado o roteirista descreve a imagem ou cena que será visto e, do outro lado, o que será dito/abordado.

Roteiro em formato de Decupagem, modelo encontrado do Google.

Esse modelo é mais comum em canais que tem muitas mudanças de imagem, inserts, imagens de arquivo, em que é preciso saber o tempo certo para cada inserção e o que será dito na hora.


Acredito que cada canal cria seu próprio formato de roteiro e, quando você vai trabalhar lá, talvez já tenha um modelo a seguir.


No caso de você ser contratado para ajudar na criação de um novo canal, faça uma pesquisa do público-alvo, entenda como dialogar com ele e crie um formato padrão para os vídeos do canal. Isso será uma boa oportunidade de você, como roteirista, criar diferentes formatos e linguagens.


Dicas para entrar no mercado de roteiro para YouTube


Hoje em dia, é possível encontrar vagas de roteirista para canais do YouTube no LinkedIn e em outras redes de trabalho. Então, é importante você manter suas redes de trabalho atualizadas, dizendo seus estudos em roteiro e audiovisual, suas experiências na área e seus objetivos.


Caso você consiga uma entrevista com o(a) recrutador(a), é legal você pesquisar sobre o canal, entender o conteúdo deles, criar um roteiro sample pra mostrar que você está interessado(a) na vaga e que entende o conteúdo deles.


Também, é possível você mesmo, em parceria como amigos do audiovisual, criar seu próprio canal e investir como portfólio. Todo investimento é válido.


Saiba mais: parceria Era.roteiristas & Roteiros e Narrativas


Caso você queira saber ainda mais sobre a profissão de roteirista para YouTube, assista ao vídeo “ROTEIRO PARA YOUTUBE”, em que eu converso com a Gaby do Roteiros e Narrativas, contando toda minha experiência no Parafernalha e Telecine, dando dicas e explicando melhor o mercado:


Leia também a entrevista com o Writer's Room 51 sobre o 3º LAB 51!


Mais conteúdo


Se você se interessa pelo universo de roteiro, seja para Youtube e mídias sociais, televisão, cinema e streaming, siga as redes sociais do @era.roteiristas, onde eu e roteiristas parceiros postamos dicas e compartilhamos aprendizados da profissão.



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