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O humor e a não-ficção, com Edu Araujo

Atualizado: Ago 23

Autor do vídeo "Sudestino" (Porta dos Fundos) e roteirista do programa "Música Boa Ao Vivo" (Multishow), Edu Araujo fala sobre humor e processos na sua rotina criativa

"Sudestino" - Imagem: Porta dos Fundos

Nota da edição: essa entrevista foi feita enquanto Edu Araujo ainda fazia parte da sala fixa do Porta dos Fundos.


Se você acompanha o canal do Porta dos Fundos no YouTube, com certeza se deparou com o vídeo “Sudestino”, que até a data de hoje (21/08/2021) reúne mais de 1,5 milhões de visualizações. Sucesso imediato, “Sudestino” coloca o dedo em uma ferida social muito aberta ao inverter o jogo e mostrar uma grossa camada de preconceitos que envolve a visão generalizada que muita gente do sudeste tem sobre o nordestino.


Por trás do sucesso de “Sudestino” está Edu Araujo, roteirista potiguar com longa passagem pela publicidade e que, além de trabalhar desenvolvendo esquetes para o Porta dos Fundos, também se dedica a escrever projetos para canais como Multishow, Futura e Rede Globo.


Araujo divide um pouco das suas múltiplas experiências profissionais, reflete sobre o ofício de escrever humor e destaca os desafios e prazeres do seu trabalho com não-ficção. Para quem não assistiu ao vídeo “Sudestino”, dá uma conferida no link abaixo:


Quem é Edu Araujo?


Edu Araujo - Imagem: arquivo pessoal

Para definir a sua relação com o ofício de roteirista, Araujo busca inspiração na obra do poeta Manoel de Barros:


“Ele fala em escovar as palavras. Para gente que escreve imagens, pensar em escovar as palavras é algo muito bonito. Eu sou um operário, eu escovo as palavras todos os dias. Releio, reescrevo, brigo pela vírgula, pelo melhor advérbio. E também sei até onde dá para negociar”. - Edu Araujo

Roteirista agenciado pela Condé+, vinculado a Associação Brasileira de Autores Roteiristas (ABRA) e Estrategista Criativo com mais de 15 anos de experiência em Comunicação, Edu Araujo já desenvolveu estratégias de conteúdo e comunicação para marcas como Coca-Cola, Bob’a, Shell, Rock in Rio, Red Bull e muito mais. No entretenimento, Araujo trabalhou em programas para canais como Multishow, Futura e Rede Globo, onde desenvolve projetos atualmente. Além de integrar a sala do Porta dos Fundos como roteirista fixo por 2 anos, o autor também escreve podcasts na Rádio Novelo.


“Meu texto sempre foi bem humorado”, comenta Araujo, lembrando da época em que trabalhava com publicidade. De Natal, o roteirista se mudou para o Rio de Janeiro, onde fez sua Pós-Graduação e conquistou seu diploma em Jornalismo, um sonho antigo, mesmo antes de ingressar na Publicidade.


“Comecei a trabalhar em 2012 no Rio de Janeiro. Passei por várias agências de publicidade, onde continuei trabalhando o humor nos meus textos”, contextualiza Araujo. Em 2013, começou a trabalhar para a Artplan, agência que cuida do evento Rock in Rio. Araujo destaca que “a música sempre fez parte da sua vida”, deixando claro que trabalhar para um evento de sucesso como o Rock in Rio foi um grande desafio, mas também uma experiência engrandecedora. Na época, Araujo se dedicava a trabalhar conteúdos para as redes sociais do evento. Segundo ele, “no tempo em que o Instagram ainda tinha borda”.


Depois dessa experiência, Araujo passou a trabalhar na área de comunicação da Rede Globo. “Eu comecei a responder pelo @tvglobo, eu vivi por 4 anos o mesmo que um Palco Mundo do Rock in Rio todos os dias na Globo”, explica.


“Você tem que saber se comunicar com o público da Fátima Bernardes, do Pedro Bial, da Malhação… Tem umas miudezas que vão te impulsionando criativamente”. - Edu Araujo

Para Araujo, a agilidade é uma característica muito importante para quem se dedica a produzir conteúdo em redes sociais para grandes marcas (e grande público também). “É uma pressão enorme para ser criativo o tempo inteiro”, resume Araujo.


“Acho que tudo isso me deu munição para a comédia. A comédia vem da observação do cotidiano, que é uma coisa que eu não abro mão”, Araujo reflete sobre a sua trajetória. De acordo com a sua visão, uma característica marcante do seu “estilo como roteirista” é justamente trabalhar as miudezas do cotidiano. Araujo entende que seu trabalho no vídeo “Sudestino”, do Porta dos Fundos, é um pouco o resultado disso. “Trabalhar com humor é colocar uma lente de aumento nas coisas”, resume.


