• Writer's Room 51

Escrevendo para o público jovem com Ray Tavares

Autora dedicada ao público infantojuvenil, Ray Tavares conta como foi sua transição para o audiovisual e dá dicas para quem quer escrever para a nova geração


Ray Tavares. - Imagem: arquivo pessoal

Com mais tempo a sua disposição e facilidade em criar forte relação com aquilo que consome, o público jovem está na mira dos canais e plataformas de streaming há muito tempo. É justamente essa a fatia da população que mais espera por conteúdos novos, mas muitas vezes não encontra tudo o que procura no cenário nacional.


Roteirista, você desenvolve ou já pensou em desenvolver projetos infantojuvenis? Você conhece o verdadeiro potencial de mercado do conteúdo para o público jovem? Para entender esses e tantos outros pontos, conversamos com a escritora e roteirista Ray Tavares, autora de seis livros infantojuvenis, que somam mais de 50 mil exemplares vendidos. Nos últimos anos, Tavares também passou a se dedicar ao audiovisual e agora integra salas de roteiro junto com grandes nomes da indústria.


Um lembrete: esse é um conteúdo construído em colaboração com o pessoal da Revista Perpétua. Lá no site deles vocês conferem a primeira parte da entrevista com foco na carreira literária da autora Ray Tavares. Se interessou pelo assunto e quer conferir o conteúdo completo? Acesse através deste link:


https://www.revistaperpetua.com/post/ray-tavares-das-fanfics-para-as-telas-de-cinema


Quem é Ray Tavares?

Ray Tavares. - Imagem: arquivo pessoal

Autora e roteirista, Ray Tavares possui três livros publicados pela Galera Record, “Os 12 Signos de Valentina”, com os direitos vendidos para a Boutique Filmes, “Confidências de Uma Ex-Popular”, com os direitos vendidos para a Paris Entretenimento e “Heroínas”, além de "Carta aos Astros", publicado pela MapaLab por financiamento coletivo e "Hacker" e "O Natal dos Neves" pela Amazon, somando mais de 50 mil exemplares vendidos.


No Wattpad, plataforma de histórias online, atingiu a marca de mais de 4 milhões de leituras em todas as suas obras e foi vencedora do prêmio Wattys de Voto Popular em 2017. Desenvolveu ainda “Judas”, um audiodrama de thriller, formato inédito no Brasil, e “OTP - Um Par Perfeito”, audiobook de romance, ambos lançados pela Storytel. Atualmente, escreve o próximo livro para a Galera Record, "As Vantagens de Ser Você", previsto para o segundo semestre de 2021.


No audiovisual, seu projeto “Robin” foi vencedor do Melhor Pitching e Segundo Melhor Roteiro de Piloto no FRAPA 2019. Atuou como roteirista na terceira e quarta temporadas da sitcom infantil “Bugados” (Scriptonita/Gloob) e, junto com Bia Crespo, escreveu o longa “Aô Sofrência” em parceria com a Sentimental Filmes. Atualmente, é criadora e chefe de roteiro de uma série ficcional em parceria com a Conspiração Filmes, para canal ainda não anunciado. Além disso, também participa do desenvolvimento e sala de roteiro de outros projetos ainda não anunciados, com as produtoras Boutique, Sentimental Filmes, TDC Conteúdo e Scriptonita.


Da literatura ao audiovisual

Ray Tavares. - Imagem: arquivo pessoal

Eu escrevo desde os 13 anos, mas para o roteiro eu migrei em 2019”, comenta Tavares, que deu seus primeiros passos na literatura escrevendo fanfics da banda Mcfly. Segundo a autora, trabalhar com fanfic “trouxe um senso de comunidade”. Entre suas influências literárias citadas do cenário brasileiro está Babi Dewet e Meg Cabot, escritoras de sucesso no cenário nacional que também devotam sua carreira ao público infantojuvenil.


“E foi assim que eu comecei. Não foi planejado, foi muito natural. Eu era uma adolescente tímida, com nenhuma aptidão para esporte, nenhuma aptidão social, como a maioria dos roteiristas”, brinca Tavares, que alguns anos depois viria a publicar o seu primeiro romance “Os 12 Signos de Valentina”, que chegou a atingir a incrível marca de 2 milhões de leituras no Wattpad.


