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'Doutor Gama': escrevendo biografia com Luiz Antônio

Atualizado: Ago 16

O roteirista nos conta sobre o processo de escrita, pesquisa e produção da biopic "Doutor Gama" (2021)

"Doutor Gama". Imagem: Omelete
"Doutor Gama". Imagem: Omelete

No dia 05 de agosto de 2021 chegou às salas de cinema o filme biográfico "Doutor Gama", com roteiro de Luiz Antônio, direção de Jeferson De e coprodução da Globo Filmes e Paranoid, além da produção associada da Buda Filmes.


Inspirado na vida do advogado abolicionista Luiz Gonzaga Pinto da Gama, uma das figuras mais importantes da história brasileira, "Doutor Gama" apresenta uma personagem forte em sua jornada em busca de liberdade e conhecimento. Graças a todo o seu desenvolvimento intelectual, Luiz Gama utilizou as leis e os tribunais para libertar mais de 500 pessoas escravizadas, se tornando um dos mais respeitados advogados de sua época.


Por trás dessa história inspiradora, entre tantos outros profissionais, está o roteirista Luiz Antônio, que por anos se dedicou a destrinchar a vida de Luiz Gama entre diversas páginas de roteiro. Conversamos com Luiz Antônio para entender, em detalhes, o histórico do projeto, sua importância e desafios, além de refletir sobre a feitura de um roteiro biográfico.


Se interessou pelo filme? Confira o trailer a seguir:


Da ideia às telas de cinema


"É um projeto pessoal (ou pelo menos se inicia assim)", afirma Luiz Antônio, destacando que o desenvolvimento do projeto surgiu em um momento em que o roteirista se dedicava a dar aulas e pesquisar o apagamento de locais e personagens negros na cidade de São Paulo.


Segundo Antônio, o autor já acumulava uma extensa pesquisa sobre a vida da população negra nas Américas entre o século XIX e o começo do século XX.


"Quando Luiz Gama chegou a mim, fiquei fascinado e quis me aprofundar. Mesmo com o esforço incansável e brilhante trabalho acadêmico da Professora Ligia, e de reivindicações de setores do Movimento Negro, Luiz Gama não era nome popular em 2010", reflete Antônio, deixando claro que foram onze anos desde o roteiro escrito até o filme ganhar as telas. "Tempo de muito trabalho, principalmente para a viabilização", completa.

César Mello e Romeu Evaristo em "Doutor Gama". Imagem: Miguel Ângelo Ferreira Junior
César Mello e Romeu Evaristo em "Doutor Gama". Imagem: Miguel Ângelo Ferreira Junior
"Nos primeiros quatro anos, um processo quase solitário, a não ser por poucas pessoas que me incentivavam, quase todas de fora do cinema. Pouquíssimos queriam ler (menos ainda pensar produzir) a história com protagonista negro e seu entorno também negro, esse homem preto que se assume como tal, altivo e se fazendo respeitar, íntegro, sagaz, dono de sua própria voz, atuando como intelectual profundo". - Luiz Antônio

Heitor Dhalia, da Paranoid, é citado por Antônio como um dos profissionais que imediatamente compreenderam o valor da história de Luiz Gama para o cinema, além da importância de montar uma equipe talentosa, competente e engajada com a mensagem que o filme se propõe a passar.


"Começa-se a montar essa equipe negra. Ele [Dhalia] foi fundamental para o encontro do roteiro com o diretor, Jeferson De, que eu conhecia pelas obras 'Bróder' e 'Carolina'", comenta Luiz Antônio. Outra figura importante que batalhou pelo filme, segundo Antônio, foi Pedro Betti, também da Paranoid, que divide a produção com Heitor Dhalia, Egisto Betti e Manoel Rangel. Joelma Gonzaga também teve peso importante no roteiro.


Se o roteiro de "Doutor Gama" encontra um fascinante ponto entre a representação história e a poesia, esse quadro é extremamente valorizado pelo belíssimo trabalho de direção de Jeferson De. Entre diálogos precisos, podemos desfrutar também de paisagens muito bem enquadradas e uma reconstrução histórica de digna de grandes produções.

Samira Carvalho e Zezé Motta em "Doutor Gama".
Samira Carvalho e Zezé Motta em "Doutor Gama". Imagem: reprodução
"Essa força coletiva fez o filme acontecer, cada pessoa trazendo conhecimentos e talento. E se é mais que um projeto pessoal, é porque faz parte de uma luta coletiva de gente que abriu caminho na sociedade e no mundo das artes, por décadas, para um filme como esse existir". - Luiz Antônio

Luiz Antônio destaca a importância de contar com um elenco de primeira para dar vida a suas personagens multifacetadas. Entre as estrelas do filme, estão Mariana Nunes, César Mello, Sidney Santiago, Samira Carvalho, Romeu Evaristo, Teka Romualdo, Johnny Massaro, Erom Cordeiro, Dani Ornellas, Alan Rocha, Higor Campanaro, Isabel Zuaá e tantos outros profissionais.


