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A carreira do roteirista com Letícia Bulhões Padilha

Atualizado: Jan 19

A roteirista de séries como “A Culpa é da Carlota” e "Faz Teu Nome" divide impressões sobre o ramo da comédia e como encontrar seu espaço na indústria sem contatos

"A Culpa é da Carlota" - Imagem: reprodução

No audiovisual, é muito comum escutarmos histórias parecidas quando falamos do começo da carreira de roteiristas de sucesso. Estar “no lugar certo”, “na hora certa” e com condições financeiras adequadas para ralar muito no começo é uma combinação recorrente. E quando esse não é exatamente o seu contexto? É possível encontrar seu espaço na indústria sem contatos, com pouco dinheiro ou mesmo com pouca ideia de como trilhar nesse difícil começo?


A carreira do roteirista não precisa depender desses aspectos contextuais (que definitivamente ajudam muito). É possível, sim, organizar de forma proativa o seu caminho na indústria audiovisual sem contar com tantos “empurrões na direção certa”. Para entender como isso pode acontecer, conversamos com a roteirista Letícia Bulhões Padilha, que fez parte da equipe da sala de roteiro de séries como “A Culpa é da Carlota” (Comedy Central Brasil) - adaptação do formato argentino “La Culpa es de Colón” - e o “O Diário de Mika” (Disney Channel) - criada por Elizabeth Mendes e nomeada ao Emmy Kids Awards -, entre tantos outros trabalhos.


Nessa entrevista, dividimos um pouco das experiências de Letícia para entender alguns importantes aspectos da carreira de um roteirista; por onde começar, como encontrar as primeiras oportunidades, como organizar o rumo da sua carreira, entre outros pontos.


Quer entender um pouco mais da trajetória da Letícia no roteiro? Não deixe de ouvir a sua entrevista no podcast Primeiro Tratamento através deste link!


Quem é Letícia Bulhões Padilha?

Letícia Bulhões Padilha - Imagem: arquivo pessoal

Com 10 anos de carreira como roteirista, Letícia Bulhões Padilha coleciona experiências bem diversas na área, mas sempre com o foco em trabalhar com comédia. No Comedy Central, Padilha fez parte da equipe das séries “A Culpa é da Carlota” e “Auto Posto” - criado, dirigido e com redação final de Marcelo Botta - que muitos acreditam ter “previsto” a pandemia mesmo antes dela acontecer, isso por conta do último episódio da temporada.


Ainda na TV fechada, a roteirista integrou a sala de roteiro do programa “Faz Teu Nome” (Multishow), apresentado por Tom Cavalcante e Tirullipa. Além disso, Letícia também tem experiência com conteúdo infantil, tendo trabalhado nas séries “Super Lila” (Discovery Kids), criada por Leonor Corrêa e atualmente em fase de produção, “Senninha na Pista Maluca” (Gloob) e “Os Chocolix” (Nickelodeon), criada por Jacqueline Shor, entre outras.


No cinema, a roteirista fez colaboração e consultoria no longa-metragem de comédia “Incompatível” (Gullane/Fox). Para completar, Bulhões Padilha também desbravou o YouTube, tendo trabalhado com Felipe Neto entre 2016 e 2018, atuando como pesquisadora de conteúdo para os vídeos do youtuber.


O começo da carreira


“Começar na área é muito difícil”, começa Bulhões Padilha, que dividiu com a gente os diferentes desafios que assumiu ao decidir ser roteirista. Mas antes de qualquer decisão no meio audiovisual vem a sua formação em Sociologia.


“Eu tinha 17 anos, queria cursar Rádio e TV, não passei em universidade pública, meus pais perderam o emprego e não podiam pagar uma faculdade para mim”, Letícia explica. Com poucos cursos gratuitos voltados a audiovisual e roteiro, o empecilho financeiro é uma das primeiras travas do profissional que não detém tantos recursos para começar.


Letícia, então, foi em busca de trabalho para pagar os cursos que gostaria de fazer. “Desde pequena eu passo na frente de torres de TV e o meu coração bate mais forte”, revela Bulhões Padilha.


De atendente de telemarketing à recepcionista, Letícia trabalhou em diversas áreas, mas sempre com um mesmo foco: financiar sua formação e ir atrás dos seus sonhos no meio audiovisual.


“Então na época eu fiz um curso de roteiro que não me ajudou muito” - Bulhões Padilha fala sobre suas primeiras experiências estudando o ofício. “Os cursos eram muito elitistas, eles falavam muito do Cinema Noir, Western, Buñuel, etc. E no fim… Eu não sabia o que era um cabeçalho!


A roteirista deixa bem claro que sua meta sempre foi trabalhar com comédia. Para isso, o primeiro passo era entender a arquitetura que compõe um roteiro. Assim, só depois seria possível seguir seus estudos para o caminho que a roteirista trilha até hoje, se especializando em compreender os diferentes artifícios que envolvem o humor e a construção de piadas.


Além da formação, Letícia também buscava o DRT, essencial para quem buscava trabalhar em emissoras de TV naquela época. Denominada a partir de “Delegacia Regional do Trabalho”, DRT é um registro profissional pedido principalmente por algumas emissoras para exercer a função de roteirista. “Eu virava monitora dos cursos justamente porque eu queria o DRT”, comenta.


Enquanto isso ocorria, Letícia revela que trabalhou bastante com projetos de amigos e conhecidos, criando conexões e praticando a arte do roteiro. “Primeiro eu fazia muito um trabalho de produção por não me sentir confortável ainda para mostrar os meus textos”, responde, deixando claro que nem sempre é fácil dividir nossos primeiros trabalhos com roteiristas mais experientes.


Primeiras experiências como roteirista

“O Diário de Mika” - Imagem: reprodução

“Em um desses cursos, uma das alunas, da Casablanca, me disse que precisaria de uma assistente para um projeto”, comenta Bulhões Padilha, que lembra que o “valor baixo” anunciado para a vaga em 2012 (R$ 1.500) já era cinco vezes mais do que o seu último salário. “Eu pensei: tipo assim, eu já estou ganhando quatro dígitos”, brinca a roteirista.


Começo de carreira normalmente é assim: o profissional se desdobra em diferentes funções, procurando seu espaço enquanto tenta desenvolver um estilo próprio. Se você não tem aquele padrinho ou madrinha superstar da indústria para arranjar um belo atalho, vai ser preciso se dividir bastante. Nisso, a diversidade é o que conta.


Não foi diferente com Letícia, que entre tantas funções, já trabalhou como ghostwriter em uma ação das redes sociais da ativista e apresentadora de TV Luisa Mell e pesquisadora de conteúdo para os vídeos do youtuber Felipe Neto, um dos maiores nomes da plataforma no Brasil. Além, é claro, de escrever muito conteúdo institucional com o objetivo único de viver de roteiro.


A roteirista, porém, afirma que nada disso surgiu “do nada” ou de forma fácil. Tudo em sua carreira foi fruto de dedicação e o famoso “ir atrás dos seus objetivos”. A própria oportunidade de trabalhar com Felipe Neto veio depois de muita pesquisa da parte da roteirista sobre o cenário do Youtube Brasil.


“A gente vivia um momento muito incerto aqui no Brasil e trabalhar com youtube parecia uma grana fixa. Eles recebem em dólar. Então eu pensei: eu vou listar todos os youtubers que são famosos em 2016. Fui listando os youtubers e comecei a pesquisar amigos em comum. Fui por esse caminho - conversando, tentando, mandando mensagem”. - Letícia Bulhões Padilha