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Escrevendo em Hollywood com Paula Sabbaga

A roteirista de “Dynasty” divide sua trajetória no audiovisual e dá dicas para quem quer construir sua carreira no exterior

Imagem: reprodução/ViacomCBS/Netflix

Você já pensou em trabalhar nos EUA? Muitos roteiristas cresceram e se apaixonaram pela profissão através de séries e filmes hollywoodianos. Enquanto para muitos Hollywood é uma realidade distante, outros profissionais conseguiram furar essa bolha e hoje escrevem sucessos que a gente vê na TV e em plataformas de streaming.


Esse é o caso de Paula Sabbaga, roteirista formada pela FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado) e que hoje mora em Los Angeles, onde trabalha em salas de roteiro de séries televisivas. Sabbaga dividiu com a gente um pouco da sua experiência, o processo de transição do Brasil para os EUA e o seu passo a passo para conquistar uma vaga no ViacomCBS Writers Mentoring Program.


Tem interesse em escrever para séries norte-americanas? Então veja o resultado desse super bate-papo a seguir!


Quem é Paula Sabbaga?

Paula Sabbaga. - Imagem: arquivo pessoal

Roteirista há 10 anos, com formação em Cinema pela FAAP e mestrado em Roteiro de Cinema e TV na University of Southern California, Paula Sabbaga já assinou projetos de grande porte tanto no Brasil como nos Estados Unidos. Antes de se mudar para os EUA, participou de roteiros de diversos programas como “Plantão do Tas” (Cartoon Network), “Conversa de Gente Grande” (Band), “Os Fatos Espetaculares de 2012” (Band), “Desimpedidos na Copa das Confederações” (Canal Desimpedidos), “O Que Tem Pra Hoje” (Comedy Central Brasil), “Caos” (History Channel) entre outros.


Nos Estados Unidos, desenvolveu projetos em parceria com diversos estúdios e produtoras como CBS, Disney+, 21 Laps, Whitaker Entertainment, IDW Comics e Vast-Entertainment, além de ter participado por três temporadas da equipe de roteiristas da série “Dynasty” (The CW/Netflix). É ganhadora do prêmio Humanitas: New Voices e atualmente trabalha como roteirista e co-produtora da série "Walker" (The CW).


O início da carreira nos EUA

"The 100". - Imagem: reprodução/The CW

Já com bastante experiência em TV, Paula Sabbaga teve sempre claro seu objetivo de trabalhar com ficção. Segundo a roteirista, seu desejo de estudar fora se dava principalmente para “aprender a escrever as séries que assistia”. Assim, Sabbaga pausa sua carreira no Brasil para ingressar no mestrado na University of Southern California, em Los Angeles. “Foi a melhor decisão que eu tomei na época”, comenta Sabbaga.


Além de dedicar-se aos estudos, Sabbaga conta que estagiou bastante na época, o que a levou a trabalhar em uma agência de talentos. “Na época eu ainda me sentia muito mais uma boa aluna do que uma roteirista completa”, revela Sabbaga, deixando claro que sabia bem onde podia melhorar em seu desenvolvimento como roteirista.


Por causa de sua experiência na agência, Sabbaga conseguiu um agente e trabalhou como assistente em algumas séries televisivas. “Trabalhei para showrunners como assistente deles. Trabalhei em uma série chamada ‘Guilt’ e depois fui trabalhar em uma série chamada ‘The 100’ como assistente do Jason Rothenberg, o criador da série”, destaca a roteirista.


Enquanto no Brasil Paula Sabbaga se dedicou bastante à não-ficção, a roteirista encontrou novas oportunidades e desafios nos EUA. Conquistou espaço em salas de roteiro, onde conseguiu evoluir sua escrita de ficção, mas também descobriu uma nova dinâmica de trabalho enquanto subia hierarquicamente no quadro de roteiristas.