As responsabilidades e desafios do roteiro biográfico


Para Antônio, "Doutor Gama" nunca foi apenas um projeto. O roteirista reflete sobre o que o move na hora de escrever suas obras:


"Uma vez, escutei: 'se for escrever um roteiro por conta própria, projeto pessoal, que seja um filme pelo qual você ficaria a noite toda acordado esperando a estreia, um que você gostaria de ser o primeiro a ver. Porque você vai passar por tanta coisa com esse roteiro, que só assim vai valer a pena.' É um roteiro que busca excelência técnica e de linguagem, entreter e emocionar, mas é muito mais". - Luiz Antônio
Angelo Fernandes e Teka Romualdo em "Doutor Gama".
Angelo Fernandes e Teka Romualdo em "Doutor Gama". Imagem: reprodução

Antônio deixa claro a importância do trabalho "de mostrar que não tivemos escravos como vemos usualmente nas telas, mas sim pessoas escravizadas, algumas brilhantes". A mente brilhante de Luiz Gama é muito bem destacada pelo roteiro, que nos apresenta sua personagem protagonista justamente através da sua busca pelo conhecimento que liberará não só a si, mas a muitas pessoas.


Para Antônio, outra função da obra é também mostrar que certas pessoas que praticavam esses crimes, convivendo normalmente com a escravidão, "não eram necessariamente vilãs de filmes e novelas". "O audiovisual reflete o racismo do Brasil. Quantos Luiz Gamas o Brasil e o mundo perdem por dia?", indaga Luiz Antônio.


Segundo o roteirista, "escrever uma biografia para a tela não é tão diferente de uma criação livre". Afinal, trabalha-se regras de drama e estruturas universais. Para ele, é preciso "entender com intimidade como funciona o tempo e espaço da história que vai contar, conhecer bem seus personagens e criar relações entre eles, ter protagonista bem definido com objetivos e motivações, entender os desafios que atrapalham ele nessa busca. Saber quem é o antagonista, como ele age", resume.


Apesar disso, Antônio afirma que não podemos cair na falsa impressão de que, por ser baseada em fatos reais, a biografia já "conta com um argumento pronto".


Os fatos devem ser respeitados ao máximo e as intenções dos personagens históricos mais ainda, mas o recorte que o autor dá pode criar diferentes roteiros, que levarão a diferentes experiências dramáticas e, consequentemente, distintas histórias humanas. Essa mesma história de "Doutor Gama", sendo protagonizada por Claudina, sua esposa, resultaria em outro roteiro, outro filme, mesmo seguindo o mesmo tempo histórico e os mesmos fatos". - Luiz Antônio
César Mello em "Doutro Gama". Imagem: Pedro Iglesias Amaral
César Mello em "Doutro Gama". Imagem: Pedro Iglesias Amaral

É impossível resumir a pluralidade de toda uma vida em poucas horas de filme.


Naturalmente, como parte do processo, Antônio revela que precisou fundir figuras histórias "e até mesmo épocas que tinham o mesmo 'papel' na jornada da protagonista". "Tudo sem esquecer o fundamental: não adianta pesquisa, técnica e estudo sem entender como seu protagonista e as outras personagens reagiriam e reagem em cada situação. Isso mostra quem eles são. O lado humano. Emoção", completa Antônio.


Falando em adaptações, Luiz Antônio tem uma longa história para contar sobre o roteiro, que já chegou a ter perto de 150 páginas.


O roteiro: adaptações, reduções e o papel do coletivo


"Por incrível que pareça, nos Estados Unidos o roteiro teve mais receptividade que aqui, até certo momento", afirma Luiz Antônio. Acreditando no caráter universal da historia, Antônio chegou a trabalhar uma "última versão" em inglês, uma vez que havia notado um interesse muito maior vindo do Hemisfério Norte.


Essa versão em inglês, já um pouco maior do que o usual, contava com 121 páginas. Antônio revela que o tamanho do roteiro não causou espanto em ninguém, dividindo que a versão em português que conquistou a atenção de parceiros aqui no Brasil já tinha 148 páginas.


"Tenho que admitir que, depois de 4 anos, já estava quase desistindo, e me faltava incentivo para mais um tratamento. Decidi manter o tamanho, prevendo futuras alterações que o roteiro sofreria com uma possível visão de diretora ou diretor e produtores. Não podia mais trabalhar sem ter garantia mínima da existência do filme, não tinha mais possibilidades de dedicar ainda mais tempo sem certeza de que algo aconteceria". - Luiz Antônio
Angelo Fernandes e Jeferson De em "Doutor Gama". Imagem: Pedro Iglesias Amaral
Angelo Fernandes e Jeferson De em "Doutor Gama". Imagem: Pedro Iglesias Amaral

Segundo Antônio, o tamanho do roteiro correspondia diretamente com a necessidade narrativa que a vida de Luiz Gama pedia. "Para atingir o maior número de pessoas com a mensagem forte que o filme traria, o roteiro pedia formato clássico, quase épico, estruturado de maneira próxima do tradicional. Ainda assim, não aceitaria reduzir personagens a estereótipos", destaca Antônio, afirmando que parte da sua missão era "fazer com que o lado humano do protagonista (dores, amor, ideais) conduzisse o leitor (e depois o expectador)".