“Em 2017 eu recebi o convite para publicar pela Galera Record depois de muitos ‘nãos’, muitos e-mails, muitas recusas. A gente acha que o audiovisual é difícil, mas o mercado literário é muito complexo. Série, novela e filme todo mundo assiste… Agora ler é um nicho ainda, não é um grande mercado no Brasil”. - Ray Tavares

Publicar um livro não significa que a vida de uma escritora muda, assim, do dia para a noite. Ray Tavares relembra sua realidade na época - formada em Gestão Pública pela USP, Tavares dividia seu tempo entre o trabalho em uma empresa de consultoria e auditoria e sua verdadeira vocação, a escrita. Foi só quando assinou o contrato para o seu terceiro livro que Tavares decidiu pedir demissão para poder se dedicar integralmente à escrita.


"Nesse ponto eu tinha entendido que não daria para viver de livros, infelizmente são poucas as pessoas que vivem exclusivamente de direitos autorais no Brasil hoje”, comenta Tavares, que continua: “aí eu comecei a pesquisar as minhas possibilidades dentro disso. Nessa época a produtora Pródigo se aproximou de mim para tentar adaptar ‘Os 12 Signos de Valentina’. Foi aí que eu conheci melhor esse meio audiovisual”.


Na época, a adaptação do seu livro acabou não indo para frente, mas Tavares teve seus primeiros contatos com o meio audiovisual e decidiu investir na sua formação como roteirista através de cursos especializados.


Formação, networking e trabalho duro


Ray Tavares. - Imagem: arquivo pessoal

A literatura acaba sendo meio que um cartão de visitas para quem está migrando. A literatura serve para mostrar seu estilo, como você conta uma história. Acaba sendo um ponto positivo para o roteirista que não tem nada filmado ainda”, comenta Tavares sobre o lado positivo de entrar na área audiovisual já tendo publicado alguns livros.


Afinal, além de apresentar bem o seu estilo, se você conquistou algum público com a literatura, muito provavelmente esse público se tornará uma prova de que o seu trabalho atende a um nicho. Ou seja, uma “materialização” do seu potencial comercial. Como nem tudo são rosas (na verdade são poucas as “rosas no caminho”), Tavares também reflete sobre pontos negativos nesse processo de migração:


“Eu sinto também que um ponto negativo é que às vezes as pessoas têm um pé atrás - ‘olha lá a autora de livros que acha que sabe o que tá fazendo’. Aconteceu comigo, não sei se acontece com outras pessoas. Mas eu sempre deixei claro que estava estudando, aprendendo, pedindo uma chance para mostrar o que eu sei fazer. Alguns produtores e roteiristas acabam te marcando como ‘a garota do livro’, então tem um pouco disso também. É uma barreira.” - Ray Tavares

Eu sinto hoje que muita gente fala que vai migrar da literatura para o roteiro, escreve um projeto e pronto, diz que é roteirista. Como que eu chego em uma profissão nova e digo que imediatamente sou também?”, reflete Tavares, que estudou o ofício na Roteiraria por dois anos antes de se apresentar como “roteirista”. Cursos especializados são ótimos ambientes para fazer networking, uma vez que além do objetivo em comum, normalmente os participantes têm acesso a materiais e projetos em desenvolvimento pelos colegas.


“Na Roteiraria eu fui conhecendo mais pessoas do meio. Conheci a Bia [Crespo] logo em seguida e consegui vender um projeto para a Paris Entretenimento, onde ela trabalhava na época”, responde Tavares. A autora brinca que 2019 foi “o ano do ‘sim’”, mas 2020 seria “o ano do ‘sim’ remunerado. Entre um estágio e outro, Tavares participou de muitas rodadas de negócios, desenvolveu projetos de graça e se apresentou a diversas produtoras.


“No final de 2019 eu e a Bia [Crespo] escrevemos o projeto ‘Robin’, baseado em um conto meu, e fomos para o FRAPA. Aprendi muito nesse processo com ela. E aí veio a minha primeira grande surpresa no audiovisual - a gente ganhou o Prêmio de Melhor Pitching e ficou em segundo lugar no Prêmio de Melhor Piloto. Foi a primeira coisa que escrevi na minha vida de roteiro e já ganhei alguma coisa, então eu pensei - ‘legal, depois desse tempo todo eu tive algum retorno, então acho que vou continuar investindo’” - Ray Tavares

Nesse meio tempo, Tavares adquiriu confiança como roteirista, vendeu os direitos do seu livro “Confidência de uma Ex-Popular” para a Paris Entretenimento e decidiu seguir investindo na sua formação. Esse trabalho de campo vinculado ao estudo constante garantiu a ela uma vaga na sala de roteiro da série infantojuvenil “Bugados” (Scriptonita/Gloob), criada por Luca Paiva Mello e André Catarinacho. “Passei 2020 inteiro fazendo a terceira e quarta temporada de ‘Bugados’ e desenvolvendo outros projetos”, comenta.