Na série “The 100”, Sabbaga teve a experiência de trabalhar como assistente de roteiro e conta um pouco das suas obrigações na época:


“Seu trabalho é sentar e anotar tudo o que os roteiristas estão comentando, então depois mandar esse relatório no fim do dia para que eles sempre lembrem das decisões e como eles chegaram lá”. - Paula Sabbaga

Para Sabbaga, trata-se de um trabalho essencial para a formação de um roteirista, uma vez que você acompanha todas as etapas do desenvolvimento de um roteiro - das primeiras ideias ao produto final.


Mas afinal, como a roteirista conquistou suas primeiras oportunidades de trabalho no exterior? Paula Sabbaga nos conta, em detalhes, o importante papel das bolsas de mentoria oferecidas por grandes players do mercado!


Bolsas de Mentoria para roteiristas

"Walker". - Imagem: reprodução /The CW

Tive muita sorte de entrar em um programa da CBS”, revela Sabbaga, apontando um caminho muitas vezes desconhecido para a maioria dos roteiristas brasileiros. A roteirista dá mais detalhes sobre o assunto:


“Vários estúdios aqui oferecem fellowships programs (programas de bolsas), que ajudam roteiristas que querem se profissionalizar. Às vezes são pessoas que estão começando, assistentes de roteiro que precisam de um empurrãozinho para se tornarem roteiristas. Esses programas ajudam a preparar o profissional para o mercado, tanto na parte criativa quanto nos negócios”. - Paula Sabbaga

Tais programas fazem toda a diferença para o desenvolvimento profissional de um roteirista, já que há mentorias especializadas e um plano de crescimento dentro dos próprios canais que oferecem essas oportunidades. “Enquanto eu trabalhava no 'The 100', toda quarta eu ia nesse programa de mentoria da CBS onde eu treinava junto com showrunners”, revela Sabbaga, que completa: “Um executivo da CBS te acompanha o tempo todo e te ajuda a escrever um piloto de série seu”.


Já no fim do programa, o mentor de Sabbaga perguntou à roteirista que séries, daquelas que estavam para estrear no canal, ela se identificava mais. O intuito dessa pergunta é justamente oferecer um caminho para os profissionais que já encerram o ciclo de mentoria, prontos para suas primeiras entrevistas.


“Acabei indo para quatro entrevistas e fui convidada para trabalhar nas quatro séries. Isso só mostra o quanto o programa ajuda. Ele te treina a fazer esse tipo de entrevista, como se comportar, o que esperar, como se destacar, esse tipo de coisa.” - Paula Sabbaga

Das quatro séries, Sabbaga se identificou mais com "Dynasty'', algo muito mais próximo de uma novela, segundo a própria roteirista. Ela afirma que toda a sua experiência cultural de ter crescido assistindo novelas a ajudou na sala de roteiro, pois a série trabalha muitas das ferramentas do melodrama. Sabbaga foi roteirista da série por três anos, mas acabou encerrando o ciclo por querer se dedicar a novos projetos, focando em desenvolver outras habilidades como roteirista.


Paula Sabbaga acabou por ser convidada a integrar a equipe de roteiro da série “Walker”, uma adaptação do sucesso dos anos 1990 “Walker, Texas Ranger”, protagonizada na época pelo ator Chuck Norris. A adaptação traz o ator Jared Padalecki como protagonista.


“Eu queria muito trabalhar em ‘Walker’ por ser uma série que chamamos de procedural. Eu queria aprender como escrever esse tipo de série”, Sabbaga completa.


Como ingressar em um programa de mentoria nos EUA?

Paula Sabbaga. - Imagem: arquivo pessoal

“A parte mais legal é que todo mundo pode aplicar, você não precisa ser estudante, você não precisa ter um trabalho fixo”, começa Sabbaga, mostrando que conquistar aquela tão desejada bolsa de mentoria não está tão longe assim de você.


