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Saiba escolher falhas mais interessantes para suas personagens

Trazemos dicas inspiradoras e uma lista robusta para você pensar em defeitos narrativos mais objetivos

Fargo
"Fargo", 2014. Imagem: FX

Tanto na vida real, como na ficção, ninguém é perfeito – e é isso que deixa os conflitos narrativos muito mais potentes e interessantes!


Porém, muitas vezes, pode ser difícil conceder defeitos que dão um arco aos personagens ou implicam em um arquétipo, etc. Mas tais falhas não só enriquecem a história trazendo motivações mais profundas como podem influenciar diretamente na trama principal.


Não se trata de escolher três falhas aleatórias e seguir o baile. Trata-se de construir personagens humanas, complexas e que atraem o olhar do público, carregando adiante um tema a ser explorado.


Para ajudar nessa construção, trazemos conceitos de falha de caráter, os diferentes tipos que existem e muito mais! Traduzimos e adaptamos o texto do Reedsy e complementamos com informações presentes no nosso ebook "A Personagem Além das Fórmulas", que você pode conhecer melhor clicando aqui.


Acompanhe!


O que é uma falha narrativa?


Uma falha de caráter de uma personagem é uma qualidade negativa que afeta ela mesma ou a outros de maneira nociva. O grau desse efeito varia muito, com base na própria falha, no núcleo social da personagem e do poder que ela tem sobre outras. Uma personagem prolixa pode ser desagradável de se conversar, mas certamente seria muito mais agradável do que uma personagem que deseja matar alguém.


No entanto, “tagarela” e “homicida” se enquadram igualmente no espectro de falhas de caráter. Entre essas duas características existe um vasto oceano de coisas infelizes que a personagem pode ser: teimosa, irritante, egoísta, agressiva, obsessiva ou simplesmente ingênua, por exemplo.

"Bom Dia, Verônica"
"Bom Dia, Verônica". Imagem: Netflix

Cada uma das falhas tem certas consequências esperadas - mas a beleza é que cada característica pode se apresentar de maneira diferente em diferentes personagens, dependendo das circunstâncias e papel narrativo das mesmas.


Em termos estruturais, a falha pode ser o aspecto central da "necessidade" que a personagem precisa transformar. Uma pessoa arrogante pode precisar passar por um arco de transformação e tornar-se humilde. Já uma pessoa preconceituosa pode precisar aprender a ser respeitosa, e assim por diante.


Diferentes arcos de transformação

Gosto de personagens que não mudam, que não aprendem com seus erros. – David Fincher

Assim como o cineasta David Fincher pontua, não é obrigatório que a personagem mude no fim da história (seja protagonista, antagonista ou o que for). Ou seja, como é bem comum a anti heróis e personagens de sitcoms, por exemplo, a falha de caráter pode permanecer e o que acompanhamos na narrativa tem relação a outra coisa.

Amy Dunne em "Garota Exemplar".
Amy Dunne em "Garota Exemplar". Imagem: reprodução

Uma personagem clássica de um filme que tem a transformação (ou aprendizado) como parte da estrutura (como na Jornada do Herói) pode ver a sua falha sendo testada ao longo do segundo ato do filme, que a leva a passar por uma grande transformação interna. Mais do que conquistar seu desejo primário, a personagem vai reavaliar suas ações e crenças para corrigir erros que poderiam custar relações duradouras (necessidade). Falamos bastante sobre isso em nosso ebook.


Já uma personagem de série, por exemplo, pode ter uma teia de falhas que compõe seu caráter; e nós apenas examinamos essas características e seus efeitos. Ela pode mudar certos aspectos, mas seu núcleo nunca mudará. Isso pode ser inclusive o motor narrativo da série, como é o exemplo de "Mad Men" (2007).


Tipos e graus de falhas de caráter

Fargo
Lester em "Fargo". Imagem: reprodução

A sua protagonista não necessariamente terá apenas uma falha, apenas um desejo e apenas uma necessidade. Muitas vezes, inclusive, esse leque de elementos enriquece uma obra ao mesmo tempo em que constrói uma curva dramática oculta que vai se revelando aos poucos.


A autora Jill Chamberlain assume essa posição em seu livro “The Nutshell Technique”, onde deixa claro que nem sempre a falha central mais emblemática ou o desejo mais forte são aqueles que guiam, como instrumentos, a trama. É preciso estabelecer um desejo e uma falha para esse propósito, o que não exclui os demais.


Assim, podemos dizer que existem três tipos de falhas de caráter: menores, maiores e trágicas.


Uma falha menor é algo que tem um impacto mínimo na vida de uma personagem.


Uma grande falha as afeta de forma mais significativa.


