top of page

Entenda a diferença entre convenções de gênero e tropos narrativos

Atualizado: 7 de mai. de 2022

O que são as famosas "convenções"? Qual a diferença entre tropes e clichês? Entenda o básico e reflita sobre os elementos da sua narrativa!

Orgulho e Preconceito
Orgulho e Preconceito. Imagem: reprodução

Você já assistiu um filme que era para ser de terror… mas não tinha monstro ou assassino, perseguições, tensão ou mesmo sustos? Provavelmente, aquele não era um filme de terror convencional.


E não existe problema algum nisso. Porém, quem escolhe o caminho de escrever narrativas comerciais de gênero sabe da importância de reconhecer as convenções de cada estilo, bem como tropos (ou tropes) de personagens ou jornadas.


Mas todas as convenções contam como tropos? Ou é o contrário? Como não se confundir?


Para ajudar a esclarecer a diferença entre convenções de gênero e tropos, traduzimos, adaptamos e complementamos o texto da editora literária Savannah Gilbo, que você pode ler em inglês aqui. Savannah escreve sobre livros, mas suas dicas são sempre válidas para histórias audiovisuais. Confira!


O que são convenções de gênero?

Gandalf em "O Senhor dos Anéis"
Gandalf em "O Senhor dos Anéis". Imagem: reprodução

Convenções de gênero são elementos da história, como arquétipos de personagens e eventos-chave, que são comuns de serem encontrados em um gênero específico.


Essas convenções não apenas definem cada gênero específico, mas também definem as expectativas do público de uma história nesse gênero. Então, por exemplo, se alguém assistir a um romance, essa pessoa terá expectativas diferentes para essa história do que teria se visse um terror, certo? Isso porque cada gênero tem um conjunto específico de convenções e cenas obrigatórias que o fazem funcionar.


Leia nossa matéria sobre algumas das principais convenções temáticas do terror clássico


Essas convenções e "cenas obrigatórias" são objetivas, o que significa que elas precisam existir em uma história para dar forma a ela e fazê-la “funcionar” de acordo com as diretrizes do gênero. Aqui estão alguns exemplos de convenções de gênero:

  • Em uma história de mistério, você esperaria que houvesse pistas reais e pistas falsas para o detetive seguir. Essas pistas reais e falsas são uma convenção do gênero mistério.

  • Em um romance, você esperaria que houvesse um encontro, um primeiro beijo e talvez um interesse amoroso rival. Estes são parte da convenção do gênero romance.

  • Em uma história de ação ou aventura, você esperaria que houvesse uma figura mentora que ajudasse a protagonista a aprender, crescer e mudar. Esta é uma convenção do gênero de ação e também aventura.

  • Em um filme de terror sobrenatural, você esperaria ver ou ouvir fantasmas, descobrir segredos do passado. Estas são convenções do terror sobrenatural.


Agora, em cada um desses exemplos, observe que não são elementos muito específicos. O mentor do filme de ação é apenas um papel actancial concreto, que você precisa preencher da sua forma. Esse papel tem um propósito muito específico na história geral.


Teorias que se utilizam desses tipos de arquétipos foram criadas por diverses autores, como John Truby, Robert McKee e Linda Aronson. Mas como isso se conecta a tropos de personagem?


O que são tropos de gênero?

Adelaide
Adelaide em "Us".

Tropos (ou tropes, em inglês) são uma maneira específica de entregar ou apresentar convenções de gênero ou cenas obrigatórias em sua narrativa. São estabelecidas a partir da percepção geral de uma repetição narrativa ao longo dos anos, aparecendo em personagens ou no próprio enredo.


Então, continuando com o exemplo de uma figura mentora em uma história de ação, vamos pensar em algumas maneiras de apresentar essa figura na narrativa. Você pode ter um velho com uma longa barba branca, ou um eremita anti-social que vive nas montanhas e vive da terra. Você pode ter uma mentora excêntrica de meia-idade que se veste muito bem, ou você pode ter uma criatura mítica atuando como mentora.


Essas formas específicas de apresentar convenções de gênero em sua história são o que considero tropos – são interpretações subjetivas de uma convenção, amplamente utilizadas nas narrativas por aí.


Se o seu gênero exige uma figura mentora, isso não significa que precisa ser um Gandalf ou um Dumbledore. Você pode literalmente construir quem você quiser, desde que satisfaça a convenção. Na verdade, é só assim que você torna sua história única – satisfazendo as convenções do seu gênero de uma maneira nova ou inesperada.

Dumbledore em "Harry Potter"
Dumbledore em "Harry Potter". Imagem: reprodução

Mas o que aconteceria se você deixasse a convenção do papel de mentor fora de sua história de ação? O público provavelmente sentiria falta de alguém para preencher esse papel. É possível, até, que a própria pessoa espectadora tentasse preencher esse vazio, confundindo-se com outras personagens e suas funções.