A chegada da Paranoid e a escolha do diretor Jeferson De certamente influenciou criativamente nesse processo, principalmente para entender como o diretor colocaria de pé as páginas escritas por Luiz Antônio.


Encontrando a unidade da história


"Se toda vida tem pluralidade, a de Luiz Gama consegue ser ainda maior. Cada faceta dele daria um filme próprio", reflete Antônio, que menciona também a responsabilidade em honrar esse "Luiz Gama histórico".


Antônio cita a escritora norte-americana Toni Morrison como inspiração para trabalhar o ponto de vista das suas personagens negras, "sem utilizar o olhar 'de fora'". "A escolha sempre foi a de mostrar a humanidade de Luiz Gama, suas conquistas, seus amores, e sim suas dores (sem explorá-las de uma forma voyeurística, gratuita, sádica). Tudo de uma maneira que falasse com o público, e não apenas o cinéfilo acostumado a ousadias audiovisuais", reflete Antônio.

"Doutor Gama". Imagem: Pedro Iglesias Amaral
"Doutor Gama". Imagem: Pedro Iglesias Amaral

Para manter sua estrutura quase épica de narra essa história, Antônio buscou recortes representativos da vida de Luiz Gama que não caíssem na ideia de white gaze (conceito que apresenta a suposição de que o leitor ou espectador parte sempre da perspectiva de alguém que se identificado como pessoa branca).


"A perda da mãe (e sua eterna busca) e de muitas figuras femininas que o adotam e influenciam ao longo da vida; a injustiça e crime imperdoável que é o escravizar; a sede de conhecimento, simbolizada pela leitura (sem diminuir o conhecimento oral); o entendimento da brutalidade e selvageria dos ricos, brancos e poderosos; o uso e abuso das leis contra camadas específicas da população; a hipocrisia de “pessoas de bem”; a influência e respeito a diferentes formas de luta, essenciais; a luta pela liberdade", destaca Luiz Antônio.


O papel fundamental da pesquisa

Luiz Gama
Luiz Gama. Imagem: Hora do Povo

Uma obra biográfica necessariamente vai envolver muita pesquisa. Aí, é importante saber onde pesquisar. "O trabalho da professora Ligia Fonseca Ferreira é fundamental para o conhecimento de Luiz Gama. Não sou do mundo da academia, mas acredito que nenhuma outra acadêmica conviveu tão profundamente e com tanto rigor e respeito com o genial Luiz Gama", reflete Antônio. O roteirista afirma que a maior parte da sua pesquisa para o roteiro foi iniciada mesmo antes de surgir a ideia do projeto.


"Acumulei fotografias, ilustrações, livros de historiadores. O final do século XIX e começo do século XX é período chave para a nossa nação em muitos aspectos, com a consolidação, riqueza, resistência e a criminosa perseguição violenta da cultura e religiosidades brasileiras de matrizes africanas (aspectos fundamentais para mim) e nossa formação sociopolítica dita “moderna”, que é opressora e racista, nascida na eugenia. No meio dessas leituras, encontrei doutor Luiz Gama e, ao descobrir alguns trabalhos da Professora Ligia, no mesmo momento entendi que ali estaria a fonte para chegar ao homem Gama". - Luiz Antônio

Para Antônio, "uma das coisas importantes que o filme pode fazer é estimular pessoas a lerem Luiz Gama", trazendo os livros "Com a Palavra, Luiz Gama" (org. Ligia Fonseca Ferreira, 2011) e "Lições de Resistência" (Ligia Fonseca Ferreira, 2020) como fontes essenciais. Para completar, a própria escolha do título definitivo da obra partiu do princípio de honrar essa emblemática figura da nossa história.


"Como me disse depois a própria Professora e também Doutora Ligia: 'se Luiz Gama, esse intelectual tão brilhante, jurista, jornalista, pensador, poeta, homem admirado e honrado, se ele não não foi um Doutor, quem é doutor nesse país?'". - Luiz Antônio

"Doutor Gama" é muito mais do que um retrato histórico do advogado abolicionista. Trata-se de uma importante obra para refletirmos, através da sua história, os rumos do nosso país e o nosso papel nisso tudo. Se vivemos um período sombrio no Brasil, precisamos, mais do que nunca, tratar histórias como essa, de Luiz Gama, com responsabilidade e apelo para grande público.



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