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Roteiro de documentário: por onde começar?

Abordamos o assunto através do case “Cidades Fantasmas”, filme documental vencedor do Festival É Tudo Verdade

Imagem: Shutterstock

Quando o assunto é “roteiro de documentário”, às vezes mais dúvidas do que certezas acabam surgindo. Como estruturar? Como “prever” acontecimentos? O que vai em um roteiro de documentário? Roteiro de documentário fica 100% na montagem?


O roteiro de documentário de fato divide opiniões e depende muito da proposta, formato e linguagem empregadas. Considerando esse terreno cinza e cheio de divergências, vamos utilizar um caso específico para apresentar uma forma prática de pensar o assunto.


Através do processo de desenvolvimento do filme documental “Cidades Fantasmas” (2017) vamos entender melhor uma das diversas formas de construir uma narrativa em documentário onde o roteiro tem um papel central.


Trailer de "Cidades Fantasmas":

Assista ao filme completo aqui.


Um pouco sobre o projeto “Cidades Fantasmas”

"Cidades Fantasmas", registro de Epecuén - Imagem: Globo Filmes

“Cidades Fantasmas” (direção de Tyrell Spencer, roteiro de Carolina Silvestrin e Guilherme Soares Zanella) é um longa-metragem documental e série desenvolvidos pela Casa de Cinema de Porto Alegre em parceria com GloboNews, Globo Filmes, Canal Brasil e Galo de Briga Filmes.


Além de estreia em cinemas pelo Brasil, o filme foi vencedor do principal prêmio no Festival É Tudo Verdade (2017), o maior festival dedicado a documentários da América Latina e um dos mais relevantes do mundo.


Na TV, “Cidades Fantasmas” foi exibido na GloboNews, mas também no Canal Brasil no formato seriado, com 8 episódios explorando outras localidades que não foram abordadas no longa.


Diretor Tyrell Spencer recebendo o prêmio de Melhor Filme no Festival É Tudo Verdade - Imagem: divulgação/É Tudo Verdade

A sinopse é simples, capaz de apresentar rapidamente a unidade proposta pelo tema: através de um olhar contemplativo, o filme explora diferentes cidades fantasmas espalhadas pela América Latina, suas histórias de descaso e devastação e as pessoas que ali resistem.


Entre pesquisas de campo e gravações, nossa equipe visitou diversas localidades pela América Latina antes de chegar nas cidades principais: Fordlândia (Brasil), Humberstone (Chile), Epecuén (Argentina) e Armero (Colômbia).


Para entender como trabalhamos o roteiro deste projeto, vamos apresentar as principais etapas que envolveram o seu desenvolvimento inicial.


O conceito e o ponto de vista


"Cidades Fantasmas" - Imagem: Globo Filmes

Antes de mais nada, foi preciso estabelecer o conceito e o ponto de vista que gostaríamos de tratar. Sem esses dois pilares seria impossível desenvolver qualquer pesquisa, uma vez que ela deve ser pautada por um direcionamento temático e conceitual.


Quando tratamos de cidades fantasmas parece que o ponto de vista e conceito são óbvios, mas não é bem assim. Qual o ponto de vista que abordamos? Desastres naturais, rupturas econômicas, laços afetivos com a terra, enfim… São inúmeras as formas de tratar o mesmo tema.


Para encontrar a nossa, procuramos um ponto em comum entre todas as cidades, mas que também trouxesse uma mensagem atual e urgente. Entre eventos da natureza e desastres econômicos, o que há em comum entre cada uma dessas cidades abandonadas?


A resposta é: a negligência das autoridades. A negligência que levou as autoridades colombianas a não alertar os moradores de Armero sobre a erupção do vulcão que acabaria definitivamente com a cidade, a negligência que deixou os trabalhadores das minas de Humberstone sem dinheiro depois da falência da Companhia, a negligência da Ford ao explorar as terras brasileiras sem um planejamento adequado, etc.


Independente das causas para o abandono de cada cidade, todas elas estavam direta ou indiretamente relacionadas à corrupção e exploração das autoridades locais. A partir daí, nossa pesquisa e desenvolvimento já estaria pautado por esse direcionamento conceitual e de ponto de vista.


As primeiras pesquisas e as linhas do tempo


"Cidades Fantasmas", Fordlândia - Imagem: divulgação/É Tudo Verdade

Nossa equipe então se dividiu para desenvolver as primeiras pesquisas, com intuito de entender se existia, de fato, um filme ali (e uma série também). Precisávamos encontrar uma linha dramática e não apenas um tema interessante costurado por histórias desconexas.


Fomos atrás de cidades fantasmas com aspectos curiosos e distintos entre si, organizando os fatos seguindo uma estrutura unificadora. Colocamos os eventos históricos em ordem cronológica, primeiro em linhas do tempo para entendermos, de forma geral, que tipo de narrativa tínhamos ali.


Só assim, em um modelo bem colaborativo, apresentamos para a equipe de criação as cidades para escolhermos as mais relevantes e que também traziam uma variedade maior de pontos a serem explorados. Afinal, as cidades não podiam apenas repetir os mesmos pontos, mas trazer um outro lado do mesmo tema.


Cada cidade deveria trazer a sua própria unidade dramática. Qual foi o ponto central de sua ruptura? No caso de Armero, as tentativas de sobrevivência em meio ao lodo da erupção do vulcão e o desaparecimento das criança formavam claramente o ponto central do drama.


Fordlândia, por outro lado, trazia um poderoso relato sobre exploração. Uma mega empresa norte-americana (Ford) adquire indevidamente milhares de hectares no coração da Amazônia, alterando completamente a cultura local - do plantio de seringueira ao modo de viver.


Descobrir a narrativa que gostaríamos de extrair de cada cidade auxiliou bastante no próximo ponto: encontrar personagens para construir essa história. Esses personagens, então, estariam pautados pela narrativa que já estávamos construindo.


A busca pelos personagens