A roteirista pontua que, para a maioria dos estúdios, a inclusão e diversidade tem certa prioridade, mesmo quando não é exatamente o foco. Segundo Sabbaga, os estúdios “querem diferentes vozes para contar novas histórias”. Além da CBS, isso inclui grandes players como Warner Bros, Disney, AMC, etc.


“Pra eles eu era lésbica, latina e imigrante, então eu me enquadrava bem nisso”, Sabbaga revela, dando mais detalhes sobre o processo em si.


“Você manda um roteiro original e um spec, normalmente um episódio de uma série que já existe. No geral todas as fellowships abrem mais ou menos ao mesmo tempo, então dá para aplicar para várias. Se eles gostarem, você vai para uma entrevista. Se eles acreditarem que você tem boas histórias para contar e está pronto para crescer na carreira, eles te colocam no programa”. - Paula Sabbaga

Em nossa entrevista, Paula Sabbaga conta com maiores detalhes a sua experiência no programa de mentoria da CBS - o funcionamento, as vantagens, a questão do visto e os caminhos apontados uma vez que o ciclo é finalizado. Quer entender melhor todo esse processo e ficar por dentro desse e tantos outros conteúdos exclusivos? Considere apoiar o Writer's Room 51 no Catarse e faça parte do nosso grupo fechado!


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Liberdades criativas x lógica de mercado

"Dynasty". - Imagem: reprodução/ViacomCBS/Netflix

As experiências no Brasil e nos Estados Unidos colocam Paula Sabbaga em uma interessante posição. É possível entender diferenças no processo de desenvolvimento, mas também nas dinâmicas de trabalho. Segundo ela, “a principal diferença é a questão do ego”. A própria roteirista aponta que tem suas ressalvas a respeito dessa colocação.


Com um mercado fomentado por iniciativas privadas, onde players arriscam seu próprio dinheiro em grandes apostas, naturalmente a relação que o roteirista tem com a própria obra é um pouco diferente. Sabbaga comenta: “essa coisa de ‘vou escrever algo meu e quando a gente vender, ganhamos uma grana’ é muito difícil de acontecer”. Então como é que funciona de fato? A roteirista afirma que seus projetos autorais não são criados necessariamente para serem produzidos. “Na verdade é tudo uma carta de apresentação para que um estúdio me convide para escrever o projeto deles”, completa.


“Eu estou escrevendo agora um longa-metragem de ação e comédia. Então eu sei que se um estúdio estiver com um projeto de ação e comédia, eles vão saber que eu posso desenvolver o roteiro para eles. Por isso eu acabei criando um certo ‘distanciamento’ das coisas que faço. Eu foquei mais no futuro da minha carreira, o que - consequentemente (e, de vez em quando, infelizmente) se torna algo muito mais prático do que sentimental”. - Paula Sabbaga

Com as linhas de incentivo do Fundo Setorial do Audiovisual, os projetos contemplados já eram integralmente financiado pelo fundo, proporcionando ao criador certa liberdade criativa. Naturalmente, essa lógica vem mudando cada vez mais. Com o triste enfraquecimento das iniciativas públicas, vemos um mercado quase que 100% voltado às iniciativas privadas, através de players.


Por um lado, é muito bom ver novas plataformas de exibição injetando recursos no mercado audiovisual brasileiro. Por outro lado, estamos perdendo uma importante ferramenta de fomento a novos artistas. Sobre isso, Sabbaga comenta: “Não existia esse peso financeiro nas costas da produção. Você escrevia o que queria realmente ver e isso era sensacional”.


Com isso, podemos entender que a lógica de um mercado sólido como Hollywood coloca outras responsabilidades nas mãos dos roteiristas (em muitos casos). A liberdade criativa e o apego ao desenvolvimento do seu projeto nem sempre são prioridade. Há um caminho a ser construído até lá. A boa notícia é que esse caminho realmente existe - Paula Sabbaga está aí para provar que não há fronteiras para quem quer viver da escrita.


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