Não apenas isso, mas a função que o mentor desempenha em sua história não seria cumprida. Então, sem uma figura aliada e sábia, que ajuda seu protagonista a aprender, crescer e mudar, como mostrar esse aprendizado de maneira crível? Quem está lá para apontar o que é certo e errado para a sua protagonista? Ou para mostrar-lhes os caminhos do mundo? Ou prestar assistência?


Isso ilustra algo muito importante na questão de convenções de gênero x tropos: as convenções geralmente têm uma razão objetiva para que existam em uma história, enquanto os tropos geralmente não.

Lembre-se: arquétipos se referem mais ao papel da personagem, enquanto tropo é relativo à personalidade dela ou seu papel como reconhecido na cultura pop. Arquétipo é algo anterior ao tropo e possui características mais "neutras". O tropo já se baseia em pessoas ou situações mais "reconhecíveis" e repetidas.

Portanto, as convenções de gênero precisam ser atendidas para que sua história funcione e satisfaça as expectativas dos leitores. Mas a maneira como você entrega essas convenções, ou os tropos que você escolhe usar, depende totalmente de sua imaginação.


Como evitar clichês e estereótipos na construção de tropos

"Orgulho e Preconceito"
"Orgulho e Preconceito". Imagem: reprodução

É importante perceber que algumas pessoas amam certos tropos, enquanto outras acham alguns cansativos e clichês. E, hoje em dia, fica fácil perceber como personagens e jornadas estereotipadas são nocivas.


Se um certo tropo é usado muitas vezes em um gênero específico, pode começar a parecer clichê, porque o público vê essa convenção da exata mesma maneira com muita frequência.


O problema é quando esses tropos são utilizados como desculpa para personagens mal pesquisadas, simplistas e socialmente nocivas!


Saiba mais sobre essa questão nesse vídeo da Carissa Vieira:


Aqui estão mais alguns exemplos de convenções sendo apresentadas como tropos:

  • A pessoa "escolhida" que precisa derrotar o lorde das trevas. Esta é apenas uma forma de apresentar a protagonista e a antagonista de uma história. Ambas são obrigadas a pertencer a uma história que funcione, mas a maneira como você as apresenta não é necessariamente sempre nessa configuração/representação. Depende totalmente de você e da sua imaginação.

  • O triângulo amoroso em um romance. Um triângulo amoroso é uma convenção do gênero romance. Tropos comuns que são usados ​​para apresentar essa convenção são um pretendente rico vs. um pretendente pobre, dois irmãos interessados ​​na mesma pessoa, etc. Agora, dependendo do tipo de história de amor que você está escrevendo, pode haver uma boa razão para incluir um desses tropos como uma representação do encontro com a convenção do gênero triângulo amoroso. Então, por exemplo, se sua história tem algo a dizer sobre o tema "ser rico x ser pobre", pode fazer sentido ter um pretendente rico vs. um pretendente pobre em seu triângulo amoroso. Esse tropo ajudaria você a cumprir a convenção do gênero e provavelmente o ajudaria a comunicar o tema da sua história.

  • A figura da Final Girl que sofre muito, mas sobrevive no final. Essa convenção do terror faz sentido e ainda é muito utilizada, mas muitas vezes pode ser bem previsível. Se o filme inicia com foco exclusivo em uma pessoa, já imaginamos que ela irá sobreviver. A questão é entregar os desafios e superações de maneiras novas ou inesperadas, sempre pensando nas especificidades daquela personagem. Já prestou atenção na trajetória da Regan, de Um Lugar Silencioso (2018)?


Agora, conheça alguns erros comuns quando se trata de tropos e convenções - e como evitá-los.


3 erros comuns no uso de convenções e tropos de gênero


1. Ignorar convenções de gênero por achar "previsíveis" ou "clichês"


Não quer utilizar uma convenção na sua história? Sem problemas! Mas faça isso conscientemente, e não por achar que vai estar caindo no "clichê".


Essa abordagem é um erro porque as convenções de gênero nos ajuda a escrever uma história funcional dentro de um gênero – elas nos ajudam a satisfazer as expectativas que o público tem.


O que geralmente acontece nesse cenário é que roteiristas optam por ignorar as convenções de gênero e acabam com uma história que não funciona ou não se encaixa em nenhum gênero. E, quando se fala em cinema comercial, isso pode ser um problema.

(500) Dias com Ela
"(500) Dias com Ela". Imagem: reprodução

Por exemplo, romances tendem a ter uma má reputação porque as pessoas pensam que são previsíveis, em grande parte devido ao fato de que, para escrever um romance, você precisa de um "final feliz". Porque, quando você pensa em um romance, pode pensar em elementos como um casal, beijos ou intimidade, algo que os separa, um grande gesto amoroso e um final feliz para sempre, certo?


Essas coisas são esperadas por espectadores ou fãs do gênero. As pessoas lêem e assistem histórias de romance para se sentirem insatisfeitas ou até enganadas se não enxergarem essas coisas lá.