“O Menino Maluquinho” e o roteiro de animação

A equipe de roteiro da nova série da Netflix divide conosco como foi o processo de escrita e adaptação


Imagem: Reprodução

No dia 12 de outubro de 2022, a Netflix lançou a nova série brasileira de animação “O Menino Maluquinho”, produzida pela Chatrone e baseada no icônico personagem do Ziraldo.


Originalmente publicado como livro em 1980, “O Menino Maluquinho” conquistou o coração da juventude da época, se tornando um clássico da literatura infantil brasileira e ganhando continuação em quadrinhos que foram publicados até meados dos anos 2000, além de adaptação para o cinema e TV.


É a primeira vez que “O Menino Maluquinho” ganha uma adaptação em animação, trazendo as aventuras do menino travesso para o público infantil de hoje. Para entender melhor como foi todo esse processo de adaptação e falar um pouco sobre roteiro de animação, conversamos com Carina Schulze, roteirista e sócia-fundadora da Chatrone, além dos roteiristas Arnaldo Branco, Ana Cecília de Paula e Gustavo Suzuki. Confira!


Trazendo “O Menino Maluquinho” para os dias atuais


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Adaptar uma obra tão consagrada como “O Menino Maluquinho” não é tarefa fácil. Carina Schulze já adianta que tudo foi feito com a aprovação do mestre Ziraldo, que garantiu que a equipe havia adaptado muito bem o seu universo para os dias de hoje.


“Além da honra e privilégio de poder trabalhar com os personagens do Ziraldo, tem uma coisa muito legal de trabalhar num projeto desses, que é o fato de que a equipe inteira tem uma relação afetiva com a obra”, comenta Gustavo Suzuki, destacando a tensão que envolve uma adaptação como essa.


Schulze nos conta um pouco do princípio desse processo de concepção, que começou em meados de 2017 em uma reunião entre a plataforma de streaming Netflix e a produtora Chatrone. “A Netflix já estava procurando projetos para fazer no Brasil e perguntaram quais eram os nossos IPs (propriedades intelectuais) favoritos”, explica Schulze. Nesse papo, surge a ideia de revisitar o universo do Ziraldo, que participou ativamente do projeto desde o princípio.


Os roteiristas deixam claro que o livro original foi a principal base do trabalho de adaptação. Arnaldo Branco conta como foi o “estalo” que rendeu a equipe a ideia dos rumos dessa temporada da animação. “O livro termina com o divórcio dos pais. Pensamos: e se a gente pegar a partir deste ponto?”, resume. Assim, a equipe trabalhou com certa liberdade artística, ao propor um caminho para “O Menino Maluquinho”: lidar com o divórcio dos pais e com a realidade de uma nova cidade.


Sobre o enredo, Ana Cecília destaca a vontade da equipe de capturar o espírito do livro. “Não é um livro muito de enredo”, explica, “mas uma grande apresentação de personagem”. Mesmo com as novas referências culturais acrescentadas pela sala de roteiro - que vão de festa junina à Carreta Furacão -, o norte sempre foi manter o caráter imaginativo da carismática personagem de Ziraldo.


Mesmo sendo moderno, a gente queria que ele fosse lúdico. Manter aquela coisa de ir para a rua, brincar. Combinar bem o mundo atual com o universo imaginativo do Ziraldo. - Arnaldo Branco

Para Suzuki, a ideia de trabalhar “a infância, um momento mágico nas nossas vidas” alimentou o objetivo de criar histórias comoventes e impactantes. Sobre isso, Ana Cecília lembra da orientação da Carina Schulze durante todo o processo: “o episódio não pode ser só um disparador de piada. É preciso ter uma linha emocional”.


A sala de roteiro


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Schulze conta com orgulho que a sala de roteiro apenas começou com o “ok” do mestre Ziraldo, que teria afirmado: “vocês acertaram na mosca”. Apesar da sua proximidade com o processo de adaptação, a produtora e roteirista revela que Ziraldo esteve muito mais próximo da equipe de arte.


Desde o princípio, a produção passou pelo desafio de trabalhar uma grande adaptação durante a pandemia. Para Schulze, apesar do desafio em si, essa realidade trouxe alguns benefícios para todo o processo. Um deles foi a possibilidade de contar com o trabalho de profissionais espalhados por todo o Brasil, algo que influenciou bastante o conteúdo da série em si. “Uma coisa legal nesse processo foi o esforço coletivo de trazer mais brasilidade para a série”, comenta Gustavo Suzuki.


Conseguimos trazer o Brasil para dentro da série. Tem gírias de toda a parte nos episódios. Artistas também trouxeram looks específicos da sua cultura, das suas casas, ruas… É uma das coisas que deixa a série atual. - Carina Schulze

Para os anos 1980, falar de divórcio em uma obra infantil já era algo muito interessante, como destacam os roteiristas. Para eles, isso abriu um leque de possibilidades para deixar mais presente esse assunto, contando com novas composições familiares, próprias do nosso tempo.