Já uma falha trágica causa a queda fatal dessa personagem – embora nem sempre a morte literal, pois essa queda de status pode ser uma morte moral, morte de um relacionamento, etc. Está diretamente relacionada à estrutura clássica da tragédia aristotélica.

Macbeth
"Macbeth", 2015. Imagem: Instituto Ling

Como seria de esperar, pequenas falhas são tipicamente coisas como falta de higiene e esquecimento. As principais falhas tendem a ser mais próximas de algo como hipocrisia e inveja. Uma falha trágica seria algo como psicopatia ativa, auto sabotagem ilimitada ou extrema arrogância.


No entanto, observe que o resultado de uma falha depende de como você constrói a relação da personagem com ela! O que funciona como uma falha menor para uma pessoa pode ser uma falha trágica para outra. Por exemplo, em "Adoráveis Mulheres", a vaidade de Amy é um aspecto pequeno e divertido de sua personagem; e algo que ela supera. Já para a personagem mitológica Narciso, por outro lado, a vaidade é trágica.


Arquétipos específicos também lidam com falhas de maneira mais acentuada, como vilões, anti heróis e antagonistas no geral.


Além de tudo, lembre-se que algumas das histórias mais interessantes resultam da subversão de expectativas que temos sobre como uma determinada falha se desenrolará. Precisa de ideias de falhas de personagens para usar em sua história? Confira os exemplos abaixo!



Lista de falhas de caráter para você se inspirar

Amy march
Amy March em "Adoráveis Mulheres". Imagem: reprodução

Falhas cosméticas ou menos prejudiciais


A maioria desses defeitos de caráter é mais irritante do que prejudicial. Outros até têm o potencial de causar danos, mas precisam evoluir para chegar nesse ponto. Um bom exemplo disso é a 1ª temporada da série "Fargo".


  • Inadequado – socialmente inquieto e desconfortável (não sabe se comportar confortavelmente em situações sociais).

  • Chato – monótono, tedioso, desinteressante (não confundir com uma personagem flat, que ainda não se desenvolveu o suficiente). Exemplo: Mary Bennet em "Orgulho e Preconceito".

  • Infantil – imaturo ou inocente. Exemplo: Peter Pan.

  • Desajeitado – descoordenado e atrapalhado; muitas vezes sujeito a acidentes.

  • Tolo – falta de bom senso pessoal.

  • Fofoqueiro – inclinado a espalhar boatos ou falar sobre os outros pelas costas em demasia.

  • Manipulável – facilmente enganado ou persuadido a acreditar em algo.

  • Sem senso de humor.

  • Preguiçoso – sem vontade de trabalhar ou agir em relação a algo narrativamente importante.

  • Excessivamente submisso. Exemplo: Lester Nygaard na série "Fargo".

  • Orgulhoso – ter uma opinião elevada de si mesmo e raramente admitir estar errado. Exemplo: Sr. Darcy em "Orgulho e Preconceito".

  • Superficial – tendo poucos pensamentos profundos e preocupando-se apenas com coisas insignificantes. Exemplo: Daisy Buchanan em "O Grande Gatsby".

  • Mimado – malcriado e egocêntrico como resultado do excesso de indulgência.

  • Teimoso – obstinado e teimoso; recusando-se a desistir e causando confusões para si. Exemplo: Verônica em "Bom Dia, Verônica".

  • Vaidoso – preocupado demais com a aparência física em detrimento a outras coisas. Exemplo: Amy March em "Adoráveis ​​Mulheres".


Falhas maiores ou de jornada

Omar Little em "The Wire"
Omar Little em "The Wire". Imagem: reprodução

Essas devem ser levadas mais a sério: elas podem impactar fortemente a vida de uma personagem, bem como a vida daquelas ao seu redor. Além disso, são características como essas abaixo que devemos buscar quando construindo uma narrativa clássica de transformação, já que são defeitos mais expressivos e que podem ser liquidados durante a narrativa.


Do adultério à ganância e à pura ignorância, se você escolher uma dessas falhas para sua personagem, certifique-se de considerar cuidadosamente como isso moldará sua história e se essa jornada terminará com elas superando suas limitações ou não.


  • Adúltero – trai o parceiro ou cônjuge.

  • Apático – pouco interesse ou entusiasmo pela vida. Exemplo: O narrador em "Clube da Luta".

  • Arrogante – exageradamente presunçoso. Exemplo: Draco Malfoy na franquia "Harry Potter".

  • Hostil – agressivo mesmo quando não provocado.

  • Amargo – ressentido e desagradável por causa de uma experiência passada.

  • Covarde – falta de coragem para defender o que ou quem precisa.

  • Desonesto – mentir ou se comportar de maneira enganosa, geralmente para tirar vantagem dos outros.

  • Invejoso – quer possuir o que o outro tem (pode ser um objeto físico ou um traço de caráter).