O humor na trajetória de Edu Araujo

Edu Araujo - Imagem: arquivo pessoal

Edu Araujo afirma que até hoje, ao ver seu nome associado à palavra “autor”, sente o peso dessa responsabilidade. Seu ingresso no roteiro veio a partir de cursos de formação. Araujo destaca a Academia Internacional de Cinema como grande ponto de virada em sua vida. “Sou filho de professores, sou criança de humanas. Fui criado com muito livro, muito debate”, revela.


“A gente que escreve é sempre o nota 10 na redação da escola. Aí você vai para o seu primeiro trabalho e fala: ‘meu Deus, eu encontrei os outros nota 10 aqui’”. - Edu Araujo

Quando a gente tá falando em humor em produção textual, estamos falando de tudo”, responde Araujo, sublinhando a importância das suas experiências criando conteúdo para marcas como Rede Globo e Rock in Rio.


Para Araujo, “trabalhar com redes sociais em um grande evento da música como o Rock in Rio não significa apenas postar foto com frase de efeito”. O roteirista explica que era preciso entender a linguagem de cada artista. “Os fãs da Beyoncé falam de um jeito, os fãs do Iron Maiden, que se apresenta dois dias depois, falam de outro jeito. E eu tinha que me comunicar com todo mundo”, completa. Segundo Araujo, essa experiência já o ajudou muito a trabalhar a construção de voz e personagem.


“Meus textos no humor tem muita raiva também. Eu tenho essa coisa do humor corporativo - eu adoro criticar chefe babaca em esquete. O mundo CLT, o mundo romantizado de trabalhar até tarde, do seu ‘propósito, essas coisas’”. - Edu Araujo

A pandemia que vivemos certamente afetou a rotina e o processo criativo de Araujo, que se dedicou semanalmente por 2 anos a criar propostas de esquetes para o Porta dos Fundos. Entendendo sua função como “um cronista que precisa observar o cotidiano de perto”, Araujo não tem dúvidas de que os humoristas vão salvar o mundo. Afinal, depois de quase 2 anos de pandemia, tudo o que nos faz dar uma boa risada sem perder o tom apropriado é um grande remédio.


Trabalhando no Porta dos Fundos


Imagem: Porta dos Fundos

Com o surgimento do Porta dos Fundos e seu sucesso estratosférico, muitos roteiristas começaram a se interessar por desenvolver premissas e esquetes engraçadas para a internet. Com esse desejo, naturalmente também surgem algumas dúvidas: como é trabalhar em uma produtora como o Porta dos Fundos? Como é a rotina de criação de um roteirista da empresa? Edu Araujo divide com a gente um passo a passo do seu trabalho no Porta.


“Parece que quem trabalha no Porta, só trabalha para escrever as esquetes para o canal. O canal é um braço do Porta, mas o Porta dos Fundos é uma produtora de conteúdo. Tem várias outras plataformas do Porta para além do canal no YouTube”, afirma Edu Araújo, que fez parte do time fixo de dezembro de 2019 a agosto de 2021.


Chefiada pelo roteirista Gustavo Martins e coordenada por Juliana Rodrigues, a sala de roteiro do Porta dos Fundos se reúne semanalmente para trocar material criativo e debater ideias de premissas coletivamente. “A gente debate ideias, temas que estão rolando naquela semana, mas também temas que você tem interesse”, resume Araujo.


“Depois, na quarta-feira a gente se encontra para ler as esquetes que vamos apresentar na reunião geral da sexta-feira. Nessa reunião de quarta somente os roteiristas participam. Nós discutimos o que podemos melhorar em cada esquete”. - Edu Araujo

A partir daí, os roteiristas trabalham um pouco mais em sua esquete, enviam as propostas para o chefe de roteiro dar sua opinião e partem para a reunião geral. Na sexta-feira os roteiros são lidos e debatidos pela equipe e sócios, incluindo Fábio Porchat, Gregório Duvivier, João Vicente, Antonio Tabet e Ian SBF. Araujo destaca o privilégio de ser lido por uma equipe tão competente (e engraçada) e reforça: “é uma produção em escala”.


