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Filmes brasileiros em festivais internacionais: qual a importância?

Atualizado: 6 de fev. de 2020

Confira os filmes brasileiros nos principais festivais internacionais de 2020 e entenda porque é tão importante que nosso cinema circule mundo afora

Bacurau
Cena de "Bacurau". Imagem: reprodução

Todo mundo sabe que, para uma indústria florescer, é necessário se internacionalizar. No contexto atual do país, isso se torna absolutamente fundamental para a solidificação e desenvolvimento da indústria cinematográfica


Portanto, a difusão dos títulos e narrativas brasileiras pelos festivais e telas do mundo não só é bem-vinda como urgente. Para falar sobre isso, vamos traçar um panorama sobre a situação atual e listar alguns filmes brasileiros que andam fazendo bonito pelos festivais internacionais.


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A urgência de se internacionalizar 


Os motivos principais para essa urgência de circular com nosso cinema por aí estão centrados nas incertezas culturais e políticas, já que o caos sociopolítico chegou com tudo para cima do audiovisual brasileiro.


A ameaça é tão grande que já perdemos recursos, cortamos orçamentos e pioramos nossos editais pela ANCINE.

Elenco de "Bacurau"
Elenco de "Bacurau". Imagem: reprodução

A partir daí, percebemos a revolta da classe artística, não só nas redes sociais como também nos temas e abordagens dessa safra de filmes mais recente - como exemplo, "Bacurau" de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, ou "Democracia em Vertigem", documentário de Petra Costa. 


O caso de Bacurau, por exemplo, é interessante. No filme, o que prevalece é a vontade de fazer um filme de gênero, um produto tipo-exportação que carregue muito da realidade brasileira em forma de nordestern.


Apostar no gênero para traçar um panorama poético é uma ótima estratégia de internacionalização, já que os símbolos narrativos de um filme de gênero são realmente universais e movimentam bastante as bilheterias.


Sobre isso, Juliano Dornelles conta ao El País que "os filmes de gênero são muito mais fortes quando o mundo está alimentando ideias e realidades absurdas. E nosso país é muito rico em absurdos, há alimento para mais de dois mil filmes. Bacurau é só mais um".


Além de carregar uma narrativa sólida, bem executada e altamente crítica para o exterior, Bacurau levou o Prêmio de Júri na 72ª edição do Festival de Cannes, um dos festivais de cinema mais privilegiados do mundo.

Bacurau em Cannes
Bacurau em Cannes. Imagem: Carta Capital

Um filme de gênero desse estilo também tem espaço nos festivais, que são importantes plataformas de reconhecimento e negócios para a carreira do cineasta. Portanto, é muito interessante ver o filme brasileiro como um produto de reflexão e comunicação - de nossos medos como uma nação, incertezas, hábitos culturais e talento - sendo bem recebido nessa plataforma tão importante.


Para quem vê de fora, chama a atenção nossa capacidade de articulação dentro desse universo de "filme-protesto", "filme-espelho" ou outras noções.


Construímos filmes delicados, fortes, coesos. E isso reflete na entrada de capital de investimento internacional, como as milhares de co-produções, filmagens locais, sucesso de produções de streamings e investimento estrangeiro geral no mercado cinematográfico brasileiro.

Mendonça Filho e Dornelles
Mendonça Filho e Dornelles. Imagem: reprodução

Não é só a Europa ou os EUA - o resto do mundo está de braços abertos para conhecer como nós pensamos e vemos a sociedade, a política, nossas relações e todos os outros elementos que vão da vida para a narrativa.


Ou seja: agora, mais do que nunca, há uma urgência no cinema brasileiro de ser difundido, assistido, reconhecido e desenvolvido. A internacionalização coloca mais uma pressão (ótima) em cima dessa situação, pedindo por mais recursos, mais realizações e mais difusão.


O caso de sucesso internacional do cinema sul-coreano

Elenco de "Parasite" no SAG Awards
Elenco de "Parasite" no SAG Awards. Imagem: Vanity Fair

Um bom exemplo para refletir sobre a importância da internacionalização é observar a política cultural da Coréia do Sul. Com o recente sucesso absoluto de "Parasita" (Parasite, 2019), de Bong Joon-ho, o mundo voltou seus olhos novamente às telas sul-coreanas. 


