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Do curta feito em casa aos grandes festivais

Atualizado: 19 de Set de 2020

O premiado diretor e roteirista Lucas dos Reis compartilha suas estratégias para gravar curtas com poucos recursos e conquistar passagens por grandes festivais de cinema


Who's that man inside my house
Durante as gravações de "Who's That Man Inside My House?" - Imagem: Mayra Silva

É preciso mostrar seu trabalho para conquistar boas oportunidades. Com poucas linhas de financiamento voltadas para curtas-metragens, essa premissa normalmente aponta para uma única questão: você precisará investir dinheiro em suas produções.


Como muitos já sabem, fazer um filme (mesmo de pouca duração) pode sair bem caro. Será que com um bom roteiro, muita disposição e pouco dinheiro é possível fazer um curta-metragem? Não apenas um curta-metragem, mas um filme que se destaque, passe por grandes festivais e renda prêmios para o realizador?


O roteirista e diretor Lucas dos Reis prova que isso é possível e divide suas estratégias para fazer filmes de qualidade que circulam por grandes festivais de cinema no Brasil e no mundo.


Quem é Lucas dos Reis?

lucas dos reis
Imagem: Mayra Silva

Seu primeiro curta-metragem "Rancor (2016)" foi apresentado no XIII Fantaspoa e em outros festivais pelo Brasil. "Abismo (2018)", seu segundo trabalho, foi um filme premiado no 46º Festival de Cinema de Gramado e no Scapcine Festival, trazendo visibilidade para o diretor e orçamento para o seu próximo projeto, o ambicioso horror metalinguístico "Who's That Man Inside My House?" (2019).


“Who’s That Man Inside My House?” já recebeu mais de dez prêmios no Brasil, incluindo de festivais renomados como 47º Festival de Cinema de Gramado e 29º Curta Cinema - Rio de Janeiro International Short Film Festival, além de colecionar passagens por outros grandes festivais internacionais como o 18º Macabro International Horror Film Festival e 20º Buenos Aires Rojo Sangre. Em 2020 o curta foi vendido ao Canal Brasil.


O último projeto de Lucas foi lançado em 2020, um curta-metragem de horror gravado inteiramente pela tela do celular chamado “Pra Ficar Perto”. O filme recebeu o prêmio de Melhor Curta Gaúcho no festival Fantaspoa at Home e foi selecionado para o 48º Festival de Cinema de Gramado.


Como garantir tantas passagens e prêmios com filmes de baixo orçamento? Vamos compreender melhor essa questão a seguir!


O papel do curta-metragem para a carreira

who's that man inside my house
Durante as gravações de "Who's That Man Inside My House?" - Imagem: Mayra Silva

“Entrar nesse meio sempre foi uma dificuldade muito grande. Então o curta-metragem acaba sendo uma via bacana porque eu consigo contar uma história com qualidade do jeito mais próximo que eu gostaria de fazer com as condições que eu tenho”, começa Dos Reis, comentando sobre a importância do uso inteligente dos recursos disponíveis.

“Como diretor independente, eu faço um curta para me dar visibilidade. Em nenhum momento eu crio um curta-metragem pensando em um retorno financeiro. Curta-metragem é uma vitrine para o realizador. É como o realizador consegue mostrar aos outros ‘a que veio’, basicamente”. - Lucas dos Reis

Lucas dos Reis deixa claro o seu objetivo com seus curtas: “ser o cara que lá na frente produz longas e séries”. Segundo o próprio autor, “eu tenho que mostrar que eu sou um cara que sabe do que tá falando, que tem propriedade para contar uma história”. “Por mais que eu escreva um roteiro genial, ninguém vai me contratar se eu nunca fiz nada”, completa.


Considerando os frequentes desafios de produção no cenário audiovisual brasileiro, Lucas deixa claro o valor de uma classe artística unida, disposta a somar no lugar de apenas competir pelos mesmos recursos.


“Precisamos sair um pouco dessa questão das panelas. Parece que aqui a gente tem uma competitividade muito grande, mas neste momento não adianta. A gente não tem uma meritocracia que funcione. Ninguém tá em pé de igualdade com ninguém, todo mundo precisa da ajuda do outro”, ressalta.


Estratégias para viabilizar as suas ideias

Set de filmagem
Imagem: Mayra Silva

Formado no extinto curso de audiovisual da Ulbra, Lucas dos Reis levou muito a sério a oportunidade de fazer seu próprio filme como projeto de TCC. Foi assim que nasceu “Rancor”, um projeto que o autor hoje considera “muito audacioso para aquele momento”.


“Rancor”, que foi produzido como exercício de faculdade com recursos limitados, teve sua estreia no Festival Fantaspoa em 2016, um grande evento dedicado ao cinema de horror que acontece em Porto Alegre. “Fantaspoa era o festival que eu mais idealizava em entrar, por gostar muito de horror”, comenta Dos Reis.


Mais do que passagens pelos seus primeiros festivais, o curta trouxe bons ensinamentos para o autor. “Eu ficava pensando: porque eu não reescrevi o roteiro, porque eu não refiz essa cena, porque eu não me organizei melhor?”- Lucas dos Reis elenca suas reflexões.


Um roteiro complexo e ambicioso pode funcionar muito bem no papel, mas ele realmente é a melhor estratégia para exibir seu potencial? É preciso ter isso em mente. No fim das contas, um arsenal de cenas mirabolantes pode apressar a produção e comprometer os pontos que precisam de maior cuidado: a construção de boas cenas.


“Eu fiz o ‘Abismo’ em 2018 de forma totalmente independente, feito com a minha nova mentalidade de fazer muito com pouco”, revela Lucas. “Abismo” ganhou o prêmio de Melhor Edição de Som no Festival de Gramado. “Foi estranho, a edição de som foi onde tivemos mais problemas”, brinca Lucas.


Parte do dinheiro do prêmio se tornou verba de produção para o seu próximo filme, “Who’s That Man Inside My House?”.


Graças ao prêmio recebido por “Abismo”, o novo filme começou com uma verba de produção de R$ 2 mil, que contou com mais R$ 2 mil do bolso do próprio diretor. Novamente, as ambições artísticas de Lucas ultrapassavam o orçamento que ele tinha em mãos. Para não comprometer a qualidade das cenas, o autor buscou referências para otimizar os recursos.


“Pensei: vou fazer um filme com pouca grana, onde metade do filme eu mostro através de fotos e só grave mesmo a metade final”, comenta Lucas dos Reis sobre a nova mentalidade de produção. Aqui, trabalhar com o horror trouxe um resultado muito positivo, uma vez que Lucas dos Reis privilegiou a construção atmosférica e o clima sinistro durante toda a narrativa.


Trabalhando o gênero para denotar um importante discurso político, “Who’s That Man Inside My House?” é narrado por um adolescente que nota, noite após noite, uma aparição estranha de um homem que parece muito ameaçador, mas que não fará nada se o jovem também permanecer parado. Trata-se de uma verdadeira analogia política, um comentário sobre a acomodação da população diante da presença da ameaça.


A construção de um discurso denso e complexo sempre foi um ponto importante para Lucas dos Reis, que completa: “meu foco com o filme não era dar sustos, mas criar uma tensão que aumenta enquanto a pessoa assiste”.