“A partir daí o processo é o seguinte: sua esquete pode ser aprovada imediatamente, o que acontece raramente, aprovada com ajustes e também tem o ‘volta’. O ‘volta’ é mais ou menos um: ‘beleza, gostamos da premissa, mas não é esse o texto ainda’. A partir daí a gente debate, testa a premissa com outras ideias e isso volta para a próxima reunião. Mas geralmente a gente não volta com o mesmo texto na semana seguinte porque o texto ainda tá muito fresco na cabeça das pessoas. E assim foi com o ‘Sudestino’”. - Edu Araujo

Araujo revela que o texto da esquete “Sudestino” passou por cinco rodadas de leitura em reunião em um período de um ano e meio. Sobre o fato, o roteirista afirma: “eu acho isso muito legal do processo: a gente batalha pelo melhor texto”. Para quem pensa que aprovar uma esquete no Porta dos Fundos é um processo rápido, Araujo tem outra história para contar:


“A primeira esquete que eu aprovei - eu entrei em dezembro de 2019 - foi só em fevereiro de 2020. Ela foi gravada, mas nunca foi ao ar. Tem esquete, como é o caso do ‘Novo Pantanal’, um assunto super quente, que eu fiz e já foi para o canal duas semanas depois. O Porta dos Fundos tem uma gaveta de projetos muito grande”. - Edu Araujo

Como todo processo coletivo de criação, existem regras a serem seguidas. Araujo revela que no Porta dos Fundos a regra é não tecer qualquer tipo de comentário ou reação durante a leitura. “A única coisa que você pode fazer é rir, se quiser. Isso é para não influenciar na decisão depois”, explica.


Ainda sobre o processo criativo da esquete, Araujo comenta que muitas pessoas ainda têm uma visão um tanto errada sobre sua criação. “Tem uma técnica para escrever esquete. As pessoas acham que escrever esquete é escrever uma cena. Na cena, por exemplo, eu já tenho personagem, eu já sei para onde eu vou levar o arco narrativo dessa personagem. É diferente escrever uma esquete. Às vezes você fica um dia inteiro em uma premissa e você não chega, ela não fica engraçada”, comenta Araujo, deixando bem claro que “nada é descartado ou apagado”.


O roteirista de não-ficção

"Música Boa Ao Vivo" - Imagem: Multishow - Globo

Quem vê o trabalho de Edu Araujo no Porta dos Fundos talvez não saiba que ele também vem se dedicando bastante a programas de não-ficção. Entre suas experiências, é roteirista no programa “Música Boa Ao Vivo”, do Multishow. Como é ser roteirista de não-ficção, afinal, com o desafio de trabalhar o ao vivo?


Araujo afirma que o melhor elogio que ele pode receber é “nem parece que tem roteiro, que tem algo escrito no TP (teleprompter)”. A transparência do trabalho como roteirista vai muito além do processo. “Isso ninguém conta - a gente reescreve muito”, comenta Araujo, que completa: “tem gente que acha que você escreve uma vez e pronto. A gente ensaia, a pessoa lê, muda a expressão, ensaia no palco, a pessoa sugere outra expressão, você reescreve… Isso deixa tudo muito bem afinado também”.


Adaptar o texto a apresentadora ou apresentador em questão, sua forma de se expressar, o que ela representa, mantendo sempre o ritmo do programa - tudo isso faz parte do processo do roteirista de não-ficção para a TV.


“Em não-ficção, lá fora eles chamam o roteirista de ‘writer producer’, um roteirista produtor. É um pouco isso. O roteirista precisa alocar os desejos de todo mundo. Em um programa musical, você precisa entender o repertório sugerido pela direção musical. Juntos, vocês definem os blocos de música a serem validados pela direção artística. Aquelas músicas fazem sentido juntas para contar uma história. Você também tem que atender aos desejos do artista, os desejos do casting, os desejos do canal.” - Edu Araujo

Edu Araujo resume muito bem a questão: “todo roteiro é técnico, mas o roteiro de não ficção é mais técnico ainda”. Isso faz muito sentido, uma vez que o roteiro de não-ficção precisa atender a tantas necessidades, mas também se tornar um documento de fácil compreensão por toda a equipe, que precisa ser extremamente ágil. “Se alguém não entender o seu roteiro, você não fez o seu trabalho”, resume o ponto.

"Música Boa Ao Vivo"
"Música Boa Ao Vivo". Imagem: Multishow

Edu Araujo destaca a realidade do trabalho em programas de não-ficção, principalmente aqueles exibidos ao vivo: a pessoa roteirista precisa ser dinâmica, saber ter jogo de cintura para adaptar o conteúdo de última hora e ter uma boa habilidade para trabalhar em equipe. Um trabalho que, por si só, parece contrariar bastante a ideia livre e fluida do seu processo como roteirista de esquetes.


A questão é que Edu Araujo se desenvolve como roteirista exatamente entre esses dois pontos: do processo de observação à dinâmica da troca. O ensinamento que ele deixa aqui, acima de tudo, é que existe um lugar onde a esquete de humor e o trabalho com não-ficção se encontram. Esse ponto é o “saber ouvir”. Independente do formato, o trabalho do roteirista solitário que escuta apenas as vozes da própria cabeça se apresenta quase como um mito. Para Araujo, o time que compõe o trabalho é parte do que vai ajudá-lo a “escovar as palavras”.


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