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Como trabalhar duplo protagonismo no roteiro?

Como melhor trabalhar com mais de um protagonista em seu filme ou série? Trazemos um texto da Creative Screenwriting cheio de dicas e reflexões sobre o assunto

Brokeback Mountain. Imagem: AdoroCinema

A protagonista é a personagem principal da história. É a força motriz central da narrativa e passa pela maior transformação física, emocional, intelectual e espiritual. O universo da história é revelado por meio de sua perspectiva e o envolvimento do público cresce na medida em que os conflitos e obstáculos são resolvidos.


E quando queremos tratar de dois protagonistas em nossa história? Quais estratégias considerar? Quais opções criativas existem à nossa disposição? Traduzimos e adaptamos o texto do Creative Screenwriting sobre isso, para ajudar na construção do duplo protagonismo de maneira mais interessante.


Acompanhe!


Primeiras questões a se considerar

Toy Story. Imagem: reprodução

O caso de ter dois protagonistas é um daqueles tópicos de escrita de roteiros que divide opiniões e é inteiramente determinado pelas preferências estilísticas de quem escreve. Várias protagonistas podem complicar a história, mas isso foi feito com sucesso muitas vezes ao longo da história do cinema.


Ao considerar se você deve ou não usar duas protagonistas, questione se a narrativa seria ou não mais forte e simplificada com um único protagonista. Por que a necessidade de vários protagonistas? Essa escolha estilística tem uma função prática? Tem função simbólica? A história transita suavemente entre as perspectivas?


Com a mudança de perspectivas, a coerência é a chave. Seu público pode perder a conexão com a narrativa se o foco mudar muito. Quando feitas corretamente, as narrativas devem se entrelaçar perfeitamente. Costure os mistérios, levando à próxima cena. Faça o público questionar o que vem a seguir, mas nunca permita que eles parem por estarem completamente perdidos. Isso vai estragar o fluxo.


Dito isso, uma história fascinante pode ser contada alternando entre a pessoa que é o objeto do mistério e a pessoa que o resolve, por meio de dois pontos de vista que ilustram esse determinado elemento de mistério.


É importante pensar sobre como os protagonistas se cruzam e se relacionam em termos de tema. Eles estão na mesma jornada ou em seus próprios caminhos únicos? De qualquer forma, a transformação de uma personagem deve coincidir com a do outro de alguma forma significativa.


Saiba diferenciar as estratégias narrativas de protagonismo


O roteirista Scott Myers defende a diferença entre protagonistas duplos e co-protagonistas.


Co-protagonistas: duas personagens iguais compartilham uma jornada.
Protagonistas duplos: duas personagens iguais têm sua própria transformação única.

O exemplo mais claro de co-protagonistas no cinema pode ser encontrado nas duplas de comédias do cinema mudo, como Laurel e Hardy ("O Gordo e o Magro").

Laurel & Hardy. Imagem: reprodução

Cada roteiro tem vários enredos com narrativas paralelas. É mais comum na televisão, porque seus arcos de história precisam ser concluídos dentro de um episódio único, ao mesmo tempo que se ligam aos arcos gerais da temporada/série. Sem mencionar todas as linhas de personagens individuais dentro desses sistemas. Por enquanto, vamos nos concentrar nos recursos.


Quando se trata de narrativas paralelas, são geralmente apontadas seis categorias principais - três das quais se aplicam aqui.


1. Narrativas paralelas


Essas narrativas são frequentemente contadas por meio de enredos de personagens individuais igualmente importantes (micro-enredos).


Várias protagonistas têm suas próprias histórias que servem ao macro-enredo - o enredo abrangente que as une. As histórias são geralmente truncadas, o que significa que são quebradas em intervalos claros de atos ou partes separadas - embora sejam conectadas por temática direta.


Exemplos de narrativas paralelas são as obras de Alejandro González Iñárritu e Guillermo Arriaga - "Amores Brutos", "21 Gramas" e "Babel"; "Pulp Fiction: Tempo de Violência", "Simplesmente Amor", para citar alguns.


2. Múltiplos protagonistas

Se Beber, Não Case. Imagem: O Globo

Um grupo de personagens trabalha junto para completar uma jornada ou objetivo. O número mais comum de personagens para o grupo é quatro, mas conjuntos maiores ou menores podem se unir para algumas batalhas épicas.


Os exemplos incluem "Os Vingadores - The Avengers", "Se Beber, Não Case" e "Viagem das Garotas".


3. Jornadas duplas


Quando duas protagonistas igualmente importantes se aproximam, se afastam ou encontram paralelos fisicamente, emocionalmente ou ambos. Essas jornadas duplas geralmente têm um conjunto de histórias A, B e C.


A - Personagem 1


B - personagem 2


C - Jornada compartilhada.

Brokeback Mountain. Imagem: Time Out

Em "O Segredo de Brokeback Mountain", vemos dois protagonistas em oposição aos co-protagonistas, porque Ennis e Jack têm suas próprias histórias que convergem, se separam, correm paralelamente e, em seguida, convergem novamente.


A: Ennis Del Mar - casa-se com Alma e tem duas filhas.


B: Jack Twist - muda-se para o Texas e casa-se com Lureen.


Mas o amor que eles compartilham um pelo outro sempre os traz de volta, mesmo que apenas por um breve momento doloroso.


C: Seu amor reprimido.


Esta é a força motriz de cada personagem e que informa as vidas separadas que eles fazem para si próprios. A gravidade os fez colidir. A colisão de sua paixão e a força na repelência imediata de seus verdadeiros desejos os conduzem a um amor não realizado.


"Os Suspeitos", escrito por Aaron Guzikowski, é outro grande exemplo de duplo protagonismo, abordando o caso de uma criança desaparecida de diferentes ângulos desse tema central: os dois lados da justiça. Dover recorre à justiça dos vigilantes, fazendo justiça com as próprias mãos, enquanto Loki anda na linha tênue da legalidade.


Objetivos internos x objetivos externos


Frequentemente, em narrativas duplas e com co-protagonistas, uma personagem tem um objetivo externo, enquanto a outra tem um objetivo interno.


Em "Toy Story", o ciúme de Woody de ser substituído pelo novo brinquedo de Andy, Buzz Lightyear, faz com que os dois fiquem presos. O objetivo de Woody é não ser substituído. Buzz precisa perceber que ele é um brinquedo e não um cadete espacial real. Seu objetivo em comum é voltar para seu dono.

Toy Story. Imagem: Veja

O uso de protagonistas duplos permite que roteiristas explorem uma visão mais detalhada e matizada da história a partir de diferentes perspectivas. Isso abre muitas possibilidades narrativas.


E aí, o objetivo é fazer isso sem que o público esteja 100% ciente. Encontrar uma maneira de suas narrativas ou mundos se conectarem de alguma forma é vital para criar um enredo coeso.

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