A equipe de roteiro responsável pela adaptação de "O Menino Maluquinho" - Imagem: Reprodução

A sala de roteiro também precisou se adaptar a reuniões por Zoom – algo que, segundo eles, não trouxe grandes problemas e trabalhar com a câmera desligada acabou se tornando uma válvula criativa. “Era uma coisa bem divã de terapia, um fluxo de consciência, de ideias”, lembra Ana Cecília.


Essa possibilidade de poder construir um universo imaginativo com a câmera desligada se tornou uma importante ferramenta para que os roteiristas se sentissem confortáveis para dividir histórias e situações pessoais que viriam a influenciar episódios.


Para reforçar a importância de nos mantermos atentos a essa nova forma de trabalhar, Arnaldo menciona matéria sobre cansaço mental com as telas. “Muita gente falava deitado, confortável. É muito menos cansativo”, completa.


Os prazeres e desafios do roteiro de animação


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Com todas as suas especificidades, o roteiro de animação exige uma nova forma de pensar o conteúdo. Afinal, como Branco aponta, “existe uma liberdade criativa, mas com alguns limites”. Escrever uma cena de “enchente”, como sugere Ana Cecília, em uma animação é muito diferente de quando trabalhamos com live-action, do ponto de vista orçamentário.


Mesmo assim, é preciso pensar em uma série de questões relacionadas ao estilo de animação em si e como este pode contribuir para o roteiro.


Muito do estilo de animação é desenvolvido junto do roteiro. Se ele vai ser mais ágil, mais parado, ou se vai ficar mais doido, quebrando as regras da física. Tudo isso é decidido junto. O jeito que você vai escrever o roteiro vai influenciar a forma como eles vão pensar a concepção visual. É uma troca muito presente. - Carina Schulze

Para Branco, há também a responsabilidade criativa de “pensar recursos que prendem a atenção”, completando: “nisso, como dizem, existem dores e delícias”. Branco também aponta outro fator: a participação contínua da equipe de roteiro em etapas mais avançadas, algo que nem sempre ocorre em live-action. “Às vezes, com o live-action, a gente se sente um pouco abandonado. Já na animação há muito esse retorno da parte da equipe de produção”, resume.


“Eu lembro de assistir ao primeiro episódio e me surpreender com várias piadas visuais”, conta Ana Cecília. São situações que, descritas no roteiro, poderiam levar o leitor a determinada interpretação, mas ganham força com as ações, iluminação e decupagem proposta pela equipe responsável pela animação.


O processo criativo do Menino Maluquinho foi bastante colaborativo, de um jeito meio inédito, ao menos pra mim. Cada roteiro, personagem e locação eram desenvolvidos em reuniões envolvendo roteiristas, designers, animadores, diretores e produtores. Esse tipo de interação é muito positivo para todos os departamentos: melhora a qualidade do roteiro, do desenho, da decupagem, além de botar todo mundo na mesma página, deixando a série mais coesa. - Gustavo Suzuki


O legado de “O Menino Maluquinho”


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Como foi destacado pelos roteiristas, “O Menino Maluquinho” atravessou gerações - uma obra consumida em diferentes formatos e plataformas. Falamos em responsabilidade na adaptação, mas é preciso também destacar o legado dessa história, que dá protagonismo a um menino e sua infinita imaginação. “Um menino muito emocionalmente maduro, inclusive”, como lembra Carina Schulze. Como conciliar esse legado com inputs de uma nova geração?


Temos que tirar da cabeça a frase ‘no meu tempo era melhor’. Meu tempo é agora, eu estou vivo agora”, comenta Branco, valorizando as mudanças culturais exigidas pela adaptação. O roteirista completa: “o importante é manter a curiosidade, não tratar o novo como se fosse um atentado à sua memória ou geração”.


Para Ana Cecília, foi muito importante deixar de lado a pergunta “a criança vai entender?” durante a feitura da série. “Se a criança não entender, tudo bem, o pai e a mãe vão entender e vai ser divertido para todo mundo”, comenta Ana Cecília.


Dada a influência de “O Menino Maluquinho”, a equipe promete que a história é capaz de tocar o coração e atiçar a curiosidade de todas as gerações - seja através dos novos elementos culturais de hoje, ou mesmo de clássicos personagens que acompanharam tantas infâncias.


Quer saber como ficou a primeira adaptação em animação de “O Menino Maluquinho”? Corre lá! O primeiro bloco desta temporada já está no catálogo da Netflix e o próximo será lançado em janeiro.


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