O sucesso do cinema da Coréia do Sul não é necessariamente novidade, mas ainda está relativamente no início da sua jornada de glória internacional. 


Em um documento oficial, a superintendente de análise de mercado da ANCINE Luana Rufino  nos explica muito bem o trajeto deles.


Começando pelo salto do market share da indústria audiovisual sul-coreana num espaço de 20 anos, por exemplo, vemos em números o efeito de um decente e coeso investimento cultural por parte do governo: em 1994, o cinema nacional possuía um market share de apenas 2,1%. Já em 2014, alcançou a marca de 57% (contra 12% do market share do cinema no Brasil em 2015).


O que mudou no audiovisual sul-coreano nesse meio tempo?


A implementação de políticas públicas adequadas às especificidades nacionais, atuantes em todo o processo audiovisual: conhecimento, desenvolvimento, produção e distribuição

Bong Joon-ho
Bong Joon-ho. Imagem: O Globo.

Um bom exemplo é a implementação da “Motion Picture Promotion Law” em 1995, com o intuito de atrair capital para o estabelecimento de um fundo setorial (assim como no Brasil) e para a criação de incentivos fiscais para o setor audiovisual


Essa política de promoção foi até mesmo chamada de “Learning from Hollywood” (Aprendendo com Hollywood), se inspirando nos incentivos iniciais presentes na mega indústria norte-americana. 


Nesse contexto, a idéia da internacionalização inteligente também foi bem aplicada: depois da crise financeira asiática, o governo sul-coreano voltou a orientar as políticas de exportação do audiovisual nacional como uma nova iniciativa econômica.


Nesse processo, Luana explica que "houve uma articulação das políticas públicas para envolver as demais empresas sul-coreanas que atingissem não só os conglomerados (chaebols), mas também a indústria que é independente dessas grandes empresas, no sentido de dar mais estabilidade ao crescimento do setor".


Outro exemplo um pouco mais superficial e rápido, nesse mexmo contexto, é a carreira do autor Bong Joon-ho, também vencedor de Cannes, do BAFTA desse ano e concorrente ao Oscar, em seis categorias, por Parasita.

Bong Joon-ho
Bong Joon-ho no Golden Globes. Imagem: reprodução

O roteirista e diretor iniciou sua carreira na Coréia do Sul e, após seu trabalho em "O Expresso do Amanhã" (Snowpiercer, 2013), co-produção entre os EUA e a Coréia do Sul, sua internacionalização foi instantânea e lhe possibilitou usufruir de outros trabalhos junto a Hollywood.


Parasita, contudo, é um fenômeno internacional de alma essencialmente coreana. É um filme que lida com a desigualdade presente em diversos países, mas através de uma linguagem narrativa específica da terra natal de Bong.


Ao falar sobre Parasita em Cannes, ele afirma:

Eu me vejo como um diretor de cinema de gênero. Faço filmes de gênero, mas não gosto de seguir os códigos convencionais para filmes de gênero. Eu tento transmitir mensagens sobre a sociedade através desses códigos quebrados, e desta vez estou muito satisfeito por ter conseguido fazer o filme com esses atores fabulosos.

Para Bong, o caminho para a internacionalização se deu através da aposta nos filmes de gênero - unido ao ambiente econômico-cultural coreano favorável.

Parasite
Parasite. Imagem: reprodução

A realização de filmes de gênero, obviamente, não é o único caminho para a difusão do nosso cinema. Pelo contrário: a homogeneização do cinema só tem a contribuir com aspectos negativos à cultura dos países.


A questão, portanto, é fazer bom uso das políticas públicas e pensar em narrativas essencialmente brasileiras que conduzam o olhar externo para as nossas questões de um modo bem articulado e interessante - como fez Bacurau, Cidade de Deus, Central do Brasil, O Beijo da Mulher-Aranha e tantos outros.


E a internacionalização no audiovisual brasileiro?


Olhando para nosso panorama atual, entendemos que um dos pilares que sustenta nossa produção é o Fundo Setorial do Audiovisual, existente desde 2006. Ele promove fomento audiovisual com retorno fiscal às empresas que contribuem. Leia mais aqui.

Lázaro Ramaos dirigindo "Medida Provisória"