  • Ganancioso – sempre deseja mais (riqueza, atenção, etc.), mesmo em seu próprio detrimento.

  • Hedonista – entrega-se completamente à busca do prazer. Exemplo: Dorian Gray em "O Retrato de Dorian Gray".

  • Hipócrita – age em oposição às próprias crenças ou proclamações sobre os outros, normalmente porque acredita que estão “acima” deles.

  • Ignorante – possui pouco conhecimento prático ou consciência do mundo. Exemplo: Effie Trinket em "Jogos Vorazes".

  • Incompetente – incapaz de realizar tarefas narrativas básicas. Exemplo: Sr. Poe em "Desventuras em Série".

  • Sem consideração – pouco se importa com os sentimentos dos outros. Exemplo: Sherlock Holmes.

  • Possessivo – superprotetor e controlador.

  • Rígido – é totalmente inflexível em seus princípios, mesmo quando apresentado a motivos para mudar.

  • Egoísta – preocupa-se exclusivamente com as próprias necessidades e desejos.

  • Fora da Lei – por necessidade ou gosto. Exemplo: Omar Little em "The Wire".

  • Rancoroso – amargo e malicioso. Exemplo: Severus Snape na franquia "Harry Potter".


Falha graves ou trágicas

succession
Logan Roy em "Succession". Imagem: The New Yorker

Estas você verá com mais frequência em antagonistas ou vilões declarados: crueldade, traição, total falta de remorso e assim por diante.


Embora seja certamente fascinante pensar em como essas falhas profundas podem ser efetivamente equilibradas com outras características, tome cuidado para não exagerar (a não ser que esse seja seu objetivo, como em "Psicopata Americano").


  • Abusivo – crueldade ou violência habitual e extrema em algum tipo de relacionamento.

  • Intolerante ou preconceituoso – abrigar preconceitos ferozes e inamovíveis sobre um determinado grupo social.

  • Cruel – intencionalmente causa dor e sofrimento aos outros.

  • Sádico – prazer em infligir dor ou humilhação aos outros. É um passo adiante de alguém cruel, pois emprega um composto psicopatológico mais forte.

  • Desleal – deixa de permanecer fiel à pessoa/entidade a quem jurou lealdade.

  • Fanático – extremamente obcecado ao ponto da ilusão. Exemplo: Annie Wilkes em "Misery".

  • Maquiavélico – astuto, manipulador e sem escrúpulos em seus esquemas. Exemplo: Tom Ripley em "O Talentoso Sr. Ripley".

  • Manipulador – conivente e controlador dos outros para conseguir o que quer. Exemplo: Amy Dunne em "Garota Exemplar".

  • Assassino – que concretiza o desejo de matar. Exemplo: Hannibal Lecter em "O Silêncio dos Inocentes".

  • Negligente – deixa de dar o devido cuidado ou atenção a alguém ou algo.

  • Obsessivo – tão consumido por um único assunto que não consegue funcionar normalmente.

  • Opressivo – brutalmente autoritário em relação a um grupo de pessoas considerado “inferior”. Exemplo: Os Comandantes de Gilead em "The Handmaid's Tale".

  • Paranóico – incomumente desconfiado, desconfiado ou nervoso de que algo ruim possa acontecer com ele.

  • Sem remorso – não sente vergonha, arrependimento ou simpatia quando faz algo errado.

  • Autodestrutivo – age de forma a destruir a própria saúde e/ou felicidade.

  • Traiçoeiro – profundamente desleal e traidor, geralmente para ganho pessoal. Exemplo: Logan Roy em "Succession".

  • Violento – fisicamente prejudicial para os outros. Exemplo: Patrick Bateman em "Psicopata Americano".


Conclusão


Afinal, o que queremos dizer com "falhas mais interessantes"? O que for mais valioso e intrigante para contar sua história.


Um exemplo: você escolheu o tema "família disfuncional" para sua narrativa. Nem todas as personagens vão precisar ter defeitos horríveis e extremos, mas, idealmente, todas terão falhas que se relacionam com o tema em algum nível. O que quer dizer uma "mãe negligente" na sua história? Ou então, uma "mãe possessiva"? Essas duas características têm implicações diferentes. Qual arco essa personagem terá? Ela vai mudar ou não? Qual aspecto do discurso "família disfuncional" ela vai representar?


Essas são questões fundamentais de se pensar a fim de construir personagens mais originais e complexas.


Quer construir protagonistas e outras personagens que sejam únicas, interessantes e comuniquem bem o seu tema? No nosso ebook, são discutidas as diferentes esferas das personagens (interior, social e pública), bem como articulação de falha & força, arquétipos, diferentes arcos, estruturas e mais. Conheça:


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